Diogo Infante, uma ode à arte de representar

Diogo Infante, uma ode à arte de representar

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Diogo Infante trouxe ao Lethes a Ode Marítima, de Álvaro de Campos
Diogo Infante trouxe ao Lethes a Ode Marítima, de Álvaro de Campos

‘Fifteen men on the dead man’s chest. Yo-ho-ho and a bottle of rum!’ 

Dito assim talvez para muitos pouco ou nada signifique. Para outros, no entanto, será facilmente identificável a Ode Marítima de Fernando Pessoa, na persona de Álvaro de Campos. Para outros, ainda, aqueles que assistiram às duas apresentações do espectáculo de Diogo Infante no Teatro Lethes, em Faro, será uma frase dificilmente olvidável.

Ali o actor disse-a repetidamente enquanto olhava o porto, retratado em cena por amarras descendo do alto para se enroscarem em enormes cunhos plantados nas tábuas do palco. Ali o actor a fez soar, troar e majestaticamente bradar num misto de oral e corporal inesquecíveis.

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Diogo Infante no seu melhor, imenso na ‘insanidade’ de um monólogo complexo, retorcido e de uma significância inaudita do homem que se quer diverso do que é, e ao seu eu retorna depois do desvario.

Há teatro assim, onde a riqueza do texto nos deixa siderados, mas só o há assim quando os actores o são, eles mesmos, excelsos. Diogo Infante foi memorável, irrepreensível, físico na expressividade levada ao limiar da exaustão.

Por entre as palavras de Álvaro de Campos, Diogo Infante fez-se senhor absoluto de um palco inteiro – partilhado apenas por João Gil à Guitarra – e encheu-o do agigantamento do personagem que foi um crescendo constante.

O público refém de uma dicção perfeita e de uma expressão cénica irrepreensível acabou o espectáculo mudo e quedo até rebentar num aplauso sem reservas.

As palavras de Álvaro de Campos encheram a sala mas, mais do que isso, encheram as mentes de quem escolheu o Lethes para um fim de noite com uma das referências maiores do teatro nacional da actualidade.

A cada passo e sempre no momento certo, a música original de João Gil marcou os ‘entrepassos’ de um espectáculo de cortar o fôlego.

Diogo Infante levou-se ao limite, da voz colocada ao esforço desmesurado que enrouquece e torna a voz tábua rugosa cravejada de significado e emoção. A ninguém pode ser indiferente a mestria e a dedicação do actor numa peça que, como o próprio disse à audiência, lhe é “muito especial”.

No saldo de uma noite farense de teatro fica a certeza de que ali mesmo, onde se estreou há mais de duas décadas, no Lethes, Diogo Infante trouxe ao seu Algarve um presente de rara beleza, a sua arte feita monumento ao mister de representar.

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