Sócrates surfista?

Sócrates surfista?

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Maria João Neves Ph.D – Consultora Filosófica *

Filosofia dia-a-dia

Princípio de Agosto, auge do Verão, a densidade populacional no Algarve aumenta de tal maneira que me pergunto se a região não afundará com o peso. Há meses que as rádios não param de nos bombardear com programas de nutrição para emagrecer. As revistas oferecem dietas fantásticas. Nas estantes dos supermercados, farmácias e afins encontramos os cremes adelgaçantes e as cápsulas anti-apetite em destaque. As mulheres experimentam o anual terror na busca de um bikini que, afinal, nunca fica bem. Os homens exasperam-se no treino dos bíceps, como se essa fosse a chave para atrair o sexo oposto, (que enganados estão!) A preocupação com o corpo vai em aumento exponencial. Será ela uma enorme futilidade? Ou será que não?

Corpo ou Mente?

Na filosofia ocidental o corpo é frequentemente considerado um obstáculo. Todas as necessidades que possui: comida, bebida, descanso, higiene, etc., interrompem e distraem o pensamento. Opostamente a filosofia oriental considera o “precioso corpo humano” como uma condição sine qua non de acesso à iluminação. Antes de receber os ensinamentos requere-se que o estudante se sente numa postura correcta. Pode ser qualquer posição que permita manter a coluna vertical, a cabeça alinhada e os ombros relaxados. Também constitui um requisito prévio expirar o ar residual dos pulmões (que intoxica o corpo e a mente) e gerar a motivação apropriada. Claro que para estudar Filosofia no ocidente não se requer nenhuma postura física particular, nem técnicas respiratórias, nem nenhuma motivação específica.

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Mente sã em corpo são

Curiosamente, os filósofos da Grécia Antiga começavam impreterivelmente o seu dia no ginásio. A educação seguia dois eixos principais: a ginástica e a música. Platão (428-348 a.C) na República afirma que “a simplicidade na música gera a temperança na alma, e a ginástica a saúde no corpo”.

Dos 7 aos 14 anos frequentava-se a Schole palavra que embora se pareça com “escola” significava “recreio”. Um gramatista ensinava a ler e escrever, e um citarista a cantar e a tocar algum instrumento, para desenvolver o sentido da medida e da harmonia.

Dos 14 aos 18 anos estudava-se na Palestra cuja origem etimológica pale significa luta, a denominada Agonística. Havia um treino comum intitulado Calistenia (Kalos=Beleza e Stenos=força) que consistia num conjunto de exercícios executados com o próprio peso: abdominais; flexões; elevações e agachamentos. Soa familiar? Praticavam também corrida de velocidade, salto em altura, salto em comprimento, lançamento do disco, lançamento do dardo, jogos de bola (esferística) e várias formas de luta. Não admira que os jogos olímpicos tenham surgido na Grécia Antiga no sec. VIII a.C!

A partir dos 18 anos entrava-se para o Colégio dos Efebos. O estado apelava aos melhores artistas para os conceberem e edificarem. Estes colégios não ficavam atrás de nenhum SPA da actualidade; continham: salas de reunião (Exedroe); aposentos exclusivos para Efebos (Efebon); compartimentos onde os atletas se cobriam de areia antes da luta (Consisterion); saletas onde se untavam com azeite e recebiam massagens (Eloetesion); zona para jogos de bola (Esferion); e last but not least, a câmara fresca (frigiderium) e a estufa (Laconion).

Estes ginásios da antiguidade eram locais de convivência privilegiados. Artistas famosos ali afluíam para utilizarem os belos efebos como modelos para as suas obras. Os filósofos aí se encontravam com os seus discípulos para reflectir em conjunto. O exercício físico e a actividade mental não estavam separados. Prova disso são os dois mais famosos ginásios da antiguidade: a Academia de Platão e o Liceu de Aristóteles. Por que será que hoje em dia tendemos a achar que um body builder será, certamente, acéfalo, e não nos espantamos com o intelectual balofo?

Sócrates Surfista?

Sócrates (469-399 a.C), o insigne filósofo, nasceu e viveu em Atenas banhada pelo golfo Sarónico, um local de águas tranquilas. Afirma Xenofonte (430-355 a.C) que Cármides o viu dançar de manhã cedo. E se tivesse sido Sagres, na bela costa vicentina, o seu berço? Imagino-o a contemplar as ondas, a classificá-las de acordo com a sua forma e cadência rítmica e a abrir a primeira escola de surfistas-pensadores.

* As reflexões sobre os textos da rubrica Filosofia dia-a-dia continuam nos Cafés Filosóficos que se realizam em Tavira e Faro em Português e Inglês. Para mais informações contacte: filosofiamjn@gmail.com

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