O que é o stresse? Resposta através da imagem visual

O que é o stresse? Resposta através da imagem visual

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Professor catedrático da UAlg; Pós-doutorado em Artes Visuais pela Universidade de Évora; snjesus@ualg.pt
Professor catedrático da UAlg;
Pós-doutorado em Artes Visuais pela Univ. de Évora;
snjesus@ualg.pt

Os níveis de stresse das pessoas têm vindo a aumentar nos últimos anos, devido a múltiplas alterações na vida profissional, familiar, social, etc, que representam um aumento dos níveis de exigência e de incerteza.

Em geral, quando é utilizado o termo stresse é-o no sentido negativo, pelas consequências que a vários níveis podem ocorrer no organismo, sobretudo quando as situações representam níveis de exigência muito elevados para o sujeito ou quando persistem durante muito tempo na sua vida, ultrapassando os seus limites de tolerância.

No entanto, o stresse pode ser positivo, distinguindo-se entre as situações de distress, em que o nível de exigência é claramente superior à capacidade do sujeito para responder, e as situações de eustress, em que o sujeito consegue responder de forma adequada à exigência que sobre ele é colocada, podendo desta forma as situações aparentemente difíceis até contribuir para o seu desenvolvimento e realização.

No sentido de tentar expressar ambas as valências do stresse, a negativa e também a positiva, procurando sintetizar a essência deste conceito, realizámos o trabalho “Distress e Eustress (síntese)”.

Neste, procurámos expressar a diferença entre as duas valências do stresse, utilizando duas telas de dimensões diferentes, representando níveis de exigência diferentes para o sujeito, que aqui é representado pelo pincel, enquanto os seus recursos para responder às exigências são representados pelas tintas utilizadas.

Obra 'Distress e Eustress (síntese)' (0,30x1,00x0,20 e 0,30x0,70x0,20m; 2011), de Saul de Jesus
Obra ‘Distress e Eustress (síntese)’ (0,30×1,00×0,20 e 0,30×0,70×0,20m; 2011), de Saul de Jesus

A situação em que a tela é maior, representando uma exigência superior, provoca distress, pelo que a tinta não é suficiente para uma resposta adequada à tarefa de realizar um traço na tela. O traço revela-se inconstante e os pelos do pincel estão abertos como que alarmados com a situação. A tinta vermelha representa simultaneamente a agressividade e o receio no traço realizado, isto é, as respostas de luta e de fuga de que já Canon falava, em 1935.

Por seu turno, na situação em que a tela é de menor dimensão, a tarefa de realizar um traço corresponde a um nível de exigência ao qual consegue ser dada uma resposta adequada, representando uma situação de eustress. A situação não foi um problema, mas sim um desafio, sendo o traço realizado de forma confiante e serena, o que é representado pela cor azul, e a resposta adequada, como se revela pelo traço direito e constante, bem como pelo pincel com os pelos na dimensão do traço que realizou.

A partir deste trabalho “Distress e Eustress”, produzimos ainda um outro trabalho sobre o conceito de stresse que utilizou meios digitais. Assim, foi criado um ambiente digital, procurando responder à questão “what is stress?”.

Nesse sentido, foram utilizadas as imagens produzidas no trabalho “Distress e Eustress” e conjuntos de palavras que se organizam para permitir clarificar o conceito de stresse.

Em termos de software informático para a realização deste trabalho foram utilizados os programas on-line Prezi e Wordle.

Aproveitando as potencialidades destes programas informáticos, procurámos criar um ambiente digital que integra as imagens das telas “Eustress e Distress”, colocando no meio a questão “What is stress?”

Desta forma, procuramos expressar que o stresse é algo que se situa entre estes dois conceitos mais específicos, representando também que se trata de duas possibilidades alternativas de desenvolvimento quando o sujeito é confrontado com exigências que constituem fatores de stress.

Integrámos na imagem diversos termos-chave que permitem responder à questão colocada e compreender como é que as situações de distress e de eustress podem ocorrer e desenvolver-se.

