Amizade

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Maria João Neves Ph.D *
Maria João Neves Ph.D *

Há amigos e amigos. Há até quem diga “com amigos assim, quem precisa de inimigos?” Outros afirmam que os verdadeiros amigos são poucos, que sobram os dedos de uma mão. A verdade é que frequentemente as amizades nos desiludem, por que será?

Aristóteles (384-322bc) fala-nos no seu livro Ética a Nicómaco de três diferentes níveis de amizade:

  1. Amizade por utilidade ou benefício mútuo
  2. Amizade por prazer
  3. Amizade por virtude

A amizade por utilidade é o nível mais baixo dos três. Pode ser muito curta no tempo, durar um voo de avião no qual conversamos com o passageiro do lado. Ou, por exemplo, pais que levam os seus filhos à natação, à música ou qualquer outra actividade, passam algum tempo juntos e entretêm-se. No entanto, uma vez que os filhos deixam de frequentar as actividades, os pais deixam também de se encontrar. A amizade estabeleceu-se a um nível muito superficial e não perdura.

Já a amizade por prazer, o segundo nível, tende a ser mais duradoura; acontece quando duas pessoas apreciam e desfrutam das personalidades uma da outra. Segundo Aristóteles, este tipo de amizade é mais estável e mais elevado. O problema surge quando um dos amigos se torna depressivo ou angustiado e já não é tão prazenteiro. Será que a amizade se mantém? É uma amizade na qual não existe um compromisso de longo termo.

O terceiro e mais elevado tipo de amizade, de acordo com Aristóteles, é a amizade por virtude. Existe uma partilha de valores. Eu revejo-me no carácter do outro e o outro revê-se em mim. A partilha do mesmo sistema de valores gera um vínculo muito forte, mas é raro encontrarmos alguém assim. Um dos exemplos deste terceiro e mais elevado nível de amizade é a do filósofo francês Michel Montaigne (1533-1592) com o também filósofo e humanista francês Étiene de La Boétie (1530-1563). O livro Ensaio sobre a Amizade de Montaigne consiste, exactamente, numa homenagem a La Boétie.

A filósofa prática israelita Lydia Amir relata o seguinte caso: um comandante de um navio de alto mar veio ao seu consultório filosófico por se encontrar terrivelmente só nessas viagens. Ele não conseguia estabelecer amizades com ninguém no navio porque era um homem extraordinariamente respeitador da lei e considerava que a tripulação do navio não o era. Existia, portanto, um hiato de valores. Lydia falou-lhe então nos três níveis de amizade de Aristóteles. O 1 comandante compreendeu que poderia estabelecer com a sua tripulação o primeiro e mais baixo nível de amizade: a amizade de utilidade, que duraria o tempo da viagem no navio. Não ficaria, contudo, obrigado a uma amizade de terceiro nível no qual existe a partilha de valores. Jamais tinha passado pela cabeça deste comandante que tal tipo de dissociação seria possível. Afinal, podia estabelecer com a tripulação aquele tipo de amizade mais baixo e de curta duração que consiste na utilidade ou benefício mútuo. Esta descoberta foi extraordinariamente libertadora. O seu problema resolveu-se numa sessão!

Num outro exemplo Lydia fala-nos da visita de três irmãs que não falavam com uma quarta. Lydia concentrou-se em explicar que que é que significa ser-se irmão ou irmã, e que diferenças existem entre ter esse grau de parentesco e a amizade. Tal como no caso do comandante do navio e da sua tripulação, as irmãs regiam-se por sistemas de valores diferentes, antagónicos até. Com a ajuda de Lydia perceberam que podiam ter com a quarta irmã um nível de relacionamento cordial, uma amizade de nível um, sem terem que chegar à amizade de nível dois ou três.

Por que nos desiludimos tanto com as amizades? Se a amizade não é posta à prova podemos nunca chegar a saber que tipo de amizade é que estabelecemos. Além do mais, normalmente não pensamos sobre estas coisas, não nos pomos a tentar discernir que tipo de amizade é que temos com fulano ou com beltrano. Por vezes somos magoados mas não conseguimos perceber exactamente o que é que nos magoou. Aquilo que magoa ou desilude é a expectativa de termos com determinada pessoa um nível de amizade mais elevado do que aquele que, de facto, existe. Se a amizade não for posta à prova, podemos levar uma vida inteira sem saber.

Consultório Filosófico: ArtLabos: 281 098 099 ou filosofiamjn@gmail.com

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