Os segredos de Lisboa e as surpresas arqueológicas ao nosso alcance

Os segredos de Lisboa e as surpresas arqueológicas ao nosso alcance

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Beja Santos
Beja Santos*

Percorrer Lisboa sobre o signo da arqueologia decifrada tem muitos aliciantes, permite novos olhares sobre o Castelo de S. Jorge, os vestígios do Teatro Romano, a Muralha de D. Dinis, a Muralha Fernandina, aprender a passear com o sentido da descoberta de uma história envolta na Lisboa à beira-rio e entrar no WC do Largo da Sé para descer ao passado, mas há mais, muito mais à nossa espera, como abona o livro “Segredos de Lisboa, Vestígios arqueológicos surpreendentes sob as ruas da capital portuguesa”, por Inês Ribeiro e Raquel Policarpo, A Esfera dos Livros, 2015, um estimulante guia para percorrer Lisboa a partir do subsolo.

Estas duas jovens arqueólogas trazem novas propostas para conhecer e melhor compreender a história de Lisboa através de vestígios arqueológicos que se podem situar no Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros, no Claustro da Sé de Lisboa, o livro ajuda a interpretar o que resta do Palácio dos Marqueses de Marialva que se situava, grosso modo, onde está hoje o Largo de Camões e passear com outros olhos nos Reservatórios da Mãe d’Água das Amoreiras e da Patriarcal, isto para já não falar no belo passeio que podemos dar na Ribeira das Naus.

O Castelo de S. Jorge é um dos passeios mais inspiradores, foi Paço Real, mas antes disso há por ali testemunhos desde a Idade do Ferro, da presença romana, da vida árabe na alcáçova de Uxbuna, dos tempos da reconquista, D. João I fez grandes alterações ao Paço Real que só viria a ser abandonado por D. Manuel I quando foi viver para o novo Paço da Ribeira. Foi nesse castelo que D. João I mandou celebrar o casamento de sua filha D.ª Isabel com o duque da Borgonha. Foi também aqui que D. Manuel I recebeu Vasco da Gama. E depois começou um período de triste desconsolo. O grande terramoto de 1755 causou grandes destruições, o que exigiu a construção de novos edifícios. As autoras fazem propostas a partir do acesso pela porta mandada construir por D.ª Maria II, é por aqui que se entra para o Bairro do Castelo (em tempos idos, chamava-se Porta de S. Jorge). E explicam: “O acesso à alcáçova islâmica fazia-se através de mais três portas principais. A Porta de Santa Maria de Alcáçova está hoje desativada e protegida por uma grade, localizando-se junto ao Palácio Belmonte, no outro lado do Largo do Chão da Feira”. Neste castelo que foi Paço Real o visitante pode visitar o núcleo museológico onde se encontram parte da coleção recolhida ao longo das intervenções arqueológicas que decorreram no castelo entre 1996 e 2008. E estimulam o leitor: “A entrada no museu faz-se através da Sala Ogival, onde se pode ver uma grande reprodução da Lisboa quinhentista e tentar adivinhar que edifícios ainda se encontram de pé tantos séculos depois. A coleção destaca a vivência do período islâmico no Castelo, com exposição na Sala das Colunas e, na Sala da Cisterna, pequenos recantos expõem peças pertencentes a realidades que vão desde a Idade do Ferro até ao pós-terramoto. Mais de mil anos de História concentram-se numa sala que é por si só uma longa viagem no tempo”.

A capa do livro
A capa do livro

Visitar o Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros é procurar conhecer a presença romana neste lugar da baixa lisboeta, ali no Tejo havia fábricas de conservas e de molhos de peixe, o visitante encontra testemunhos de tanques, como de alguidares de cerâmica, há também vestígios de termas privadas e da metrópole romana. Mas há também outras razões para a visita: “A história do período Muçulmano é contada sobretudo pelas taças, potes e jarrinhas de uso diário, decoradas com as típicas riscas brancas e acompanhados dos tradicionais candis que, com azeite e um pavio, iluminavam a noite”. E, mais adiante: “O último espaço relembra a Lisboa dos Descobrimentos, com as suas taças e pratos de faiança azul e branca, o capitel de coluna e os azulejos hispano-mouriscos de um antigo palácio que ali se erguia antes do terramoto”.

Temos aqui obra para grandes passeios: para adivinhar onde se situava, ali ao lado do Rossio, o Hospital Real de Todos os Santos, ir até aos antigos Armazéns Sommer, na Rua dos Cais de Santarém, e procurar admirar o que as escavações estão a revelar do Palácio de Coculim, onde se escondem vestígios do período romano; e deslumbrar-se com o labirinto do Aqueduto das Águas Livres, há muito para ver na Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos, no Reservatório da Mãe d’Água das Amoreiras, no Reservatório da Patriarcal e na Galeria do Loreto. Espera-nos uma Lisboa repleta de segredos, seja num parque de estacionamento ou numa improvável casa de banho pública, no Largo da Sé.

* Assessor do Instituto de Defesa do Consumidor e consultor do POSTAL

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