O provérbio como espelho da língua portuguesa

O provérbio como espelho da língua portuguesa

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A OPINIÃO de RUI SOARES Presidente da Associação Internacional de Paremiologia
A OPINIÃO de RUI SOARES
Presidente da Associação Internacional de Paremiologia (AIP-IAP)

Para celebrar o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, a Direcção Regional de Cultura do Algarve (DRCAlg), organizou na Fortaleza de Sagres o evento “Sonhar em Sagres” dedicado a uma população heterogénea, predominantemente constituída por utentes da Santa Casa da Misericórdia de Vila do Bispo e por elementos da Academia de Música de Lagos, entre outros. O programa escolhido focou-se na apresentação de livros e poesia (Amanda Bittencourt e Cláudio Santos), provérbios (Rui Soares) e sonho (Armindo Vicente). A convite da DRCAlg, a Associação Internacional de Paremiologia / International Association of Paremiology (AIP-IAP) participou no programa com a palestra intitulada “O provérbio como espelho da língua portuguesa”, uma forma de contribuir para o sonho de preservar e língua portuguesa e homenagear a beleza da língua de Camões nessa data simbólica de 10 de Junho de 2017 e nesse mítico local – Fortaleza de Sagres – extremo sudoeste da Europa continental.

Sonhar em Sagres” está associado ao projecto “Eu Sonhava …” da Santa Casa da Misericórdia de Vila do Bispo, surgido com o propósito de comemorar o Dia Mundial dos Sonhos – 25 de Setembro, e concretizar os sonhos manifestados pelos utentes. Também é nossa intenção sonhar que o provérbio – unidade de comunicação facilitadora da compreensão acumulada de povos e culturas diferentes – contempla factores identitários relacionados com aspectos universais da vida. Como País que deu novos mundos ao mundo, o fenómeno migratório é bem conhecido e estudado sob múltiplas facetas, uma das quais – o estudo dos provérbios relacionados com a mobilidade de pessoas entre diferentes espaços geográficos e culturais. Na Sociedade de Geografia de Lisboa, a Comissão de Migração debruça-se sobre o papel dos provérbios como estratégia para o entendimento global.

O provérbio é, no dizer de alguns autores conceituados, “o mais belo adorno de uma língua” e a forma mais rápida para compreender um povo ou uma cultura. A simplicidade de tais unidades, quer no que respeita à estrutura frásica quer pela presença de algumas características que conferem ao provérbio um sentido lógico. O provérbio concretiza aspectos da vida quotidiana através de palavras e potencialmente conduz-nos à utilização do provérbio como conciliador intercultural e intergeracional. Pedagogicamente, esta forma de comunicação exige ser pensada como uma estratégia global numa educação para a cidadania e que respeite o equilíbrio entre deveres e direitos. Extensa é a lista de provérbios que interpretam os sonhos de que penas indicamos 3:

– Sonhar com galos é traição

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– Sonhar com galinhas é desgosto

– Sonhar com figos é sinal de dinheiro

Acrescentamos mais três relacionados com a experiência de vida:

– A esperança é o sonho do homem acordado

– A felicidade não passa de um sonho; só a dor é real

– Com os sonhos começam as responsabilidades

O provérbio, a expressão mais concisa de entre todas as formas de comunicar é, por isso mesmo, aquela que mais facilmente permite conhecer as particularidades de um povo ou cultura. É também um instrumento mediador entre outras formas de caracterização da identidade local, regional ou nacional e, simultaneamente, complementar dessa mesma forma de estar, de sentir e de viver. A título de exemplo, segue uma quadra popular (da autoria de Maria do Rosário Afonso) construída pela junção de um par de provérbios emparelhados:

Antes pouco e bem guardado
do que muito e mal estimado.
O trabalho do moço é pouco
mas quem o despreza é louco.

Termina-se este breve contributo ao provérbio e à língua portuguesa com outras expressões de autores portugueses – pensamentos – muitas vezes, indevidamente chamados provérbios.

Fernando Pessoa – “De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos

Fernando Pessoa – “Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso

Fernando Pessoa – “O homem é do tamanho do seu sonho

Florbela Espanca – “Não costumo acreditar muito nos sonhos … porque de todos se acorda

José Luís Nunes Martins – “Afinal, os verdadeiros sonhos de um homem esperam por ele, mas muito longe do sítio onde costuma dormir

José Mourinho – “Nós queremos seguir um sonho, isso é verdade, mas uma coisa é seguir um sonho e outra é seguir uma obsessão. Um sonho é mais puro do que uma obsessão. Um sonho tem a ver com o orgulho

Miguel Esteves Cardoso – “Os melhores sonhos de todos são aqueles que nos põem a pensar e a mexer. Os únicos sonhos de que vale a pena falar são os que não nos deixam dormir”.

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