O outro lado da guerra colonial visto por Dora Alexandre

O outro lado da guerra colonial visto por Dora Alexandre

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Beja Santos
Beja Santos *

A autora adverte-nos logo no limiar da conversa de que não é um livro convencional sobre aquelas guerras de África que mobilizaram mais de um milhão de jovens, entre 1961 e 1975: “Não se centra nos conflitos, não explica aos bastidores ou a estratégia militar. Mas é um livro sobre a vida durante a guerra. Apesar dos momentos menos bons que muitos terão vivido, os militares portugueses não passavam os dias a lamentar a sua sorte. Souberam adaptar-se às circunstâncias, ser fortes, encontrar soluções criativas e trazer de lá momentos que vale a pena recordar”.

Primeiro, aquelas viagens de barco, para alguns de avião, as despedidas dolorosas, os enjoos, a expectativa do desembarque. E depois a descoberta de uma nova realidade, o embate perante genes e costumes, o deslumbramento com a fauna e a flora, os mosquitos, o calor infernal, as formigas construtoras de bagabaga, a marabunta, as formigas devoradoras, os tornados, as chuvas diluvianas, os arrozais, as florestas espectaculares.

Segundo, a diversidade de fazer a guerra, as tropas em destacamentos, vivendo como em ermitérios, abastecidas sabe Deus como, as tropas especiais, os fuzileiros com as suas lanchas e os seus zebros, guerras com muitos tiros ou muito poucos, e as múltiplas especialidades, desde as transmissões, passando pelos maqueiros e cozinheiros até às autometralhadoras, os baptismos de fogo, o primeiro morto do nosso grupo de combate, os hinos e cantigas para animar a malta, é um repositório de peripécias de que se escolhe uma, felizmente com um final feliz.

Era conhecido pelo Vila de Rei, um soldado muito alto em bem constituído que andava para ali cheio de febres altas e tremores. Combatia a doença indiferente aos tiroteios e morteiradas constantes. “A dada altura, quando a Companhia de Pára-quedistas 121 estava dentro do perímetro de Gadamael-Porto, presenciou o cúmulo do azar: uma granada acertou precisamente na palhota onde estava o soldado doente, deixando-a completamente destruída. Nem queriam acreditar… Dentro da vala onde se protegiam do ataque inimigo, os pára-quedistas entreolharam-se, consternados, comentado o infortúnio do rapaz por quem, infelizmente, já nada havia a fazer. A granada acertara-lhe em cheio. Eis que, para surpresa de todos, viram então chegar o suposto defunto a arrastar o físico a muito custo, e a ficar especado e incrédulo perante a destruição do local onde tentava curar-se do paludismo: tinha ido à casa de banho…”.

A vida no mato tinha a ver com toda esta diversidade e as respostas que as unidades encontravam, melhorando o conforto, cultivando hortas, dando assistência médica às populações, assegurando a defesa com fortins, arame-farpado, valas, abrigos para os combustíveis e viaturas.

Quarto, era um mundo de logística complicada, por vezes os reabastecimentos eram verdearias operações, os cozinheiros tinham que imaginar menus com ingredientes intragáveis, como a dobrada liofilizada, e os quartéis sujeitos a flagelações permanentes tinham que receber as munições na manhã seguinte, lá vinham os helicópteros. Logística complexa, e também prestadores de serviços desvelados, caso dos médicos e dos enfermeiros nos hospitais da retaguarda.

Quinto, as diversões, a procura de sexo, o ensino das primeiras letras aos soldados praticamente analfabetos que não podiam abandonar a tropa sem o exame da 4ª classe. Ficamos aqui com um quadro bem completo que como se desanuviava o espírito em tempo de guerra, imitando touradas, indo à caça, ouvindo música, escrevendo aerogramas. E um dia a guerra acabou, nuns casos houve conversações amistosas com os inimigos de ontem, como na Guiné, noutros assistiu-se à eclosão da guerra civil, como em Angola, com os seus cenários dantescos.

Dora Alexandre em 50 entrevistas registou memórias e vivências especiais e soube vazá-las numa reportagem animada, colorida, onde entram artistas, militares de carreira, somos tomados por histórias insólitas, algumas bem divertidas, casos de boémia desopilante e até entra no saco das memórias o cabo Domingos, conhecido como Belle Dominique, um travesti que deu muito que falar. Uma interessante recolha de peripécias e recordações… porque há memórias da guerra que nunca se apagam, mesmo que não metam mortos nem feridos.

* Assessor do Instituto de Defesa do Consumidor e consultor do POSTAL

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