Planeamento ou espontaneidade? Como gerar bom Karma?

Planeamento ou espontaneidade? Como gerar bom Karma?

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Maria João Neves Ph.D *
Maria João Neves Ph.D *

Finda um ano e faz-se o balanço: revêem-se os acontecimentos, pesam-se as emoções. Por fim o veredicto, nem sempre fácil de encontrar, sobre se o ano transacto foi, ou não, um ano bom. Avaliam-se as expectativas e as possíveis melhorias para o ano seguinte, fazem-se planos…

Tenho um amigo que costuma dizer: “se queres pôr Deus rir faz um plano!” Esta forma humorística de evidenciar a indigência humana não nos deixa indiferentes. Por muito que planeemos, forças bem mais poderosas que nós, (catástrofes naturais; guerras; regimes políticos; apenas para citar alguns) podem deitar por terra o mais aprimorado plano. Que fazer, então? Considerar que somos impotentes e deixar-nos levar pela vida aos trambolhões ou, pelo contrário, tentar tomar-lhe as rédeas?

É aqui que o conceito budista de Karma -a lei da causa e efeito- se torna relevante. Não é nada difícil de entender: as boas acções criam bom Karma e levam a resultados agradáveis, as más acções criam mau karma e rendem efeitos desagradáveis. Tem dúvidas? Aqui estão duas experiências muito fáceis de realizar:

  1. Sorria para alguém. É muito provável que ganhe um sorriso em troca! Agora, deite a alguém um olhar cheio de hostilidade ou desconfiança. Terá boas chances de receber um olhar igualmente hostil em troca. Pode parecer trivial, mas é surpreendentemente significativo.
  2. Quando estiver engarrafado no tráfego ceda a sua vez a outro condutor. É muito provável que ele reproduza o seu gesto dando a vez a outro condutor. Funciona! A sua cortesia torna-se contagiosa!

Acções aparentemente insignificantes como estas têm, de facto, um impacto bem maior do que normalmente se esperaria. Qualquer acção, incluindo aquilo em que pensamos e aquilo que dizemos, mais cedo ou mais tarde terá um efeito em nós próprios e no ambiente que nos rodeia. Portanto vale a pena aprender a controlar os pensamentos e, sobretudo, não dizer a primeira coisa que nos passar pela cabeça!

Por outro lado, será a espontaneidade, de facto, espontânea? O ser humano é uma criatura de hábitos, portanto, se nos deixarmos simplesmente actuar por impulso, irreflectidamente, o mais provável é acabarmos a repetir padrões de comportamento que temos assimilados sem nos darmos conta. O cérebro humano está concebido para reconhecer e gerar padrões. Quando

ouvimos música, por exemplo, mal o cérebro encontra um padrão começa imediatamente a fazer predições, imaginando que notas se seguirão. Projecta uma ordem imaginária no futuro, transpondo a melodia que acabámos de ouvir para a melodia que antecipamos. Por esta mesma razão as noções de consonância e dissonância são tão flutuantes: quando o ouvido se habitua a uma dissonância, ela deixa de o ser.

O mesmo acontece ao passarmos do plano musical para o plano ético: mentir pela primeira vez custa muito. Mentir uma segunda vez já custa menos, e a partir de certa altura o hábito cria-se e mentir torna-se natural. E se da ética passarmos ao desporto, o mesmo princípio se aplica: tomar a iniciativa de fazer exercício físico pode custar e, seguramente, depois do primeiro treino existirão dores musculares, mas quando a rotina desportiva se estabelece já não se consegue passar sem ela! Até porque a partir de uma certa intensidade de actividade física o corpo segrega endorfinas, substâncias mensageiras produzidas pelo cérebro e pela hipófise que produzem um efeito simultaneamente relaxante e eufórico. Já São Tomás de Aquino (1225-1274) afirmava que a preguiça torna a pessoa triste.

No fundo, trata-se de uma pescadinha de rabo na boca, como demonstram os neurocitentistas: quem pratica desporto segrega dopamina, a substância mensageira da felicidade. A alegria é capaz de estimular e melhorar a produtividade da nossa mente. As pessoas felizes são mais criativas, resolvem os problemas melhor e mais depressa. A felicidade torna as pessoas espertas, pois o próprio processo de aprendizagem tem a ver com sentimentos positivos. Quem aprendeu a controlar os seus estados de espírito negativos e a fortalecer as vivências alegres está também a cultivar a sua saúde física. Os bons sentimentos combatem o stress e estimulam o sistema imunitário (Stefan Klein, Simplesmente Feliz).

Que propõe, então, o Consultório Filosófico para este ano novo? Criar bons hábitos, gerar bom Karma. Existem exercícios específicos para o fazer. A felicidade treina-se!

* Consultório Filosófico: ArtLabos: 281 098 099 ou filosofiamjn@gmail.com

Café Filosófico: Últimas 6ªs do mês. Casa Álvaro de Campos, Tavira

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