A arte da felicidade

A arte da felicidade

501
PARTILHE
Maria João Neves Ph.D *
Maria João Neves Ph.D – Consultora Filosófica *

É feliz? Quem se atreve a responder um SIM, sem hesitações, a esta pergunta? Mormente oscilamos: “hoje tenho um mau dia” ou “hoje estou bem disposta”. A maioria de nós padece um certo grau de descontentamento omnipresente. Se a felicidade é algo que todos, sem excepção, desejamos por que será tão difícil de alcançar?

Três formas infalíveis de transformar a vida num inferno

  1. Cultivar a insatisfação

“Sempre esta sensação/de que estou a perder/ só estou bem onde não estou/só quero ir aonde não vou”.

António Variações

- Pub -

Compare-se constantemente com os outros. Este é um modo extraordinariamente eficaz de se tornar infeliz. Como demonstra a canção, quando chegar lá, verá que é apenas outro aqui e quererá partir de novo.

  1. Alimentar o sofrimento

“Alguns tipos de sofrimento são inevitáveis mas outros somos nós que os criamos”.

Dalai Lama

Pense constantemente em desgraças e ache injusto tudo o que lhe acontece. Enumere as várias ocasiões em que foi maltratado. Desta forma reforçará o ódio e intensificará a raiva. Personalize a dor: seja susceptível, reaja excessivamente a toda e qualquer pequena coisa, perca a noção da proporções. Sobretudo, vitimize-se e dramatize!

  1. Ser um camaleão

“Se seguimos as vicissitudes da vida tão depressa chamaremos ao mesmo homem feliz como desgraçado, uma espécie de camaleão sem fundamentos sólidos”.

Aristóteles

Faça depender o seu estado de espírito não só daquilo que lhe acontece, mas também de tudo o que se passa à sua volta. Perca o seu centro e deixe-se levar pela montanha russa da vida. Alterne entre a euforia e o desespero. Fuja da introspecção. Não se conceda um só momento de sossego.

A Felicidade treina-se!

Boas notícias: a felicidade depende mais de nós do que das circunstâncias exteriores. No grego antigo a palavra para felicidade é Eudaimonia que literalmente significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom génio”. Já nessa altura se entendia que felicidade não é algo que se alcança, mas antes um estado de espírito. Hoje em dia não só sabemos que a felicidade não está fora de nós, mas é algo que podemos treinar! Momentos pontuais de felicidade não bastam. Procuramos uma felicidade estabilizada. Como consegui-la?

  1. Erradicar as emoções negativas e incentivar as emoções positivas

“A única protecção contra os efeitos destrutivos da cólera e do ódio, é a prática da paciência e da tolerância”.

Dalai Lama

Algumas correntes psicológicas defendem a realização de exercícios catárticos para evacuar o sofrimento ou soltar a raiva. Fundamentam-se num princípio hidráulico: quando a pressão aumenta tem de ser libertada. Contudo, a mente não é uma panela de pressão. Melhor seria tratar a alma como um jardim: regar as emoções positivas e arrancar as negativas como se fossem ervas daninhas. Sempre que um estado de espírito negativo se instalar observá-lo com curiosidade, não se identificar imediatamente com ele, distanciar-se, criar espaço. Se não resultar, fazer algo agradável: ouvir música, dar um passeio, etc. Quando a calma regressar reflectir, então, sobre o assunto com paciência e tolerância.

  1. Distinguir e seleccionar os desejos

“O conhecimento seguro dos desejos leva a direccionar toda a escolha para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito; esta é a finalidade da vida feliz”.

Epicuro

Cálicles, personagem do Górgias de Platão (428-348 a.C), defende que para se ser feliz é preciso ceder a todos os desejos. O seu suplicio é comparado ao das Danaides condenadas a encher uma jarra com furos, não conseguindo nunca concretizar os seus propósitos. Em contrapartida, Epicuro (341-270 a.C) sustenta que para ser feliz é preciso seleccionar bem os desejos a serem satisfeitos, porque os há legítimos e vitais e também os há inúteis e prejudiciais.

  1. Cultivar a serenidade

“O ideal da vida deve ser acima de tudo a serenidade”.

Agostinho da Silva

Não se deve confundir a calma com insensibilidade ou apatia. Um estado de espírito amorfo não é, seguramente, feliz. O desassossego mental leva à frustração e à discórdia. Precisamos de cultivar a disciplina interior que conduz à serenidade. Ela constitui a chave para uma vida alegre e feliz mesmo em condições adversas. Transformar a dificuldade num desafio é esculpir a alma. Nisto consiste a arte da felicidade.

* As reflexões sobre os textos da rubrica Filosofia dia-a-dia continuam nos Cafés Filosóficos que se realizam em Tavira e Faro em Português e Inglês. Para mais informações contacte filosofiamjn@gmail.com

Facebook Comments

Comentários no Facebook