Tavira de Atalaia 2

Tavira de Atalaia 2

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Rui Cabrita Tavira
Rui Cabrita
Tavira

Após assistir à extraordinária conferência comemorativa dos 30 anos da “Casa das Artes”, realizada no passado sábado, 15 de Agosto, em que muito oportuna e apropriadamente se falou e debateu a temática da “Programação cultural em cidade de pequena dimensão”, apraz-me vir reiterar a justeza de se dar ao Quartel da Atalaia o destino público que Delgado Martins e outras Forças e Pessoas desta cidade defendem.

Para além da sua grande oportunidade, vejo na reversão do QA em favor da Cidade um passo de gigante para uma abordagem dum problema que vem constituindo preocupação cada vez mais notória dos Tavirenses, que passa pela falta de espaços apropriados e com condições para o desenvolvimento das actividades culturais. Pese embora tenham sido facultadas pela Câmara Municipal algumas instalações para funcionamento de clubes, grupos e associações culturais constata-se que em parte dos casos são inapropriadas e lhes limitam até a acção.

Ao longo de todo o ano a “agenda cultural de Tavira” é abundantemente preenchida com as mais diversas actividades. À programação “oficial” desenvolvida pela Câmara Municipal, com grande incidência no período estival/turístico acrescem diversas iniciativas de associações/clubes ou grupos que com grande dinamismo e voluntarismo preenchem ao longo do ano um importante espaço cultural e constituem uma elevada mais-valia da nossa cidade. E é desses que pretendo falar.

A não existência de espaços vocacionados para os agrupamentos e associações funcionarem acarreta como natural consequência, e à partida, para além dum improviso na acção, uma expedita e desconjugada estruturação na programação cultural – (saudável pelo empenhamento, motivação e entusiasmo dos agentes envolvidos, mas falho em aspectos tão básicos como a divulgação, a credibilidade e a estruturação profissional dos meios envolvidos). É afinal um “safe-se como se puder”, fazendo o melhor com todos os condicionalismos. Improvisa-se e desenrasca-se com a melhor das boas vontades, arrastando as frustrações e a falta de suporte financeiro ou a sua aleatoriedade.

Também os chamados “agentes culturais” – empresariais, lamentam amiúde a falta de coordenação, de apoios/incentivos.

Actividades culturais são igualmente desenvolvidas, com benefícios para a comunidade, por acções individuais, fruto dos conhecimentos/influências e do prestígio local dos promotores. Normalmente tais iniciativas abrangem somente o núcleo restrito de amizades/conhecimentos do organizador do evento embora assumam na maior parte das vezes elevados padrões de qualidade. Merecem bem ser apoiadas e adequadamente divulgadas.

Como resultante destas situações, temos em primeira instância uma limitação de públicos e, não raras vezes, acontecem sobreposições de actividades do mesmo domínio (concertos no mesmo dia e à mesma hora, apresentação de livros em locais diferentes, sobreposição horária de eventos, divulgação deficiente etc…).

Esta, chamemos-lhe, ausência de coordenação, geradora de deficiente divulgação, induz frustração nos públicos e acarreta também desmotivação dos promotores e incompreensões várias que vão desde críticas aos apoios concedidos à diferenciação entre os diversos agentes.

Só quem objectivamente se envolve em tais projectos pode avaliar o quanto é custosa a superação das limitações. Navega-se no improviso, na influência e na boa vontade. Obviamente que isto, sendo alguma coisa, não é nada! (Parece estar em curso uma acção de auscultação visando a coordenação, o que é um importante passo).

Amiúde se ouvem, desabafos ou queixas, umas fundamentadas, outras de maledicência, mas que na generalidade reflectem que algo necessita ser mudado.

Havemos que reconhecer que se tem desenvolvido na nossa cidade muito, e por vezes intensivo trabalho no campo das actividades culturais e na realização das mais diversos eventos de lazer ou de entretenimento.

É voz corrente que Tavira possui grande dinamismo nesta área não sendo despiciendo afirmar que o programa “Verão em Tavira” já se afirmou como cartaz turístico pela qualidade, intensidade e diversidade da oferta. Obviamente que tal deverá ser acarinhado por se adequar às necessidades da industria turística de que tanto dependemos e que tanta importância tem para a cidade. Este desempenho situa-se na linha de similares realizações autárquicas que decorrem por todo o país tendo a sua expressão máxima nos dois meses de grande afluência turística.

As nossas privilegiadas condições climáticas permitem que tais realizações decorram ao ar livre, em espaços que se adequam minimamente aos eventos e à massificação das assistências, mas que não satisfarão critérios de qualidade e comodidade.

Terá que ser referida a distinção conquistada pela nossa cidade ao coordenar a candidatura de inclusão de três países no grupo original dos integrantes na classificação da Dieta Mediterrânica como Património Imaterial da Unesco. Tal confere-nos a singularidade de poder desenvolver actividades consonantes sendo que aqui os aspectos culturais são da maior relevância.

Outra vertente em que Tavira poderá beneficiar de evolução é na área museológica. Pese embora a excelência do nosso Museu, de criteriosa embora reduzida programação é sentida a carência de outros espaços.

Com a proposta de adequação do Quartel da Atalaia a Centro de Artes Cultura e Espectáculo, contemplando diversas valências – Museológica, Auditório, Escola de Teatro, de Dança, e outras e para albergar a “memória de Tavira” – Arquivo Municipal – poderá vir a constituir-se uma singularidade que distinga e em muito valorize a nossa cidade.

Caberá chamar aqui à colação a sugestão/ideia/proposta, em tempos expendida pela edilidade, e que agora ganha toda a oportunidade, de deslocar para este espaço alguns dos serviços de Estado dispersos pela cidade. As vantagens, sendo evidentes, constituiriam um reforço da ideia subjacente que é a de transformar o QA num espaço público de pluri-vivências/valências.

Voltamos, assim, de novo à ideia já expendida em anterior opinião, que Tavira é de todo merecedora que as instalações (parte delas) do QA revertam para o seu desenvolvimento.

Esta reflexão vem, na sequência de anterior opinião que aqui expusemos a propósito das abordagens à temática da “Programação cultural em cidade de pequena dimensão” que lançou à discussão pública a real possibilidade de Tavira vir a usufruir dum espaço nobre e qualificado que possibilite uma largueza de horizontes, até onde a imaginação possa alcançar, para ”viver cultura”, integrando-se nas urbes com personalidade cultural reconhecida.

Pois não é este o slogan da nossa cidade? – TAVIRA VIVE CULTURA.

Declaração de interesses: Sou apoiante incondicional de tudo quanto valorize a minha cidade.

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