Estranha forma de vida: a elegia à primeira-dama do fado

Estranha forma de vida: a elegia à primeira-dama do fado

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A OPINIÃO de BEJA SANTOS Assessor do Instituto de Defesa do Consumidor e consultor do POSTAL
A OPINIÃO de BEJA SANTOS
Assessor do Instituto de Defesa do Consumidor e consultor do POSTAL

“Amália, A Ressurreição”, por Fernando Dacosta, Casa das Letras, 2017, é uma elegia incondicional aos dotes excepcionais e ao património cultural legado por Amália Rodrigues. Jornalista e escritor com créditos firmados, Dacosta trata a sublime fadista como uma das vozes marcantes do século XX e traça a pessoa e o seu legado: “Personalidade de acrescentamentos, ela conciliou como poucos sonho e desejo, pensamento e acção, harmonia e ruptura, compromisso e independência, individualismo e universalismo. Entre a realidade que lhe coube partilhar e a imaginação que lhe coube dilatar, Amália foi vivendo, ardendo sob a ondulação dos tempos, tempos que não a azedaram nem adamaram; tornaram-na, pelo contrário, mais lúcida e depurada, fazendo-a perceber que era maior do que os meios onde emergira”.

É uma viagem e reportagem onde se ouvem confidentes, rebuscam letras de fados, espaços do espectáculo e o lugar onde se expôs a sacerdotisa do fado, uma voz ímpar assistida por uma encenação que prendia a assistência, todo o tempo.

Amália dava-se como um prodígio inexplicável, punha sérias interrogações à sua pertença, como escreveu na autobiografia: “Não sou de meio nenhum. Nunca pertenci ao meio em que nasci, chocavam-me as coisas que nele se diziam. À alta sociedade também não pertencia. Andei lá, mas senti sempre que era por ser fadista. Ao meio do teatro, acabava os espectáculos e vinha-me embora. Não sou do cinema, nem da rádio, da burguesia. Do meio do fado também nunca fui. Sou do povo por condição, sem orgulho nem pena”.

Muitos são os depoimentos recolhidos sobre a artista que não desdenhava ser a primeira do seu firmamento até que descobriu, aterrada, que a doença lhe roubara a voz e se preparou para morrer depois de ter visto morrer quem mais amava e estimava. É um dos textos mais tocantes de Dacosta, sobre a morte e a intemporalidade da Amália, o que ele chama a ressurreição, o fado vibrante que continua a correr o mundo pelas vozes talentosas de uma Ana Moura ou de uma Carminho:

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“Teve uma vida afectiva desconvencional, como sucede aos que não saem à procura da paixão porque sabem que a extravasam. Cedo percebeu que a felicidade não existiria para si, excluída pela excepcionalidade que transportava.

O tempo foi mudando, mudando-a, isolando-a. A força do canto, a sua arma, enfraqueceu. A cultura e o espírito, a imaginação e utopia depreciaram-se.

Tocada pelo absoluto, necessitava no seu quotidiano de pessoas simples, sólidas, que lhe restituíssem o apaziguamento. Por isso, a obsessão da procura do reverso do negrume: da cor, das flores, da gargalhada, do convívio, do sol. Os deuses deram-lhe alturas de incenso, mas a sua vida não”.

Foi como se com a sua morte o fado tivesse renascido fazendo entrar em tumulto pelas novas gerações intérpretes, músicos, poetas, aficionados ainda mais calorosos. E Dacosta observa que tudo isso está a acontecer devido ao solitário trabalho de décadas de Amália. Tornou-se mito inesgotável: no teatro, nas reedições permanentes, nas notícias sensacionais da descoberta de gravações perdidas, na sua imagem sempre procurada. Uma fadista que uniu pela versatilidade dos temas na sua voz incomparável, apaziguadora, sempre tão identificada com o que os portugueses esperam do fado.

Dacosta organizou uma estupenda manta, inclui retalhos, rendas, sedas, tecidos ásperos, e o produto final era o esperado – o mistério de Amália continua sem explicação, só que a sua voz mantém-se no centro do património cultural português, é um cometa que não se apaga.

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