Américo Thomaz, à cachaporra e com deselegante desprezo

Américo Thomaz, à cachaporra e com deselegante desprezo

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A OPINIÃO de BEJA SANTOS Assessor do Instituto de Defesa do Consumidor e consultor do POSTAL
A OPINIÃO de BEJA SANTOS
Assessor do Instituto de Defesa do Consumidor e consultor do POSTAL

A importância política do último presidente da República da Estado Novo, Américo Thomaz, pode ser medida pelo manifesto desinteresse que por ele tiveram os sublevados do Movimento das Forças Armadas. O regime montado por Salazar caiu no exacto momento em que Marcello Caetano saiu numa Chaimite, na GNR do Carmo, para o quartel de engenharia da Pontinha e daqui partiu com outras figuras do regime para o Funchal, penúltima etapa antes do exílio. A estratégia dos sublevados era neutralizar qualquer hipótese de apoio político-militar, foram literalmente bem-sucedidos, a Legião Portuguesa não deu um tiro, os militares que saíram à ordem do regime passaram-se para o lado da revolução, as figuras gradas como ministros e o almirante Tenreiro andaram a monte, antes de se entregarem. O almirante Thomaz ficou em casa, ninguém lhe ligou nenhuma, até que Almeida Bruno o foi buscar, ele partiu dócil e resignadamente para onde o mandaram.

“O último salazarista, a outra face de Américo Thomaz”, por Orlando Raimundo, Publicações Dom Quixote, 2017, é uma reportagem histórica em torno de uma figura apagada de um admirador de Salazar, com um currículo seguro em ciências náuticas, um ornamento que o ditador usou levando-o a visitar todo o país como corta fitas e do qual havia bastante galhofa sobre os seus improvisos oratórios. Thomaz terá um papel determinante na morte política de Salazar e na agonia do regime, não aceitará a demissão de Caetano, o regime afundar-se-á com os dois.

O que choca na reportagem histórica deste escritor e jornalista é o denegrir sistemático de Thomaz: cobarde, monárquico discreto, nas missões científicas o mérito é sempre dos outros, manifesta falta de coragem, testa-de-ferro de Salazar para a reconversão da actividade portuária e da construção naval… A linguagem é sempre depreciativa, chocarreira, o biografado anda sempre abaixo de cão: “Qual Infante D. Henrique do salazarismo, Américo Thomaz, acarinhado pelos mais e poderosos do país, que não se cansam de elogiar a sua competência, é o homem de quem se fala. Mas Salazar está de olho nele e depressa vai fazê-lo sentir que quem manda é ele”. Temos agora um Thomaz vassalo, um ministro da marinha que não levanta ondas, mandatado para apresentar o denominado Plano de Fomento das Pescas nacionais. O contra-almirante Thomaz é agora uma peça de uma operação da renovação das frotas do bacalhau e do arrasto, daí as suas ligações a Tenreiro e a Sebastião Ramires, são operações que envolvem estaleiros navais e cumplicidades com altos investidores como Carlos Alberto Roeder que, segundo Orlando Raimundo, será o financiador da campanha presidencial de Thomaz. Se até agora a reportagem biográfica de Thomaz metia a sua vida desde pequenino, passando pela sua preparação naval até chegar a ministro da Marinha, a partir dos anos 1950 ele é transformado aos olhos do biógrafo como um peão de brega e um devotado executante, sempre discreto, do que Salazar manda. Como Craveiro Lopes se irá revelar indócil, Salazar inclina-se para Thomaz: “Onde outros veem oportunismo, mediocridade e subserviência, o ditador descortina a insuperável vantagem de ter em Belém um seguidor incondicional”. O calculista e ambicioso Thomaz irá ficar insensível à fraude eleitoral que o porá em Belém. Orlando Raimundo alarga agora o contexto em que decorre a magistratura de Thomaz e a condução de Salazar: a carta do bispo do Porto, a ascensão dos ultras que se unem à volta de Thomaz, as visitas de Estado, logo com a de Hailé Selassié, o imperador da Etiópia, Thomaz não passa de um jarrão decorativo, as conversas políticas andam sempre pela residência de Salazar em S. Bento. A vida política agita-se a partir de 1961, revoltas, dissidências, o início da guerra colonial, o fim do império do Oriente, Thomaz, no meio desta agitação, não passa de um epifenómeno, tem os seus luxos como o comboio presidencial, privilégio que Marcello Caetano irá cortar.

Obra dá a conhecer o último presidente da República da Estado Novo, Américo Thomaz
Obra dá a conhecer o último presidente da República da Estado Novo

E há as viagens pelo império, com multidões a recebê-lo, a propaganda do regime a lançar hossanas por tanta recepção triunfal. E há a ponte de Salazar, a viagem de Paulo VI a Fátima. Depois Salazar é operado, e na sequência da operação um AVC deixa-o inutilizado para a política. Marcello Caetano aceita a presidência do Conselho obrigando-se a defender intransigentemente o Ultramar, abre algumas janelas que fazem supor o arejamento do regime, Thomaz sai enxovalhado de um encontro com estudantes em Coimbra, em Abril de 1969. Thomaz toma a iniciativa de criar a Fundação Salazar, os bairros Salazar irão irromper em 32 localidades, desde Alvito, junto ao parque florestal de Monsanto até às colónias portuguesas de Angola, Moçambique e Timor. O autor comenta: “A Fundação Salazar construiu ao todo, durante a sua existência, 1500 casas, que representaram pouco mais do que uma gota de água no oceano da pobreza. O número de barracas de existentes em Portugal nessa época rondava as 60 mil, reduzindo a uns insignificantes 2,5% a totalidade das novas casas de substituição. Em total consonância com o seu elogio da pobreza, a herança de Salazar só podia ser esta”.

Nessa reportagem Thomaz aparece sempre em tranquibérnias, como o estádio do Restelo até aos negócios da Torralta, que lhe terão dado chorudos proventos. Reeleito aos 80 anos como presidente da República, Thomaz corresponde à própria indefinição do marcelismo. O autor aproveita para dizer que nessa reeleição se deu a largada nas ruas de Lisboa de dois porcos fardados de almirante. Assim chegamos às vésperas do 25 de Abril, Thomaz, contrariando a opinião dos ultras, sela o seu destino ao lado de Caetano. No Brasil, fará amizade com o inspector António Rosa Casaco, uma figura sinistra da PIDE. Regressa a Portugal em Julho de 1978. Dedicou os últimos anos da sua vida a escrever livros de memória sem qualquer relevância. Ao contrário do que diz o autor, não foi o último salazarista. Importa questionar, acima de tudo, se este tipo de reportagem, com tratamento de biografia histórica, tem qualquer utilidade para o estudo de um regime, quando tudo se escreve a vexar, denegrir e abandalhar. Basta de bater no ceguinho.

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