Polémica dos parquímetros em Monte Gordo está de volta

Polémica dos parquímetros em Monte Gordo está de volta

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Este ano Monte Gordo conta com 35% das ruas com estacionamento pago

Os estacionamentos pagos voltam a estar na ordem do dia nas ruas de Monte Gordo, os parquímetros entraram em funcionamento no dia 1 de Junho e vão permanecer durante todo o Verão, como acontece desde há anos, mas há quem ache o número de lugares pagos “excessivo”, Este ano a zona tarifada deixou de ser apenas a da frente de mar e abrange mais de uma dezena de arruamentos na malha urbana de Monte Gordo.

“Este ano ainda há mais lugares pagos do que no ano passado, se continua assim vou ter de deixar de vir para esta zona”, lamenta Sandra Ferreira, que se deslocou do baixo Alentejo até Monte Gordo no fim-de-semana prolongado do feriado de 10 de Junho, e que teve dificuldades para estacionar sem ter de pagar parquímetro durante a estadia.

Este ano Monte Gordo conta com 35% das ruas com estacionamento pago. O sistema foi concessionado pela Câmara de Vila Real de Santo António à ESSE, uma empresa privada, por um período de 20 [+5+5] anos. A autarquia considera a medida “essencial” de forma a “assegurar a rotatividade de lugares e a facilitar o acesso às praias e comércio do concelho”.

Quanto custa estacionar em Monte Gordo

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Mas vamos a contas, estacionar em Monte Gordo este ano tem um custo hora 80 cêntimos por hora. Por dia, entre as 9 e as 22 horas, a factura sobe para qualquer coisa como 10,40 euros, o que numa semana de férias se traduz em 72,80 euros, cerca de 15% do valor já gasto no arrendamento de um apartamento particular a custar, em média, 70 euros por noite.

Existe na zona Poente de Monte Gordo uma bolsa de estacionamento gratuito

Se a intenção for passar apenas umas horas e estacionar o mais perto possível da praia saiba que nesta zona [frente-mar] o valor do estacionamento aumenta para 1,20 euros por hora, à razão de 30 cêntimos por cada 15 minutos.

As principais zonas residenciais de Monte Gordo, Sertão, Projeto SAAL e Bairro da Catalunha, não terão parquímetros.

Zonas gratuitas e descontos

Em alternativa às soluções pagas na frente-mar existe, na zona Poente de Monte Gordo, uma bolsa de estacionamento gratuito. Foi ainda criado um parque de estacionamento (frente ao hotel Vasco da Gama) para os trabalhadores do comércio, hotelaria e serviços sediados em Monte Gordo, a cinco euros por mês.

Os residentes cuja habitação principal se encontre dentro da área de parquímetros têm direito até três lugares gratuitos, a qualquer hora, um dos quais válido para estacionar à porta de casa ou em qualquer zona da vila. Os comerciantes das zonas tarifadas terão também direito até três lugares.

Quanto aos hotéis, agências imobiliárias e os contribuintes com actividade aberta, destinada ao alojamento local, podem por 40 euros adquirir uma avença mensal por viatura para estacionamento nas áreas urbanas. Estas avenças podem ser semanalmente associadas a uma matrícula diferente.

O estacionamento na palma da mão

Para efectuar os pagamentos não precisa de se deslocar ao carro, pode renovar o prazo através do telemóvel. É simples: efectue o download da aplicação IuPark através da Google Play ou da Apple Store. Registe uma ou mais matrículas. Escolha o período de tempo de estacionamento e selecione a opção “Pagar com SEQR”. Cinco minutos antes do término do tempo pago, irá receber uma notificação no seu smartphone para que possa estender o prazo de forma sem necessidade de deslocação à viatura ou ao parquímetro.

Polémica não é novidade

O tema da contestação aos parquímetros na principal zona balnear do concelho não é novidade, em 2009 o presidente da autarquia afirmava a existência de “um caos no estacionamento em Monte Gordo”, nessa altura Luís Gomes apontava às “más políticas do PS no passado, quando deixou construir massivamente sem planeamento e sem criar estacionamento”.

Não é só em Monte Gordo que a ida a uma zona balnear passa por pagar parqueamento quando não se querem procurar soluções de estacionamento gratuitas, mas mais afastadas das frentes de mar.

Também na Praia da Rocha o “caos” estava instalado no estacionamento afirmou ao POSTAL Isilda Gomes, presidente da Câmara. “Antigamente havia muita gente que colocava o carro de manhã e só retirava à noite e não havendo hipótese nenhuma de quem quisesse ir à Praia da Rocha tomar um café, almoçar ou jantar, ter um lugar para estacionar”, recorda.

“Várias pessoas me disseram que desistiram de parar na praia devido à falta de estacionamento e eu acho mesmo que o que se gasta no pagamento do parquímetro, acaba por ser o mesmo que se gasta no combustível, à procura de estacionamento alternativo”, acrescenta a autarca.

Autarca portimonense garante que a medida visa organizar e facilitar a vida de quem visita a Praia da Rocha

Em Portimão os estacionamentos “à beira-mar” passaram a ser, na sua maioria, cobrados em 2014. Existem 178 lugares pagos nesta zona e outros 157 nas zonas adjacentes. Este ano já está também em funcionamento o parque Rocha Prime que conta com 288 lugares.

