Bívar: uma nova forma de sentir Faro

Bívar: uma nova forma de sentir Faro

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Da esquerda para a direita, Teresa Correia e Davide Alpestana (Palácio do Tenente), Ana Palmeiro (Sardinha de Papel) e António Lacerda (Associação Nacional de Designers)
Da esquerda para a direita, Teresa Correia e Davide Alpestana (Palácio do Tenente), Ana Palmeiro
(Sardinha de Papel) e António Lacerda (Associação Nacional de Designers)

Deus quer, o Homem sonha e a obra nasce, as palavras do Mar Português pessoano encaixam na perfeição na afirmação de Bívar como um evento que já marca a agenda cultural de Faro.

A iniciativa, que tem na sua génese vários parceiros, provou que o dito impossível e o propalado improvável, podem ser de facto transformados em realidade incontornável. Haja para tanto inspiração e vontade ‘divinas’, a força do engenho humano e a obra faz-se.

A prová-lo estão a delegação regional da Associação Nacional de Designers, a Sardinha de Papel, o Palácio do Tenente, o Hotel Faro e a autarquia local, que se uniram numa aposta que não sendo absolutamente original era até há bem pouco tida como inusitada para a cidade de Faro. Dinamizar uma rua da cidade capital de distrito – a Rua Conselheiro Bívar – com o ensejo de ser a génese de um outro ‘olhar e fazer’ para a dinamização alargada da baixa da cidade.

O pontapé de saída dado pela vontade desta paleta diversa de actores locais – que em comum têm aquela rua de Faro – de unirem as suas actividades de dinamização cultural e comercial fez o primeiro Bívar sair à luz dos dias em Outubro de 2013.

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Surpresa… ou talvez não, a Conselheiro Bívar encheu-se de gentes para ver, ouvir, sentir e percorrer a artéria pedonal. Com apenas as redes sociais e pouco mais como base de comunicação, como referiu ao Cultura.Sul António Lacerda, da Associação Nacional de Designers, o evento ganhou uma dinâmica inusitada.

“Não prevíamos um sucesso tão grande na primeira edição”, refere. Mas a uma programação diversificada que engloba artesanato, teatro, performances de rua, música, animação quantidade bastante, exposições, instalações e muito mais nessa infinda planície de possibilidades que é a cultura, se juntarmos uma vontade férrea, muito trabalho e uns toques de muita alma, o resultado é por vezes agradavelmente surpreendente e ei-lo tornado facto visível no Bívar.

Se se havia de esperar, depois de uma primeira edição bem sucedida e do rescaldo da surpresa dos organizadores, uma ressaca capaz de garantir o sucesso de um novo Bívar, o longo se fez curto e de súbito em Dezembro estava na rua o segundo evento.

Ainda antes do Natal, o Bívar fez-se à rua e novamente com estrondo e sucesso capazes de garantir ter pernas lestas para andar.

Afinal, a obra deste grupo de verdadeiros empreendedores sociais e culturais era capaz de fazer jus ao nome do ilustre farense que é a marca do evento, Manuel Bívar.

A força da união das diversidades

“Somos todos muito diferentes, mas completamo-nos”, diz António Lacerda sobre os membros do núcleo duro, numa organização, que afirma ter sido “muito fácil” pôr de pé para dar corpo à realização do conceito inicial.

Às dificuldades que sempre se apresentam a iniciativas deste género, sem financiamento de arranque e sem cobrança de entradas, os organizadores responderam com a congregação de vontades e o que se procura é que o evento “seja auto-sustentável”.

Os artistas e performers, os voluntários, os comerciantes e lojistas e demais forças vivas da Conselheiro Bívar – e já de outros espaços da baixa farense – perceberam, vão percebendo e perceberão decerto melhor com o tempo, que em cada uma destas iniciativas trazem à baixa a cidade e os visitantes, os turistas e os simples passantes e que esta é uma das formas de devolver ao centro de Faro uma pujança há muito perdida para as novas centralidades comerciais.

Entretanto, não se baixam os braços e faz-se de cada Bívar a força vital do próximo que há-de vir. No passado fim-de-semana, a fechar Fevereiro e em uníssono com o Carnaval, a terceira edição levou à Rua Conselheiro Bívar, tarde e noite fora, muitos visitantes e nem o sobressalto de uns pingos de chuva puseram em causa o sucesso da iniciativa, com o concerto dos RareFolk a encher o espaço do antigo Chiado como há décadas se não via.

Na rua o Te-Atrito deu vida a personagens, o Palácio do Tenente mostrou às hostes exposições e instalações, o Mercado da Traça deu nota do artesanato e a Sardinha de Papel mostrou o muito que se pode descobrir na Conselheiro Bívar. As esplanadas convidaram a sentar-se entre um copo e dois dedos de conversa, os espectáculos de novo circo animaram miúdos e graúdos e muito mais houve para se descobrir na centenária rua farense com apenas as pedras da calçada como testemunhas, elas e mais umas centenas largas de convivas que não deixaram de visitar mais esta edição do Bívar.

Seis edições este ano

Na calha estão, adianta António Lacerda, mais cinco edições do Bívar para 2014. “A ideia é a promoção de seis edições por ano” deste que é um novo conceito para a cidade e que em breve ganhará um novo espaço de comunicação com uma plataforma própria que promete institucionalizar o evento numa plataforma on-line talhada sob medida com o apoio de uma empresa local.

Nesta terceira edição, que a ligar o Bívar com o Carnaval teve um notório bigode como imagem de marca – ou não fosse Manuel Bívar dono de um desenhado bigode ele também – o evento rompeu já os limites da Rua Conselheiro Bívar e há espaços comerciais espalhados pela baixa farense a associar-se-lhe levando a iniciativa para outras geografias farenses. Exactamente o que se pretendia e pretende com uma iniciativa que se quer orgânica na evolução e capaz de atrair à baixa todos os públicos com uma oferta tão diversificada quanto possível, tendo como âncora um evento em que a aposta se faz pela qualidade da oferta em todos os domínios.

Afinal o desafio de unir vontades numa baixa desagregada e desgarrada entre si é uma aposta que provou que pode ser ganha e o Bívar a prova de que os farenses podem ter como destino mais do que as grandes superfícies comerciais.

A diferença faz-se exercendo-se, as dificuldades vencem-se enfrentando-as e os sucessos ganham-se atrevendo-se e o Bívar é isso mesmo, um enorme, desejável e frutuoso atrevimento.

Faro está diferente e para prová-lo basta que se atreva. No próximo Bívar em vez de ficar em casa vá até à Conselheiro Bívar no centro de Faro e deixe-se arrebatar, porque a cidade tem muito mais do que se pensa para mostrar.

De resto, a cidade apenas tem de se render à evidência de que há sempre espaço para inovar e vencer, olhar para o exemplo e seguir os passos de uma nova forma de estar. A Faro resta aprender a ‘Bívar’.

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