Alimentação e cancro

Alimentação e cancro

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Beja Santos Assessor do Instituto de Defesa do Consumidor Consultor do POSTAL
Beja Santos *

Os doentes oncológicos têm tudo a ganhar aderindo a um regime alimentar adequado: ao começar a terapia oncológica, esse regime alimentar renova os tecidos, mantém as defesas do organismo, dá energia. É um tipo de alimentação que abre as portas a uma recuperação mais rápida, assegurando os nutrientes necessários para uma vida activa com qualidade.

Para que estas mensagens ganhem conteúdo, é indispensável saber o que é alimentar-se bem. Abreviadamente, significa consumir uma variedade de alimentos que nos fornecem nutrientes indispensáveis para a nossa saúde e também para a luta contra o cancro: proteínas, hidratos de carbono, gorduras, vitaminas e minerais.

A partir do momento em que foi diagnosticado o cancro, é importante realizar mudanças nos hábitos alimentares, realçando um bom consumo de proteínas e calorias (carnes brancas, pescado pouco gorduroso, ovos, produtos lácteos com pouca gordura, proteínas secas…). Haverá que fugir e noutros casos moderar o consumo de bebidas industrializadas, alimentos empacotados, açucarados, hipercalóricos. Uma boa nutrição traz imensos benefícios: desenvolve mais energia para uma pronta recuperação, previne a perda de tecido corporal, combate infecções, diminui os efeitos secundários dos tratamentos contra o cancro.

Os tratamentos utilizados para combater o cancro encontram-se desenhados para ajudar a eliminar as células cancerígenas; porém, estes tratamentos também afectam as células sãs e provocam efeitos secundários que afectam a alimentação.

As pessoas que se alimentam bem durante o tratamento contra o cancro podem combater a doença e tolerar melhor os efeitos secundários. É uma fase em que se recomenda que se consuma uma maior quantidade de proteínas e que se mantenha a restrição nos alimentos ricos em gordura.

Temos a seguir a fase que sucede ao tratamento: devemos continuar a manter uma dieta equilibrada, pois uma alimentação segura e saudável ajuda a reconstruir os tecidos e que o doente se sinta melhor. Entidades científicas de renome como a Sociedade Americana do Cancro dão ênfase a um quadro de comportamentos onde a alimentação tem um peso importante: o consumo adequado nas não excessivo de calorias; cinco porções diárias de vegetais e fruta (as verduras de folha verde escura são uma boa fonte de ácido fólico); baixo conteúdo de gorduras nos alimentos; consumir fontes de fibra; evitar ou reduzir ao máximo o consumo de carnes vermelhas, açúcar e sal em excesso; utilizar suplementos de probióticos; manter um peso saudável; não descurar a actividade física já que esta melhora a função cardíaca e a força muscular; reduzir o consumo de bebidas alcoólicas; não fumar.

O regime alimentar também pode amortecer os efeitos secundários da terapia oncológica. Havendo perda de apetite, esta pode ser superada comendo as refeições a uma temperatura amornada, experimentar novos alimentos, casos há em que o médico recomenda suplementos alimentares. Quando se perde a percepção do sabor dos alimentos, pode-se recorrer a condimentos como o limão ou o vinagre (excepto quando há lesões de boca); usar ervas ou especiarias desde orégãos e tomilho até molho de tomate; misturar fruta fresca com gelado ou iogurte. Nos casos em que o doente oncológico tem a boca seca, deve evitar alimentos secos e fibrosos, dar preferência a alimentos líquidos ou batidos e nunca se esquecer de manter húmidos os lábios. Nos casos de úlceras na boca, as soluções passam por alimentos de fácil mastigação e deglutição, evitar bebidas e alimentos ácidos ou muito salgados, de textura áspera, havendo toda a vantagem em beber muito líquidos (ande sempre com uma garrafa de água), comer frutas congeladas e consumir alimentos frios. Há outros condicionalismos: reduzir os produtos com cafeína, não consumir alimentos crus, optar por alimentos cremosos e evitar condimentos fortes.

Mas há outros efeitos secundários a ter em conta, caso das náuseas e vómitos, diarreia e prisão de ventre. Observe-se que as náuseas e os vómitos são os primeiros sintomas que interferem com a quantidade e o tipo de alimentos que se consomem durante a terapia. É comum as náuseas se acentuarem quando se comem alimentos picantes, gordos ou que tenham odores fortes. Entre outras sugestões para contrariar estes sintomas, deve preferir comer em sítios bem ventilados, separar os alimentos dos sólidos, comer alimentos suaves e fáceis de digerir. A radioterapia e a quimioterapia podem produzir diarreia. É por isso que é necessário evitar a desidratação, ingerindo líquidos e electrólitos como caldos, sopas, bebidas hidratantes e sumos sem açúcar. Importa não esquecer que a diarreia pode agravar-se com alimentos gordos, açucarados, ácidos e com cafeína. Beber abundantemente está na ordem do dia. Nos casos de prisão de ventre: consumir produtos lácteos, consumir diariamente fruta fresca, evitar legumes flatulentos (caso da couve-flor, o repolho ou os brócolos), consumir alimentos integrais.

Para contrariar a diminuição de defesas, há também um leque de opções: preferir os alimentos cozinhados aos crus; comer fruta que se pode descascar; preferir o consumo de fruta vermelha; não consumir queijo curado ou queijos azuis; adicionar especiarias ou ervas durante a preparação da refeição.

Um último aspecto tem a ver com o consumo de suplementos alimentares: não os utilize a não ser por indicação médica.

Como em tudo o que tem a ver com a alimentação, dê primordial atenção à higiene: da superfície onde prepara os alimentos, separar os espaços onde prepara a carne dos legumes; cozinhar bem os alimentos, não comer peixe nem marisco cru.

Lembre-se em todas as circunstâncias que a comida não é só prazer deve ser um dos utensílios essenciais para vencer a doença.

* Assessor do Instituto de Defesa do Consumidor e consultor do POSTAL

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