Da paz podre na Velha Europa

Da paz podre na Velha Europa

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Ricardo Claro Jornalista
Ricardo Claro
Jornalista

À Europa chamam-lhe velho continente e é nessa velhinha Europa tida por muitos – esquecidos da realidade histórica – como de brandos costumes, que no passado domingo tudo deixou de ser como era. E, pior do que isso, deixou de ser como era e parece não haver razão para alarme para quem dirige os destinos políticos da velha senhora.

Quais damas nos braços de Morfeu, Barroso, Junker, Dijsselbloem, Rompuy e os próprios Chefes-de Estado e de Governo, à cabeça com Hollande, lamentam a votação massiva nos extremistas e nos anti-europeístas e apelam à união dos defensores da União Europeia, mas fazem-no a meia voz perante um facto incontornável, os extremistas entram no Parlamento Europeu pela porta grande, a do voto popular.

A França do Liberté, Egalité, Fraternité e, agora, de Marie Le Pen e da FN (Frente Nacional), à cabeça de uma prole que traz consigo: Nigel Farage do UKIP (Partido da Independência do Reino Unido); o Partido da Liberdade da Áustria, que ganhou as eleições no país de Hitler, com Heinz-Christian Strache na liderança; o Vlaams Belang, que conseguiu eleger um deputado por terras da Bélgica e Geert Wilders, que somou quatro lugares para os seus ideais vindo da Holanda.

Números a que se somam os cinco assentos da Liga Norte italiana; os sete deputados do partido anti-Euro alemão Alternativa para a Alemanha e o lugar conquistado pelo neonazi NPD também em terras da senhora Merkel; enquanto na Grécia o Aurora Dourada soma três parlamentares.

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Estes e outros bons rapazes de uma Europa desiludida com a traça da política de uma União Europeia ausente dos seus Estados-membros e dos seus cidadãos – sim, cidadãos desde Maastricht que já tem 22 anos – chegam ao hemiciclo em Bruxelas e Estrasburgo escudados numa votação que em larga medida lhes foi entregue de mão beijada pelos líderes europeus. 

Da paz podre à memória fraca

A pacata Europa mostra-se no rescaldo da eleição a que muitos, muitíssimos faltaram (56,91%), igual a si mesma nestes últimos anos. Apagada, medíocre, a sussurrar sobre um problema que deveria ser debatido a plenos pulmões. Em suma poeirenta e ‘naftalizada’.

É esta velha senhora, de líderes caducos na capacidade de agir com produção efectiva de efeitos e sumida, que de brandos costumes, diga-se, nada tem. A história faz dela a grande senhora dos conflitos e a mãe de duas Grandes Guerras e não deixa dúvidas que a beligerância, mais, a belicidade, é genética por terras para cá dos Urais.

A memória é fraca… muito fraca e o medo é hoje pouco mais do que vestígio, como a espuma das ondas que passam.

É no mar chão que se fazem à maré aqueles que muitas vezes a ele sucumbem atirados ao vazio desamparado pelos vagalhões que a espuma efémera da onda calma não anunciou.

É na paz podre que os sulfúreos gases se geram e coligam, na dormência de uma erupção sempre avisada pela possibilidade e tantas vezes esquecida no regaço da incauta e nobre paz.

A velha senhora, qual Vesúvio, retorce-se silenciosa e a isto assistem os seus líderes que apenas se esquecem que ali, como na ida Pompeia, as edificações senhoriais não escapam ao lastro que traz o bolsar de um dia infeliz em que, do silêncio, a erupção troa rumo a todos os que aos seus pés a olham siderados de espanto.

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