Parabéns, meu mundo!

Parabéns, meu mundo!

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Ana Amorim Dias Escritora *
Ana Amorim Dias – Escritora 

Ontem à tarde regressou à sala com um ar carrancudo, daqueles que os adultos colocam quando o que têm a dizer é grave e sério. Olhou-me fixamente nos olhos e as palavras saíram-lhe com uma dureza que, embora não guardasse rancor, era profundamente ofendida.

– Ficas informada que não podes vir aos meus anos!

Só o exímio domínio da prática de um estilo de maternidade alternativo me impediu de romper em gargalhadas. A altercação recém ocorrida, durante a qual explodi contra a sua falta de atenção ao estudo, estava a produzir efeitos hilariantes.

– Se não vou à festa, não há festa uma vez que quem a prepara sou eu! – retorqui.

– Já pensei nisso e decidi ter uma conversa com o pai para ser ele a preparar tudo!

– Muito bem, fica assim combinado, então!

Nada. Da minha parte não recebeu tristeza ou alegria, nem sequer a surpresa de quem se vê depauperado de direitos irrevogáveis.

Faz hoje onze anos que nasceu, lá para o fim da tarde. Apresentou-se à vida já na versão paradoxal: um fedelho cabeludo e desengonçado, mas com o magistral encanto que sempre têm os recém-nascidos; chegou ainda desprovido de mundo mas a guardar no olhar a sabedoria do universo inteiro. Amei-o ali e para sempre, viesse lá o que viesse.

Depois do choque frontal, o estudo da gramática decorreu produtivo e sem percalços. No fim reconsiderou e deu-me a boa nova:

– Se calhar exagerei, mãe. Afinal podes vir aos meus anos.

Um dos cantos dos meus lábios elevou-se levemente.

– Ok, em princípio acho que posso…

Achou-me piada ao sarcasmo e abalou p’rá vida dele enquanto eu fiquei a pensar na infinita sorte de ter um mundo assim a gravitar no meu mundo.

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