O Jardim de Epicuro

O Jardim de Epicuro

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Maria João Neves Ph.D *
Maria João Neves Ph.D *

Filosofia dia-a-dia

O que é que mais deseja nesta vida? Ser feliz? Haverá alguém que queira aumentar o seu sofrimento e diminuir o seu prazer? Se todos queremos mais alegria e menos tristeza por que motivo as nossas vidas não parecem experienciar-se desse modo? Seremos todos vítimas de um destino cruel? Ou andaremos a fazer qualquer coisa de muito errado?

Em 306 a.C., Epicuro (341-270 a.C.) adquiriu em Atenas uma casa grande rodeada de um enorme jardim. Ali se instalou com um grupo de amigos e seguidores, vivendo em comunidade uma vida frugal. Pouco a pouco a fama deste filósofo que ensinava como viver uma vida feliz chegou aos sítios mais recônditos. Jovens provenientes de distantes regiões começaram a acampar no jardim, escutando avidamente os ensinamentos do excelso sábio. Em troca cuidavam do jardim e da horta. Assim nasceu uma das mais proeminentes escolas filosóficas da Antiguidade que ficaria para sempre conhecida como O jardim de Epicuro.

Do muito que Epicuro escreveu apenas alguns fragmentos chegaram até nós. Sobreviveram, contudo, três cartas completas endereçadas a discípulos. A Heródoto escreveu sobre física atómica; a Pítocles sobre os fenómenos celestes e a Meneceu a epístola que ficou conhecida até aos nossos dias como A carta sobre a felicidade. Nela se garante que não só a prática de tais ensinamentos conduzirá à felicidade plena, mas também a sentir-se como um deus imortal entre os homens mortais.

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…” mas naquilo que é essencial seremos assim tão diferentes de um ser humano do séc. IV a.C.? Olhemos para os nossos medos e para os nossos anseios e vejamos o que tem Epicuro a dizer sobre o assunto.

o jardim de epicuro

A maioria de nós receia acima de tudo a morte. Epicuro diz-nos que não há que temer a morte pois “quando estamos vivos, é a morte que não está presente; pelo contrário, quando a morte está presente nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos nem para os mortos, já que para aqueles não existe, ao passo que estes já cá não estão”. Por outro lado, há que eleger a qualidade em detrimento da quantidade, “assim como opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo [o homem feliz] colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que breve”.

Quando a adversidade nos assalta tendemos a cair no desespero, e quando algo que muito desejamos tarda em concretizar-se somos tomados pela ansiedade. Epicuro trata estes males com um entendimento objectivo do tempo futuro, que não é nem totalmente nosso nem não-nosso: “não devemos esperá-lo como se estivesse por vir com toda a certeza, nem nos desesperarmos como se não estivesse por vir jamais”.

E que dizer sobre o desejo, muito frequente hoje em dia, de ganhar o euromilhões? Epicuro aconselha a distinguir bem os desejos porque os há naturais e necessários (ex: alimentação, sono) mas também os há inúteis ou prejudiciais (ex: riqueza, glória). A estupidez de uma avaliação errónea nesta matéria leva direitinho à infelicidade! Por outro lado, “desfrutam melhor a abundância os que menos dependem dela; tudo o que é natural é fácil de conseguir. Difícil é tudo o que é inútil”. Como bem diz o ditado: “não é mais rico quem mais tem, mas aquele que menos necessita”. Há que valorizar as coisas simples, “habituar-se a um modo de vida não luxuoso não só é conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida”. E se colocássemos algumas frases de Epicuro nas paredes dos centros comerciais? Talvez não fosse bom para o negócio mas ajudaria à consciencialização de que comprar não nos garante felicidade.

É frequente o estabelecimento da equivalência entre a felicidade e o sentimento de prazer. Também Epicuro afirmava que o fim último é o prazer. Por este motivo foi muitas vezes erroneamente interpretado. O excelente filósofo não se referia a banquetes ou orgias, pelo contrário, entendia o prazer como “ausência de sofrimentos físicos e de perturbação da alma”. Conviria, portanto, “avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o critério dos benefícios e dos danos” e, sobretudo, remover as opiniões falsas. A vida bem vivida é uma vida examinada em que se investigam as causas de toda a escolha e de toda a rejeição.

Como vimos no princípio deste texto, apesar de cada um de nós ser distinto e inconfundível, talvez sejamos todos mais parecidos do que à partida se supõe. O jardim de Epicuro perdurou durante sete séculos depois da morte do seu fundador, promovendo a felicidade através da saúde do corpo, da vivência dos prazeres moderados e da serenidade do espírito.

* Consultório Filosófico: ArtLabos 281 098 099 ou filosofiamjn@gmail.com

Café Filosófico: Últimas 6ªs do mês. Casa Álvaro de Campos, Tavira

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