Em todos os parques de Portimão o valor de uma hora, em época alta, situa-se nos 80 cêntimos por hora e a autarquia garante que estas cobranças nada têm a ver com “encher os cofres do município”.

“Isto não se trata de dinheiro, trata-se de organização. Se não se cobrarem os lugares voltamos aquela época em que as pessoas deixavam o carro aqui o dia inteiro, portanto é importante que haja esta rotatividade neste momento”, defende Isilda Gomes.

À semelhança da sua homóloga no Barlavento, Luís Gomes defende que a cobrança dos lugares trata-se de garantir a qualidade e a organização das ruas da vila.

Autarquia somará 3,6 milhões de euros em 20 anos

Aquilo que nós pretendemos com esta medida é garantir a rotatividade no estacionamento através de soluções pagas. Nós não podemos ter uma zona turística com carros em cima do passeio, amontoados uns em cima dos outros, não é isso que traz qualidade a Monte Gordo”, garante o presidente.

Um facto que não pode deixar ignorar que numa autarquia fortemente endividada – tal como a de Portimão com quem compartilha a realidade de um pesado passivo – que com a concessão Luís Gomes vê entrar nos cofres da autarquia dinheiro fresco.

As contrapartidas da concessão: dinheiro fresco nos cofres da autarquia somará 3,6 milhões de euros em 20 anos

Nas contrapartidas do contrato de concessão, a que o POSTAL teve acesso, a concessionária paga ao município 15 mil euros a título de renda mensal garantida, o que soma uns não desprezíveis 3,6 milhões de euros ao longo dos 20 anos de concessão, a preços constantes.

Deste valor a autarquia encaixa à cabeça 400 mil euros a título de pagamento por conta das rendas garantidas e receberá em cada ano 180 mil euros de renda.

A autarquia pode ainda encaixar uma verba maior se, mensalmente, 25% da receita global da concessionária atingirem um valor superior a 15 mil euros, neste caso a autarquia receberá em vez dos 15 mil euros de renda mensal garantida, a quantia correspondente a 25% da receita do mês obtida pela concessionária.

Medida não colhe consenso: uns contra, outros a favor

Num comunicado enviado às redacções, a Comissão Concelhia de Vila Real do PCP garante que “a cobrança de taxas não serve os visitantes, nem os turistas”

A tarifação do parqueamento não convence nem agrada a todos. Há quem afirme que o estacionamento tarifado “vai contribuir para o afastamento dos turistas para outros destinos”. Leandro Rosa, nascido e criado em Monte Gordo, garante que esta situação já começou a acontecer. “conheço pessoas que deixaram de vir para cá por falta de estacionamento. Juraram nunca mais vir para Monte Gordo e honraram a promessa pois nunca mais os vi e eram clientes habituais daqui”.

Não obstante Monte Gordo continua a crescer em termos turísticos. Ao POSTAL Elidérico Viegas, presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve, afirmou que “Monte Gordo regista a taxa de ocupação média mais alta do Algarve, registando uma subida do número de visitantes tal como tem vindo a acontecer em toda a região”.

Os parquímetros de Monte Gordo nas redes sociais

O assunto já serve de paródia para uma web tv local, criada por Leandro Rosa. Os vídeos e as fotografias partilhados na página de Facebook Leandrotv24 são o “altifalante” de muitos habitantes, que aproveitam para comentar esta e outras medidas da autarquia.

Na página podem ler-se comentários como “obrigado ao concelho vila-realense por afugentar aqueles, poucos, que aqui [em Monte Gordo], desfrutam de uns dias de férias”.

Mas nem tudo são lamentos, existe quem compreenda a medida e até ache que deveriam existir mais parquímetros. “O pessoal anda todo traumatizado com os parquímetros, coitadinhos… vêem tudo ao contrário. Quando vier o Verão veremos quem tem razão. Ainda vão chorar por mais parquímetros”, garante um dos seguidores da Leandrotv24.

O monte-gordino Leandro Rosa contou ao POSTAL que o fim-de-semana prolongado de 10 de Junho “foi um “inferno” para os residentes. As ruas, que geralmente não têm este volume de tráfego, estavam cheias até rebentar, os residentes tiveram enormes dificuldades para estacionar. Tem-se verificado que as “laterais” pagas estão vazias e a outra extremidade está cheia até mais não”, garante.

O autarca vila-realense defende que “os comerciantes não estão insatisfeitos, pelo contrário, percebem que os seus clientes vão aos estabelecimentos porque têm onde estacionar”.

A oposição, por sua vez, afirma, que “a imposição de estacionamento pago em Monte Gordo para os próximos 30 anos [20+5+5] é uma atitude de desprezo pelas reclamações da população, pelos abaixo assinados entregues com centenas de assinaturas, pelas dezenas de comerciantes que protestam justamente contra esta medida”.

Num comunicado enviado às redacções, a Comissão Concelhia de Vila Real do PCP garante que “a cobrança de taxas não serve os visitantes, não serve os turistas, não serve a hotelaria nem a população e carrega mais uma despesa para quem estaciona e trabalha”.

Luís Gomes nega esta ideia. “Monte Gordo está cheio, vamos ter um Verão fantástico cheio de pessoas”, afirma convicto.

“Nós não podemos é ter uma zona turística qualificada com estacionamentos como tínhamos e com queixas das pessoas que não conseguiam circular nos passeios”, conclui o edil.

(Com Ricardo Claro)

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