Jovem brasileiro vende sandes para poder estudar na Universidade do Algarve

Jovem brasileiro vende sandes para poder estudar na Universidade do Algarve

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Tales Aires tem de vender sandes para garantir a sua sustentabilidade (Foto: Joyce Heurich/G1)
Tales Aires tem de vender sandes para garantir a sua sustentabilidade (Foto: Joyce Heurich/G1)

Tales Aires, jovem brasileiro de 22 anos, escolheu a Universidade do Algarve (UAlg) para realizar um sonho de criança: estudar na Europa. Para conseguir pagar as propinas e a viagem para Portugal, vende sandes nos intervalos das aulas.

O jovem brasileiro vai deixar, no final de Agosto, o Bairro Glória, em Porto Alegre, no Brasil, para rumar à UAlg, onde vai estudar Educação Social no próximo ano lectivo. “Eu tinha feito a prova do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio no Brasil) com uma nota boa e soube, através da internet, que as universidades portuguesas iam começar a aceitar candidaturas com essa prova”, explica Tales ao POSTAL, via entrevista telefónica. “Achei a ideia muito boa e acabei por me inscrever”, afirma o jovem estudante, que já tinha aproveitado a “nota boa” no ENEM para entrar na universidade onde actualmente frequenta o terceiro semestre de Serviço Social. Tales vai agora tentar pedir transferência da Universidade Uniasselvi para a UAlg. Se não for aprovada, Tales começará do zero o curso em Portugal.

Desempregado e a precisar de juntar dinheiro até Setembro, Tales viu-se obrigado a fazer algo por conta própria. “Pensei no que poderia fazer e lembrei-me de começar a fazer sandes e café para distribuir na universidade onde estudo e a ideia deu certo”, contou Tales Aires.

O factor comum da língua portuguesa levou Tales a optar por Portugal e a escolher o Algarve em particular porque, na sua opinião “o Algarve é um lugar mágico, lindo e muito parecido com o Brasil”.

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Entre a favela e a assistência social

O jovem brasileiro conseguiu entrar na UAlg através da nota alcançada no ENEM (Foto: Joyce Heurich/G1)
O jovem brasileiro conseguiu entrar na UAlg através da nota alcançada no ENEM (Foto: Joyce Heurich/G1)

“Eu não escolhi o serviço social. O serviço social é que me escolheu a mim”, diz Tales, que admite que o seu destino não teria sido o mesmo se não tivesse sido ajudado na infância por um assistente social. “Na minha cidade é muito comum o crime, o tráfico de drogas e assaltos e, se não fosse o serviço social a encaminhar-me para cursos, eu iria acabar por me marginalizar”. Algo que o jovem brasileiro sempre tentou evitar, começando, inclusive, a trabalhar aos 12 anos. “Tive uma infância difícil”, confessa.

Movido pela vontade de poder mostrar às pessoas do bairro, onde nasceu e cresceu, que é possível alcançar objectivos que vão além daquela realidade diária, Tales parte para o Algarve à procura de um sonho que pode mudar, para além da sua vida, a vida da sua família e a dos que o rodeiam. “No meu bairro as crianças crescem só a ver exemplos maus e eu gostava de ser um exemplo bom, de um rapaz próximo deles que saiu dali, foi até à Europa, estudou e conseguiu expandir os horizontes para além daquilo que é o comum no bairro”, afirma.

“No Brasil há uma visão muito boa dos certificados que se conseguem na Europa, têm um peso maior do que um certificado brasileiro”, diz Tales, na esperança de garantir um futuro melhor no seu país.

A onda de solidariedade

Tales Aires quer ser um exemplo para a população do Bairro Glória (Foto: Joyce Heurich/G1)
Tales Aires quer ser um exemplo para a população do Bairro Glória (Foto: Joyce Heurich/G1)

Para além de vender sandes, que rendem, em média, 60 reais por dia (cerca de 15 euros), Tales recorreu ao crowdfunding para receber donativos de quem quiser apoiar a causa. O objectivo era angariar 8 mil reais (quase 2 mil euros) – o suficiente para o jovem brasileiro conseguir pagar as propinas, no valor de mais de mil euros, o bilhete de avião e para se manter durante o primeiro mês, enquanto procura emprego – até Setembro, mas essa quantia foi ultrapassada em apenas uma semana. “Tive tanta ajuda das pessoas que neste momento já tenho a passagem para Portugal garantida”, afirma Tales. “O povo está a ajudar-me como se fosse um investimento”, conclui.

Entusiasmado e orgulhoso por ter conseguido embarcar nesta aventura, o futuro aluno da UAlg sabe quais são os seus próximos objectivos. “O serviço social mudou a minha vida e agora quero voltar para o Brasil bem qualificado mas também quero deixar a minha marca em Portugal”, ambiciona Tales.

(Com Ricardo Claro)

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