Esses termos-chave são os seguintes e apresentados nesta sequência: stress, factors, distress, symptoms, coping, resilience e eustress.

A imagem que destaca a questão colocada constitui o primeiro de vinte passos apresentados neste trabalho. A sequência de passos foi organizada de forma a que primeiro surjam imagens de cada uma das telas com a respetiva designação de distress ou eustress, consoante o caso, para fomentar a curiosidade no espetador e para que este se possa aperceber das duas possibilidades deste termo.

Imagem inicial do trabalho em arte digital 'What is stress?' (1’20)
Imagem inicial do trabalho em arte digital ‘What is stress?’ (1’20)

Depois a sequência segue com a apresentação de cada um dos termos-chave, encontrando-se num ponto de cada um deles um conjunto de palavras que ajuda a compreender o seu sentido. As palavras relativas a cada termo-chave foram selecionadas a partir de uma revisão da literatura da especialidade sobre cada um dos termos, permitindo um conjunto de palavras para cada termo.

As palavras escolhidas para cada um dos termos-chave foram as seguintes:

1) Stress: Selye, elasticity, demands, tension, activation, fight-or-flight, pressure, hypothalamus, adrenaline, cortisol;

2) Factors: conflicts, problems, too busy, work overload, uncertainty, pessimism, perfectionism, illness;

3) Distress: deadlines, emergency, urgent, danger, persistent stress, negative events, bad stress, vulnerability;

4) Symptoms: indecisions, apathy, heartbeat, colds, headaches, infections, fatigue, hypertension, irritability, unhappiness, diseases, insomnia, nightmares;

5) Coping: strategies, skills, social support, time management, assertiveness, share feelings, humor, healthy lifestyle;

6) Resilience: resistance, optimism, hardiness, protective factors, realistic goals, self-confidence, flexibility;

7) Eustress: positive response, good stress, concentration, energy, fulfill goals, adaptation, challenge, solve problems.

Estes conjuntos de palavras foram organizados no Wordle e transpostos para o Prezi, possibilitando este a sua observação através do efeito zoom que permite efetuar.

A sequência dos termos foi a referida atrás porque o desenvolvimento do distress numa situação de stresse (termo 1) depende dos fatores (termo 2) presentes nessa situação. Do distress (termo 3) resultam vários sintomas (termo 4). A resolução de situações de distress depende das estratégias de coping (termo 5) e das competências de resiliência (termo 6) do sujeito, possibilitando o desenvolvimento do eustress (termo 7).

A apresentação termina com um afastamento da imagem, possibilitando uma visão panorâmica das telas e dos termos-chave distribuídos nestas.

Sendo programado para uma sequência de 4 segundos por passo, a apresentação do trabalho demora 1 minuto e 20 segundos.

No entanto, o Prezi também permite que o ritmo de passagem entre cada passo da sequência seja decidido pelo espetador, no momento em que está a apreciar o trabalho.

Assim, neste trabalho também procuramos aproveitar a vertente de interatividade permitida pela arte digital (Lieser, 2009), pois o espetador pode gerir o tempo que demora em cada passo da sequência de imagens. Assim, a participação ativa do espetador e a interação permitida pela arte que recorre ao potencial das novas tecnologias tem também esta vantagem de permitir ambientes de apreciação artística ou de aprendizagem através da arte mais atrativos e cujo ritmo é gerido pelo próprio sujeito que aprecia ou aprende.

Desta forma, este último trabalho procurou explorar as relações de convergência entre a arte, a ciência e a tecnologia, encontrando-se a relevância da sua componente pedagógica patente na necessidade da participação ativa do espetador, pois este terá de fazer um percurso de vinte passos que pode gerir segundo o seu próprio ritmo de aprendizagem.

Este trabalho encontra-se disponível no youtube, no link http://www.youtube.com/watch?v=uwK8ih4FPFs.

Nota: Algumas das reflexões apresentadas neste artigo encontram-se no livro “Construção de um percurso multidisciplinar, integrativo e de síntese nas Artes Visuais”.

(Artigo publicado na última edição do Caderno de Artes Cultura.Sul)