Lagos e Portimão acolhem Festival Verão Azul

Lagos e Portimão acolhem Festival Verão Azul

234
PARTILHE
Momento do espectáculo "O estado Salvaxe" de Pablo Fidalgo, que integra o Festival Verão Azul
Momento do espectáculo “O estado Salvaxe” de Pablo Fidalgo, que integra o Festival Verão Azul

Lagos é, por inerência histórica, uma terra cosmopolita. Outrora porque ponto de partida para o desconhecido e de chegada dos arrojos culturais de outras paragens e hoje porque a veia turística lhe dá a provar notas soltas de aromas culturais de outros sítios e situacionismos culturais.

Há ali ventos de que se cruzam e que trazem, na ponta da rajada, traços soltos de diversidade cultural e actualidade a que importa estarmos atentos, mas que, acima de tudo, importa preservar e promover. É neste esteiro que teima em sulcar terras de lacobrigenses e ali acolher diversas manifestações culturais que se espraia o Festival Verão Azul, que pela quinta edição traz a Lagos um rasgo de contemporaneidade.

Cinco edições não são sinal de maioridade – para o que quer que esta sirva em termos culturais – mas são evidência de resiliência e afirmação no panorama dos festivais de artes por terras algarvias.

Estas são algumas das razões que fazem com que o Festival Verão Azul marque, entre os dias 23 e 26 de Outubro, a agenda cultural de Lagos e Portimão.

- Pub -

Há no programa da iniciativa, que nasce das mãos da casaBranca, e nas propostas que encerra uma lufada de ar fresco. Há arrojo, diversidade, policromia e amplitude, abarcando – numa paleta pensada por Ana Borralho e João Galante – um conjunto de manifestações culturais que não deixam à margem nenhum público e que são, isso sim, um regaço ilimitado para os mais diversos gostos.

Apresentado como um festival “de cariz transdisciplinar”, a obra faz-se presente una na diversidade conceptual, com exposições, cinema, leitura, espectáculos vários, música, conversas, performances, concertos e clubbing, estendendo as apresentações entre Lagos e Portimão. 

Cinema, da animação ao documentário

No cinema o Verão Azul propõe várias abordagens, desde as sombras feitas primores da animação pela arte de Lotte Reiniger, aos documentários em “Fala Tu” ou “Estamira”, dos brasileiros Guilherme Coelho e Marcos Prado, respectivamente, ou ainda, “Tarja Branca”, que relança um olhar certeiro sobre o espírito lúdico na actualidade, sob a direcção do curitibano Cacau Rhoden. 

Clubbing Verão Azul

O Festival Verão Azul é também sinal de música e, no caso do clubbing, os djs de serviço são a dupla Guerreiro Galante. A proposta é ouvir o que os decks nos mostram da união acidental entre João Galante e Nelson Guerreiro em terrenos de música de dança.

Exposições

Na área das exposições Lagos e Portimão preparam-se para acolher “Esquecer Mata”, uma interpretação de Andrej Derkovic que cruza o esquecimento que recai sobre as mortandades bélicas ao longo dos tempos com as mensagens constantes dos maços de cigarros sobre os malefícios do tabaco.

Fumar mata dá assim lugar a “Esquecer Mata”, porque também a fraca memória é assassina quando a curta memória se faz ignorância vinculante na escolha de percursos belicistas.

Já em “Souvenirs From Europe”, um projecto da Ghost Editions, 15 cartazes de artistas que vivem e/ou trabalham na Europa dão expressão a um protesto.

Numa proposta actual sob pano revivalista das contestações de 60 e 70 do século passado, A Galeria Lar é espaço escolhido para receber a exposição que já percorreu cidades como Atenas, Bruxelas, Guimarães, Kiev, Lille, Lisboa ou Paris, e que se prepara para se mostrar em Berlim, Istambul, Lausanne, Rennes, Porto e Coimbra, entre outras cidades europeias. 

Leitura

O Verão Azul propõe duas alternativas na área da leitura, que podem bem ser cumulativas, com Pablo Fidalgo Lareo a apresentar “Mis Padres: Romeo y Julieta” e Mónica Simões e José Pelicano a mostrarem “Onde é o lá?”, uma leitura encenada com seniores, que mais do que uma apresentação constitui um verdadeiro workshop.

Concertos e espectáculos

Bruno Pernadas é um dos músicos que se apresenta nesta edição do Festival Verão Azul. Com “L’Appartement” percorrem-se sonoridades, folk, jazz e o universo exploratório dos ambientes da Música Tonal e Atonal.

Já em “By Heart”, importa perceber-se a importância de saber textos de cor e de como estes, uma vez decorados, nos integram como verdadeiras extensões do eu cultural. Quando os livros são confiscados ou as bibliotecas encerradas a memória surge-nos como a salvaguarda última da liberdade. Um espectáculo de Tiago Rodrigues com produção da Mundo Perfeito.

O Teatro Municipal de Portimão (TEMPO) acolhe dois concertos do Festival Verão Azul, “3 (Três) Brutos”, pelos Tribruto, que une as vozes de Kristo e RealPunch ao dj e samples de Gijoe, contando com convidados como Reflect, Edgar Valente e Cenoura, e “Sereia Louca”, de Ana Matos: Capicua de Alma e Coração, a rapper do Porto, que mostra assim o seu segundo trabalho.

Miguel Fragata e Inês Barahona contam a história de um homem e de uma manada de elefantes em “A Caminhada dos Elefantes”, uma peregrinação em honra de um homem que mais do que isso era, também ele, um membro da manada.

Pablo Fidalgo Lareo faz-se aos territórios da performance por terras lacobrigenses com “O Estado Sevaxe. Espanha 1939”, que revisita a Espanha da II Guerra Mundial e da Guerra Civil, numa viagem que se faz no âmbito familiar do próprio autor.

Conversas e conferências

Finalmente espaço, ainda, para o “Ciclo de Conferências – A Grande Dívida”. Em dois momentos este ciclo traz-nos, pela mão de Rui Catalão, “A exaustão da confiança”, numa reflexão sobre a actualidade da desagregação da solidariedade social e “A Sagração da Primavera escondida” numa reflexão sobre A Sagração da Primavera, de Stravinsky, num contexto de formação juvenil.

À conversa se vai descobrir o projecto editorial Ghost Editions, com os editores David-Alexandre Guéniot e Patrícia Almeida.

Razões de sobra para que Lagos e Portimão incluam a agenda dos algarvios entre 23 e 26 de Outubro, com o Festival Verão Azul como pano de fundo, numa viagem pela contemporaneidade e pelo real e insólito que a arte pode retratar e mesmo criar.

Um agitar de consciências servido em modo festival a não perder por terras do sotavento durante quatro dias em que a Cultura se apresenta igual a si mesma, sempre imprevisível, sempre desafiante.

Toda a informação e programação do festival pode ser consultada na internet (VER).

Facebook Comments

Comentários no Facebook