Portugal recupera a memória da Grande Guerra

Portugal recupera a memória da Grande Guerra

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Criar um acervo histórico sobre a participação de Portugal na I Guerra Mundial é objectivo do trabalho dos historiadores
Criar um acervo histórico sobre a participação de Portugal na I Guerra Mundial é objectivo do trabalho dos historiadores

Uma equipa de investigadores quer registar as memórias de familiares dos 100 mil portugueses que participaram na I Guerra Mundial (1914-1918), dos relatos que fizeram aos diários que escreverem, passando pelos postais, e objectos diversos.

Trata-se da iniciativa “Dias da Memória” que irá decorrer de 17 a 19 de Outubro, na Assembleia da República, em Lisboa, que abre portas a todos que que queiram partilhar histórias de família, postais, cartas, objectos ou quaisquer “registos que ajudem a perpetuar a memória da I Grande Guerra”, disse à Lusa a historiadora Fernanda Rollo.

Portugal e o Algarve na Grande Guerra

Recorde-se que se assinalam este ano os cem anos sobre o início da I Guerra Mundial, a 28 de Julho de 1914, na qual Portugal entrou de forma expressa na data da declaração de guerra ao país feita pela Alemanha a 9 de Março de 1916, apesar dos combates em África desde 1914 com o objectivo de defender os territórios portugueses naquele continente.

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Em 1917, as primeiras tropas portuguesas, do Corpo Expedicionário Português, seguiam para a guerra na Europa, onde enfrentariam um derrame de sangue, em particular na Batalha de La Lys, em Abril de 1918.

O Algarve contribuiu para a constituição do Corpo Expedicionário Português com o Batalhão n.º 4, integrando a 2ª Divisão da 5ª Brigada. Militares de toda a região deram assim o seu contributo ao lado dos aliados na frente de batalha, razão pela qual ainda hoje as placas evocativas da sua participação no conflito proliferam um pouco por todos os concelhos do Algarve. 

Além da presença militar na Europa os algarvios enfrentaram na região, como os portugueses um pouco por todo o país, fortíssimas restrições, nomeadamente alimentares, quer com os racionamentos impostos, quer com a obrigação de entrega ao oficiais do Estado da parte de leão do que produziam nas terras de cultivo.

A história de um tempo de miséria no país

De acordo com a historiadora Fernanda Rollo “além das memórias deixadas pelos que participaram, interessa-nos também muito, como a guerra foi vivida dentro do território nacional, os racionamentos, o clima social, as greves, os motins, as contestações, por exemplo a revolta da batata em 1917 envolveu 400 presos e a morte de 40 pessoas”.

Esta é a primeira iniciativa da Europeana, a maior biblioteca digital da Europa (VER) www.europeana.eu, onde todo o material digitalizado será disponibilizado, tornando as memórias dos portugueses acessíveis a todos e em todo o mundo, “desde o vulgar cidadão aos investigadores de diferentes áreas, não apenas da história”, realçou.

“Já algumas pessoas disponibilizaram materiais, através da rede social ‘facebook’, por exemplo diários. Há um maior exercício diarístico dos portugueses do que se pensava, tendo em conta que só os oficiais saberiam escrever, pois havia um elevado nível e analfabetismo em Portugal”, disse Fernanda Rollo.

Memória dos combates em África

Outra área em que “parece haver muito material são os postais, que os militares enviavam de onde estavam”, tendo em conta que as tropas portuguesas não só combateram em França e na Flandres, como nas então colónias portuguesas, “um dos pontos de honra da República”, regime recentemente implantado.

“Há uma pessoa que nos disse que tem em seu poder 500 postais que é uma riqueza incalculável”, disse a historiadora.

Uma mala médica com uma cápsula de cafeína, espingardas, um capacete de um soldado, muitas cartas e postais, são alguns dos materiais já revelados pelas famílias. 

Todo o acervo disponível on-line

Todo o material que for disponibilizado, “ficará de imediato ‘online’ quer na Europeana, quer no sítio on-line do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (VER). http://ihc.fcsh.unl.pt/pt/recursos/sitios-ihc/item/36659-portugal-1914-1918

A historiadora salientou a possibilidade de as famílias “colocarem em depósito nas instituições públicas esses objectos, onde podem ser devidamente salvaguardados, sem nunca perder a sua propriedade, inclusive da utilização das imagens”.

A iniciativa coordenada por Fernanda Rollo, do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, conta com uma equipa de 40 pessoas, e os apoios de várias instituições públicas como o arquivo e museu da Assembleia da República, o arquivo Histórico Diplomático e o Militar, entre outros.

Fernanda Rollo reconheceu a importância desta iniciativa decorrer noutras partes do país, como o Porto ou nos Açores “onde há uma memória muito viva do conflito mundial”, mas não adiantou se se realizariam. Todavia, disse, foi pedido o apoio a todos os municípios que facilitassem o transporte, de modo a que as pessoas possam participar na iniciativa na Assembleia da República.

“Esta é uma acção de mobilização na construção da nossa memória”, realçou.

(Com Agência Lusa)

 

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