Em busca do silêncio perdido

Em busca do silêncio perdido

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Paulo Pires *
Paulo Pires *

Há homens que buscam (a musicalidade d’)o silêncio e fazem tudo por uma boa imagem. A linguagem musical transmite o que, apesar de não traduzível em palavras, não pode permanecer em silêncio (escreveu Victor Hugo), mas Bernardo Sassetti [BS] (1970-2012) convocaria decerto para esta reflexão o pensamento de Aldous Huxley: depois do silêncio, o que mais se aproxima de transmitir o inexprimível é a música.

BS sabia bem que o silêncio e o segredo podem ser plenos de verdade, virtude, sabedoria, liberdade, pensamento e espírito, e que nessa confissão não confessada, tantas vezes solitária, sem fronteiras ou limites (que faz do longe perto), desfila uma cativante, surpreendente e (não poucas vezes) insondável gramática do mundo.

O poder onírico e lirismo das imagens (o sonho dentro do sonho, segundo Allan Poe) e a função heróica, reveladora ou enlouquecedora das cores (todas) – na linha de Michael Mann, um dos cineastas predilectos do pianista –, aliados a essa mudez/recolhimento de oiro, são motivos centrais na obra de BS.

Cruzando pintura/imagem e música, Kandinsky equiparava a cor à tecla, o olho ao martelo e a alma a um piano de inúmeras cordas. Curiosamente, BS costumava dizer: “A forma como tiro uma fotografia tem muito a ver com a forma como me atiro ao piano. É difícil explicar… A fazer fotografia oiço música, a fazer música vejo sempre imagens”. Fascinava-o a tentativa constante e desafiadora de compreensão do poder de sedução das imagens, sobretudo daquilo que os outros consideravam secundário, menos objectivo nelas: uma certa estranheza, mistério…

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A memória traz-me de volta as primeiras impressões que tive das suas performances ao vivo: para além da extrema sensibilidade e respeito que revelava pela música e pelo piano (uma espécie de prolongamento espiritual do seu corpo), sobressaía a simplicidade, humildade, sinceridade (aquela rara “verdade natural”), discrição e uma genuína gentileza, feitas de uma certa timidez infantil e de um ar ternamente desajeitado/inadaptado quando confrontado com a necessidade de falar em público.

Bernardo Sassetti
Bernardo Sassetti

“É curioso pensar que muitas vezes as pessoas confundem a espiritualidade com a tristeza”

Em relação à sua música, BS sublinhava esta distinção: “É curioso pensar que muitas vezes as pessoas confundem a espiritualidade com a tristeza. Um tema lento, por exemplo, não tem que ser necessariamente triste. Eu não acredito em tristeza na minha música”.

Movia-o uma constante procura interior, uma busca dos sons e de uma representação que tivessem a ver com a sua vida, através de uma espécie de meditação silenciosamente musical em que procurava contar uma história através do piano. Considerava o improviso algo tão espontâneo e verdadeiro que, segundo ele, talvez fosse um dos grandes exemplos de humanidade na música.

Gostava de morar numa terra de ninguém, sem ser rotulado com um “J” de jazz estampado na testa. Havia pessoas que o abordavam na rua e diziam: “O seu disco é interessante, mas no próximo talvez pudesse pôr um pouco mais de melodia”. Não era um compositor e intérprete catalogável no universo tradicional do swing, da tradição negra/branca, com todas as influências que a Europa adoptou do jazz puro e duro. Andava sempre à procura de novas sonoridades, ouvia muita música contemporânea, mas tinha consciência de que a sua obra não era fácil e até um pouco hermética.

Admirava Carlos Barretto (contrabaixo) e Alexandre Frazão (bateria) – o seu trio habitual – pela inspiração e telepatia que os unia, pela cumplicidade, pela “comunicação absoluta no momento”, como gostava de dizer. E fazia-lhe muita confusão aqueles músicos que passavam dias a fio em estúdio a gravar tudo em separado. Para BS o jazz era um “gajo estranho” e, como tal, “tem que ser mais vivo, tem que ser naquele momento e de preferência vivendo da frescura de um primeiro take. Aconteça o que acontecer. Se for muito mau repete-se, mas o gozo é a procura no estúdio. É outra filosofia, nem precisamos de falar”. 

Não compunha nem tocava a pensar no aspecto comercial ou financeiro, e não se importava de ser pirateado. Apenas queria ser ouvido e que as pessoas percebessem o porquê da sua música, o projecto intrínseco à mesma, o work in progress, até porque achava muitas vezes que a sua obra era muito pouco “útil” para os outros. 

Prazer e sofrimento

Além de fonte de prazer, a arte musical também era para si um sofrimento, um conflito entre aquilo que gostava de fazer e aquilo que não conseguia fazer no momento. Assumia que a música era antes de mais para quem a fazia e que começava sempre por ser um gesto algo egoísta (“não há outra forma de ser verdadeiro”), daí fazer discos e tomar opções artísticas sem demasiada preocupação com a opinião dos outros.

BS não gostava que ouvissem os seus discos no rádio do carro, porque perdia-se a noção do detalhe, a intencionalidade do intérprete, e criticava a forma como a música é misturada por produtores/editores, no pico do volume, perdendo dinâmica, pormenor, qualidade: “Está tudo altíssimo e estamos todos a ficar surdos. Acredito que 90% do mundo ouve música de forma errada e não é por culpa sua. É apenas porque não conhecem outro som, outra forma de ouvir”. E usava como exemplo o seu trabalho Um Amor de Perdição (2009), ao qual se dedicou mais de um mês para chegar a uma sonoridade que muitos acharam depois baixa: “Mas é assim que deve ser ouvido para se ouvir o que se quis lá pôr para ser ouvido”.

Em 2011 BS e a actriz Beatriz Batarda (sua esposa), revisitaram (ele na composição e interpretação ao piano, ela na leitura) a obra A Menina do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen. Nessa história há um menino que sonha em conhecer o fundo do mar e que, depois de muitas aventuras, consegue realizar esse desejo com uma menina que era dançarina das ondas.

Deixem-me acreditar que o golfinho (do conto de Sophia) amparou o “mergulho” de BS no Guincho e o levou até uma recôndita “praia extasiada e nua”, onde ele pôde (re)encontrar o “grande vento límpido do mar” (versos de Sophia) e um piano solitário que uma menina do mar enfeitou com corais e búzios.

* Programador cultural
no Município de Silves
esteoficiodepoeta@gmail.com

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