O regresso das vendas: tradição, cultura e boa mesa

O regresso das vendas: tradição, cultura e boa mesa

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Vasco Prudêncio e Ana Fonseca fazem da Venda um espaço único
Vasco Prudêncio e Ana Fonseca fazem da Venda um espaço único

As vendas, as tabernas, as mercearias e as tascas ainda povoam o imaginário de muitos de nós e para alguns – felizardos – nunca deixaram de ser uma realidade, porque em zonas mais rurais estes pequenos comércios nunca desapareceram do dia-a-dia dos algarvios.

A SUPA (Companhia Portuguesa de Supermercados) do Grupo C.U.F., criada em 1969, abriu em Lisboa o primeiro supermercado do país no ano seguinte, na Avenida Estados Unidos da América, e o fenómeno das prateleiras intermináveis não mais teve fim. Na senda da oferta multimarcas e do crescimento do sector da distribuição, também por terras algarvias nasceram, qual cogumelos, os novíssimos supermercados. Quem não se lembra do velhinho Horta em Faro, só para dar um exemplo.

As vendas e mercearias foram cedendo terreno e perdendo a tal quota de mercado, como a foram perdendo as tabernas e as tascas a favor dos restaurantes e snack-bar e, mais tarde, dos fast food massificados e massificantes. 

Uma nova era feita de registos de outros tempos

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Eis senão quando tudo parece estar a tomar outro rumo e no Algarve, como no país, estão a renascer um pouco por toda a parte, e muito em particular nas cidades, novas vendas e tascas e abrem portas novas tabernas e mercearias.

Os conceitos são vários, desde a estratégia base do ‘abrir a porta e depois logo se vê’ até às mais sofisticadas associações ao estilo gourmet, mas todas dentro do espaço do pequeno comércio tradicional e é exactamente esta uma das características que importa realçar nestes novos negócios.

É gente nova, a fazer nascer negócios novos, a recuperar tradição e saber fazer e a oferecer alma, cultura, gastronomia e modus vivendi que se foram perdendo na loucura da modernidade e do imediatismo.

Há uma nova realidade que une produtos locais a marcas de outros tempos, economia sustentável a artesanato, questões ambientais a uma dieta tradicional e um sorriso na face ao conhecer pelo nome quem nos atende por detrás de um balcão.

A Venda em Faro

O Cultura.Sul saiu à rua para conhecer um destes novos espaços que recuperam uma forma de estar e de receber de outros tempos e, em Faro, encontramos as mercearias mais gourmet e as tascas mais aprumadas desta nova geração e, depois… encontramos a Venda, diferente de tudo e absolutamente singular.

Pelas mãos de Ana Fonseca e Vasco Prudêncio, no centro da cidade, a Venda é uma realidade única e aquilo que começou por ser uma mercearia ganhou novos contornos e tornou-se numa verdadeira sala-de-estar onde além de encontrar produtos para comprar com marcas antigas e da região, se pode sentar, degustar um vinho e provar as especialidades da casa num espaço que é cada vez mais uma tasca ou taberna.

Mas não uma tasca ou taberna qualquer. Quando se entra na Venda – mal se passa por uma inesquecível estante de mercearia dos anos 40 ou 50, recheada de produtos de marcas de outros tempos – entra-se na sala-de-estar das nossas bisavós.

Do mobiliário às paredes, do naperon ao balcão, dos retratos aos candeeiros, o momento é de um flashback que nos transporta a outro tempo.

A receber-nos um sorriso contagiante. A alma, de quem acolhe o cliente “como se estivéssemos a receber os amigos em casa”, invade a conversa onde surgem as propostas inusitadas de uma ementa feita dia-a-dia de sugestões criadas sob medida.

Cheira ao cheiro característico da casa-de-jantar onde brincámos em pequenos, num espaço feito de mobiliário restaurado conquistado em feiras de velharias e nas arrecadações da família. O chão tem os ladrilhos antigos a marcar um tempo datado e recheado de memórias e a iluminação projecta-se dos abat-jours de vidro cromado em forma de campânula.

“Esta casa tem uma história antes da sua própria história”, refere Ana Fonseca, “tudo aqui já teve imensa vida antes de aqui ter chegado”.

Até no horário a Venda é sui generis, durante a semana abre até às 20 horas, e só à sexta e sábado abre as portas para o jantar, mas de resto a cozinha está sempre aberta para os petiscos ou as tábuas de queijos e enchidos, ou ainda para pequenas delicadezas imaginadas como se se estivessem a servir “lá em casa aos amigos e sem querermos ser gourmet, porque queremos que a boa comida seja para todos”, refere Vasco.

A isto se junta, sempre, uma proposta vegetariana diária e a possibilidade de um bom vinho para acompanhar dois dedos de conversa num ambiente que de tão singular só pode ser entendido quando vivido.

Uma proposta diferente

Se tudo na Venda não fosse absolutamente diferente, a proposta “A Venda convida” seria uma surpresa, mas não é.

A Venda propõe no primeiro sábado de cada mês um jantar no mínimo peculiar. A escolha do tema é feita pelo espaço comercial e ao jantar podem aceder por marcação até 20 pessoas, que a única coisa que têm em comum é o facto de não se conhecerem e aceitarem o desafio.

Assim ao marcar lugar neste jantar os convivas sabem que, em princípio, não conhecem os seus companheiros de refeição e numa mesa única a proposta é desafiar as possibilidades e conhecerem-se pessoas pela simples razão de que partilham o espaço da Venda.

Uma iniciativa que Vasco e Ana dizem estar a ser um sucesso e em que as pessoas aparecem para jantar já com o espírito de aventura que um blind date comensal encerra em si mesmo. Assim se faz mais uma das peculiaridades da Venda, num jantar onde não reserva mesa, mas sim cadeira.

Seja pela mão da Venda ou de outras tantas propostas ditas alternativas que vão surgindo um pouco por toda a parte nas malhas urbanas algarvias, há um renascer da cultura da mercearia e da tasca, há um reviver da conversa de palheta com palheto que regressa ao nosso convívio nas vendas e tabernas e que nos enriquece quer no aspecto social, quer na recuperação do modo de ser e de estar tradicional.

Há surpresas por aí à espera de vivermos hoje um jeito algarvio de conviver por entre retalhos de um outro tempo, numa paleta de propostas imperdíveis.

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