O segredo da longevidade: como a ciência nos prolonga a vida

O segredo da longevidade: como a ciência nos prolonga a vida

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Beja Santos *
Beja Santos *

A longevidade e os longevos ocupam um lugar dominante no universo socioeconómico e cultural, estão no topo das prioridades por serem uma importantíssima questão demográfica, de saúde, de opções financeiras, por estarem no centro da solidariedade entre gerações. Ninguém nos conhece que envelhecemos melhor e cada vez mais lentamente. Aos 60 anos podemos ainda pensar em ter 20 ou 30 anos de vida autónoma. O que se passa na actualidade deve-se sobretudo aos progressos na medicina e na farmacologia, à boa higiene, à vacinação, aos cuidados elementares e à melhoria das condições de vida. É quilométrica a informação sobre o modo de ser menos dependente na arte de envelhecer, não tem conta a literatura sobre as transformações do corpo e os cuidados que com ele devem ter os seniores, como devem ter cuidados com a segurança doméstica, garantir a mobilidade e usarem objectos inteligentes adaptados às suas limitações. Muito mais haveria a dizer.

“O segredo da longevidade”, por Henrik Ennart, Bertrand Editora, 2016, dá-nos uma leitura estimulante, o autor viaja a vários pontos do universo onde há colónias de gente centenária à procura de explicação de tal longevidade, mostra-nos os prodígios da bioquímica e confronta-nos com as práticas de uma velhice saudável. As notícias sobre a esperança de vida são cada vez mais auspiciosas. O autor é sueco e não esquece a realidade do seu país: “Descubro que durante os anos de 1970 fora previsto que a esperança média de vida dos homens estabilizaria em 72 e a das mulheres em 78. A ideia de que uma estabilização definitiva estaria próxima encontrava-se ainda numa previsão de 1983, em que a idade média era de 73,2 para os homens e de 79,7 para as mulheres. Esta meta, porém, já foi ultrapassada. Hoje em dia os homens atingem os 80 e as mulheres 84 anos”. Por isso se fala com tanta insistência no envelhecimento bem-sucedido, activo, ainda que os custos comecem a atingir números elevadíssimos nos orçamentos de Estado. Há quem preveja que começam a atingir proporções incomportáveis. Dentro dessa atmosfera de preocupação, a ciência que prolonga as nossas vidas mostra resultados. Veja a nanotecnologia, essas tecnologias submicroscópicas irão influenciar o diagnóstico médico e o tratamento. Como observa o autor, há já vários anos que os investigadores trabalham no desenvolvimento de nanossensores que seriam introduzidos no corpo para ler os vários valores sanguíneos, qualquer coisa como nanorrobôs que irão passear no nosso sistema circulatório onde detectarão vasos sanguíneos calcificados ou injectarão medicamentos directamente nas células cancerígenas. Já não está puramente no domínio da ficção científica criar tecido cerebral onde serão incluídas memórias pertencentes ao doente. A ciência procura explicações para o retardamento da velhice, estuda os regimes alimentares, a importância da actividade física, os estilos de vida ditos saudáveis. As comunidades com gentes longevas suscitam problemas ainda hoje insolúveis: há gente centenária que come gorduras aos potes ou fuma dezenas de cigarros por dia. Sabe-se que os adventistas do sétimo dia são um grupo com uma alimentação muitíssimo sóbria com pessoas de idade avançada.

Há mistérios aparentemente insolúveis sobre as razões do nosso envelhecimento e o autor tem uma frase bem-humorada: “A única coisa que está controlada até ao mínimo detalhe no ADN é o nosso desenvolvimento desde embrião até adulto, mas quando atingimos a nossa meta não há ninguém para desligar o programa que continua a correr, sem nunca parar. Parece um secador de roupa tresloucado que continua a rodar, embora a roupa já esteja seca há muito tempo”. O autor desfila os resultados das investigações e os resultados que chega, e nisso ele é muito sincero, é que ainda estamos numa santa ignorância sobre as possíveis vitórias na bioquímica.

Seja como for, o que hoje se chama a quarta idade tem um peso financeiro tremendo, haverá decisões políticas extremamente delicadas, surgirão novas formas de conflitos, como o autor destaca: “O envelhecimento vai causar novos de conflitos sociais. Se só os super-ricos e grupos de oligarcas e capitalistas tiveram acesso aos tratamentos de prolongamento da vida, isto seguramente vai ser percebido como injusto e perturbador. Os conflitos podem aumentar se os tratamentos forem tão caros que durante muito tempo sejam inacessíveis à grande maioria”.

E assim chegamos. E assim chegamos ao aconselhamento. Viver melhor fugindo dos alimentos processados, praticar um regime alimentar equilibrado, comendo de tudo com moderação, praticando actividade física compatível com o quadro de resistência, fazer exames com regularidade, manter o cérebro igualmente activo, aprender a dormir bem, o suficiente para acordar com bonomia e pronto para enfrentar as vicissitudes do dia, descansar quando necessário, há sestas que são verdadeiramente repousantes havendo sinais de apneia do sono ir ao médico, há cada vez mais soluções. Prolongamos a vida com objectivos, com o amor dos familiares e o afecto dos amigos, sendo amável com os outros e consciencioso consigo próprio. A ciência que prolonga a nossa vida mostra resultados mas a nossa longevidade também precisa da nossa persistência e arte para dar vida aos anos.

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* Assessor do Instituto de Defesa do Consumidor e consultor do POSTAL