A última dama do Estado Novo

A última dama do Estado Novo

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Beja Santos
Beja Santos
Assessor do Instituto de Defesa do Consumidor
Consultor do POSTAL

“A Última Dama do Estado Novo e Outras Histórias do Marcelismo”, por Orlando Raimundo, Publicações Dom Quixote, 2014, é uma incursão aos mistérios da vida pessoal e familiar de Marcello Caetano. Pertencem ao domínio público diferentes ângulos da sua formação, aparato ideológico, a sua colaboração a Salazar (de quem não era um indefectível nem timorato seguidor), os seus anos de governação, a partir de Setembro de 1968, até ao desenlace do 25 de Abril. O seu drama familiar (a prolongada decadência da mulher doente), a dedicação da filha Ana Maria aos pais, permanecem num limbo a que não é alheio a capacidade de Marcello Caetano em deixar na penumbra a tragédia da mulher e certos meandros do seu currículo de monárquico fervoroso, integralista e jovem pobre que se alcandorou a um lugar cimeiro e prestigiante da sociedade e do meio universitário. A tal incursão se acometeu o prestigiado jornalista e escritor que é Orlando Raimundo.

Graças à sua amizade com Henrique de Barros, que durante o salazarismo será nome incontornável da oposição, frequentará a casa do professor João Barros, antigo ministro da I República, e se tomará de amores por Teresa de Barros. Desde jovem que Marcello navegará no ideário da extrema-direita, o que não o impedirá de manter uma relação respeitosa com o sogro e de mais família. Este mesmo jovem Marcello aderirá ao Integralismo Lusitano, um ano antes do 28 de Maio. Licenciado em Direito com alta classificação, é contratado por Salazar como assessor jurídico, chega até ao ditador pela mão de Pedro Teotónio Pereira. É a rampa de lançamento para a política. Em 1931, Marcello já integra a Comissão Executiva da União Nacional, isto enquanto Salazar afasta João de Barros da acção educativa e cívica, reduzindo-o à mera condição de professor liceal. Marcello progride na política e prestigia-se como professor universitário, a sua vida familiar parece completa e feliz. Orlando Raimundo vai fazendo aparecer um conjunto de jovens adeptos do regime que ficarão na órbita de Marcello e quando este, a partir da demissão de reitor da Universidade de Lisboa, em 1962, ficar aparentemente fora de cena, irá ouvindo-os num espaço conhecido como o Grupo de A Choupana. Os detractores de Marcello irão dizer que Salazar, aos poucos, foi perdendo a consideração por Marcello, o que é muito duvidoso para quem ler a correspondência trocada, em circunstância alguma Salazar se despediu de um colaborador como o fez como Marcello em 1958.

O autor espraia-se pela evolução do regime após a morte política de Salazar e é nesse contexto que se retoma o fio à vida familiar, acompanhamos a educação dos filhos (três rapazes e uma rapariga) e o autor centra-se na formação de Ana Maria, como esteve noiva de Adriano Moreira e se rompeu o noivado, e como ela acompanhou os sofrimentos de Teresa de Barros no prédio n.º 46 da rua Duarte Lobo, ali perto da avenida de D. Rodrigo da Cunha. Assistimos a todo o longo itinerário da evolução da doença e como Ana Maria acompanha as viagens de Estado do pai, o autor enfatiza a viagem a Londres de Marcello em Julho de 1973, fora programada para ser um grande sucesso, transformou-se num desaire quando a imprensa britânica revelou o massacre de Wiriamu, em Moçambique, que terá provocado 600 vítimas.

A seguir ao 25 de Abril, Marcello partiu para o Brasil onde reiniciou uma nova vida de professor catedrático de Direito. A filha não quis ficar com o pai, terá sido duríssima na apreciação da situação: “Não sou política, nunca fiz política e não tenho nada a ver com a sua política. O pai fez uma escolha e agora está a sofrer as consequências dela, mas eu não tenho que pagar por isso”. A despeito desta recusa, irá visitar o pai diversas vezes ao Rio de Janeiro. Ana Maria só se casará dezassete anos após a morte do pai, mantendo sempre um comportamento discreto até face ao passado histórico da família.

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