Seminário promove luta contra o desperdício no Algarve

Seminário promove luta contra o desperdício no Algarve

362
PARTILHE
Combate ao desperdício alimentar está a movimentar a sociedade civil algarvia
Combate ao desperdício alimentar está a movimentar a sociedade civil algarvia

O desperdício é um problema em qualquer área. A produção de bens que não chegam à cadeia de consumo ou que uma vez ali chegados não contribuem para a satisfação das necessidades humanas ou ainda quando contribuindo pecam por excesso, gerando sobras inaproveitadas, constitui sob todos os pontos de vista o problema de gestão de oferta e de procura, de aproveitamento de recursos, de poluição ambiental e de alocação indevida de valor.

Na área alimentar o flagelo do desperdício assume no entanto especial relevo, num mundo onde, segundo a Agência da ONU para a Alimentação e a Agricultura, em 2012, há mais de 840 milhões de pessoas que estão subnutridas e onde 1,3 mil milhões de toneladas de bens alimentares são desperdiçados, num valor de 750 mil milhões de dólares por ano.

Um terço da produção alimentar mundial acaba no lixo. A verdade choca, mas é exactamente isso, a verdade.

As respostas passam por várias actuações de diferentes sectores públicos e privados, mas passam acima de tudo pela consciencialização geral e pela acção de cada um de nós individualmente e enquanto actores sociais.

- Pub -

Algarve aborda a temática do desperdício alimentar

A temática foi abordada, recentemente, num seminário sobre o desenvolvimento de projectos na área do combate ao desperdício alimentar, levado a cabo em parceria pela Associação Portuguesa de Criatividade e Inovação (APGICO) em associação com o Centro de Investigação sobre Espaço e Organizações (CIEO) da Universidade do Algarve, no âmbito da Incubadora de Projectos Empresariais para a Inclusão (IPEI).

A darem conta da sua experiência neste campo e no dos trabalhos de acção social que lhe estão intimamente ligados estiveram Marta Teixeira (Refood Faro), João Amaro (Tertúlia Algarvia), Carla Rosa (Refood Algoz) e Paula Policarpo (Zero Desperdício), lado-a-lado com Pedro Cebola (C.A.S.A.), Marco Formosinho (Universidade do Algarve), e Nuno Alves (Banco Alimentar – Algarve), com a moderação do painel a cargo de Fernando Cardoso Sousa, da APGICO.

As experiências partilhadas mostram a diversidade de níveis de implementação dos vários projectos na região, com o Centro de Apoio ao Sem Abrigo (C.A.S.A.) e o Banco Alimentar a darem conta de anos de trabalho no terreno e projectos como o Refood em várias localidades algarvias a retratarem os passos de arranque no combate ao desperdício alimentar e na promoção de políticas sociais de apoio alimentar.

A necessidade de um trabalho integrado

Destaque para a ideia de que qualquer trabalho na área do apoio alimentar e do combate ao desperdício passa, necessariamente, por um processo em rede, que potencie as disponibilidades de oferta alimentar e aproveitamento de bens na linha de produção, distribuição e consumo dos alimentos e que remeta para valores marginais a duplicação de auxílio às pessoas carenciadas e as perdas de competitividade do trabalho social realizado.

A força do sector social privado

Nota de relevo para a compreensão, absolutamente determinante neste combate contra a fome e carência alimentar, para a incapacidade das respostas sociais do Estado e das entidades públicas locais.

Embora determinantes, as entidades públicas sozinhas nada fazem e o sector privado, constituído por associações e instituições particulares de solidariedade social, garante uma fatia de relevo do apoio alimentar dispensado às populações.

Assim se responde às cerca de 360 mil pessoas que passam fome em Portugal de forma mais eficiente e é exactamente na área privada do apoio social que todos podemos ajudar, dos empresários aos cidadãos, atravessando transversalmente toda a sociedade.

Quer sejamos simples cidadãos, proprietários de restaurantes e similares, quer empresas proprietárias de hotéis e empreendimentos turísticos, todos podemos ajudar e há para todos um lugar na cadeia de valor social que se deseja reforçar e para a qual este seminário foi pensado. 

Os números do flagelo

A comida produzida no mundo que acaba no lixo daria para alimentar três mil milhões de pessoas, mais do que suficiente para pôr cobro às situações de subnutrição no planeta.

Só em Portugal a estimativa aponta para cerca de 50 mil refeições desperdiçadas diariamente nos restaurantes do país. De fora ficam os números decerto expressivos de cantinas em escolas, empresas e hospitais, entre outros locais, no sector dos similares de hotelaria em geral e na própria hotelaria e, muito em particular, os desperdícios de cada português.

A somar ao panorama do desperdício estão os impactes ambientais com 10% da produção de gases com efeito de estufa, nomeadamente de CO2, a ser imputável à indústria alimentar e o peso incalculável do desperdício no volume de resíduos sólidos urbanos produzidos em todo o mundo, que constituem uma preocupação cada vez mais premente.

No campo do consumo de recursos, a água assume especial destaque com o desperdício alimentar a representar um consumo de recursos hídricos potáveis suficiente para garantir a satisfação das necessidades de nove mil milhões de pessoas no mundo.

Noutra perspectiva que alia ambiente e saúde pública a produção intensiva de alimentos cujo destino acaba por ser, num terço do total produzido, o lixo, provoca uma exaustão dos solos e a sua contaminação com pesticidas e adubos que acabam por extinguir a utilidade dos terrenos e contaminar os recursos hídricos do subsolo, ao mesmo tempo que através das escorrências determinam o aumento dos índices de poluição no mar e na cadeia alimentar ali originada.

Num mundo onde são produzidas quatro mil quilocalorias de alimentos por pessoa, quando o consumo médio recomendado é de apenas duas mil, a fome é inadmissível ainda que se invoquem questões de sustentabilidade dos mercados de bens alimentares.

A resposta passa por todos nós e encontra acolhimento para a boa-vontade de todos sem excepção numa das muitas instituições regionais que todos os dias lutam no terreno contra as carências alimentares dos algarvios.

Seja como doadores de alimentos ou de refeições confeccionadas, seja enquanto voluntários, instituições como o C.A.S.A., a Refood, o Banco Alimentar ou outras estão à distância de um simples telefonema, de um e-mail ou de um contacto pessoal directo.

As dificuldades do voluntariado

Aliás, entre as maiores dificuldades de todas as associações que desenvolvem trabalho nesta área está a gestão e recrutamento de voluntários.

Uma organização de apoio a carências alimentares pode chegar a necessitar de centenas de pessoas mensalmente para dar resposta à demanda em cidades como Faro , Portimão ou Albufeira.

Não basta ter comida para distribuir, há que contar com quem operacionalize a distribuição e com quem a faça, pelo que todas as ajudas são bem-vindas.

Num seminário que realçou dificuldades, mas acima de tudo muitas vontades dispostas a fazer real a ajuda ao próximo, a Associação Portuguesa de Criatividade e Inovação (APGICO), o Centro de Investigação sobre Espaço e Organizações (CIEO) da Universidade do Algarve e a Incubadora de Projectos Empresariais para a Inclusão (IPEI) deram mais um passo para a afirmação da rede social de apoio social no campo da ajuda alimentar.

Muito se espera desta iniciativa que juntou actores do sector e deu a conhecer estratégias para um desenho sempre melhorado.

O seguimento dos trabalhos para a implementação de soluções optimizadas e para a majoração dos resultados do relacionamento em rede destes protagonistas será agora seguido por reuniões de trabalho que pretendem avaliar a implementação dos objectivos traçados.

Facebook Comments

Comentários no Facebook