Um outro Algarve

Um outro Algarve

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A OPINIÃO de MARIA LUÍSA FRANCISCO Investigadora na área da Sociologia luisa.algarve@gmail.com
A OPINIÃO de MARIA LUÍSA FRANCISCO
Investigadora na área da Sociologia
luisa.algarve@gmail.com

Há um Algarve telúrico e rural que me fascina desde cedo, um Algarve onde passei uma parte da minha vida e que sempre me inspirou quer na escrita poética, quer na escrita académica.

Para além das vivências e da aprendizagem com as pessoas mais idosas, não poderei deixar de referir um livro intitulado: Um Algarve Outro – contado de boca em boca da autoria de Glória Maria Marreiros (Livros Horizonte, 1991). Este livro levou-me a valorizar mais o que em parte já conhecia. Ajudou-me a ter um olhar mais atento sobre o património cultural imaterial do Algarve e sobre as gentes da serra algarvia.

Conheci pessoalmente Glória Maria Marreiros num dos muitos Congressos do Algarve organizados pelo Racal Clube, e na mesma altura conheci Margarida Tengarrinha. Duas algarvias defensoras de muitas causas, defensoras dos saberes da serra algarvia, da riqueza imaterial do Algarve e cujo trabalho de recolha muito admiro.

Depois entrei no ensino superior em Lisboa e conheci outras referências nesta área. Sempre pensei que voltaria para o Algarve onde me dedicaria a estudar e a conhecer melhor a região que me viu nascer, fosse academicamente ou não. Numa palavra, dar um contributo para o desenvolvimento de uma região, que pela sua diversidade, pela riqueza da paisagem natural e humana tem um imenso potencial para um desenvolvimento cada vez mais sustentável.

Ainda em relação à obra acima referida, o escritor Domingos Lobo, num comentário online, valoriza o trabalho de Glória Maria Marreiros dizendo: “Um outro Algarve, ainda com ressonâncias berberes no falejar, no uso das mezinhas, das ervas, nas crenças ténues, esparsas na cultura, do Islão – uma cultura fermentada pelos séculos, atravessada pelo esquivo céu dos hebreus. Um Algarve profundo, humano, que não colhe nos recortes badalados do biquíni, nos campos de golfe, nas discotecas da moda; esse território das gentes que o habitam, que encontramos presente e afirmativo, com apuro sensível, com atenta dedicação, numa fala por vezes indignada, outras rumorejando um lirismo de puríssima fonte, um verbo sempre expressivo e lúcido, na obra de Glória Maria Marreiros”.

tertulia
Tertúlia na Biblioteca Municipal de Lagoa com António Rosa Mendes como orador convidado

Ao longo desta rubrica mensal irei abordar temas sempre diferentes, e trazer um pouco de um outro Algarve, que, creio, ainda surpreenderá muitos leitores. Há uma ancestralidade e um modus vivendi em certas zonas rurais, que para quem vive nos meios urbanos poderá ser inacreditável!

Naturalmente irei partilhar temas ligados à área da cultura e ligados ao meu trabalho, enquanto investigadora na área da Sociologia. As várias dinâmicas migratórias, sociais e culturais no interior algarvio têm sido o meu objecto de estudo.

O título da rubrica “Marca d’água” tem a ver com o facto de as questões ligadas à água me interessarem particularmente, e porque de alguma forma se cruzam com as minhas áreas académicas, quer da Pós-graduação Sociologia da Cultura e das Religiões, do Mestrado em Ecologia Humana e Problemas Sociais Contemporâneos e do Doutoramento em Sociologia Rural e Urbana. E ainda porque “Marca d’água” significa selo de garantia, a garantia de que escrevo por vezes mais com a emoção do que com a razão!

Um representante genuíno da identidade algarvia

A minha gratidão pelo que aprendi com o Prof. Doutor António Rosa Mendes faz com que lhe dedique este meu primeiro artigo da rubrica “Marca d’água” do suplemento Cultura Sul. Lembro-me que lhe mostrei o primeiro artigo publicado na rubrica “Patrimónios” neste mesmo suplemento onde agora escrevo. Não imaginava que tão poucos anos depois estaria a escrever estas linhas in memoriam de António Rosa Mendes. Fez no passado dia 4 Junho quatro anos que partiu.

Conheci o Prof. Doutor António Rosa Mendes no âmbito de umas Jornadas ligadas ao património, onde fui moderadora, há uns dez anos. Ambos algarvios e docentes na mesma Universidade, não tínhamos sido apresentados até então.

A primeira característica que apreciei em António Rosa Mendes, logo na mesa que moderei e onde era um dos oradores, foi o seu registo de acentuada pronúncia algarvia e a forma expressiva como as suas mãos acompanhavam as suas palavras. E, claro, o seu comprometimento com a região algarvia. 

Só mais tarde soubemos que ambos fizemos o Mestrado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Ele no Departamento de História em 1991 e eu no Departamento de Sociologia em 2002.

Conhecia a minha investigação sociológica no interior algarvio e sempre estimulou e valorizou o meu trabalho. Aliás, era uma pessoa que valorizava muito o trabalho de outros investigadores e fazia-o também com os seus alunos.

António Rosa Mendes é daqueles algarvios que deixou um legado, não só pelo que escreveu, mas também pelo papel desempenhado enquanto Comissário de Faro Capital da Cultura 2005. Foi um entusiasta do Património Cultural, tendo tido um papel importante na Licenciatura em Património Cultural e um dos dedicados promotores do Mestrado em História do Algarve na Universidade do Algarve. Orientou muitos alunos, que conheço, e por isso posso dizer que se sente que beberam o espírito do mestre, que ganharam o gosto pela valorização e divulgação do património algarvio.

Era um homem inteligente, atento e de bom senso. Tinha grande curiosidade intelectual e uma enorme perspicácia, era culto e brilhante. O seu refinado sentido de humor vinha facilmente ao de cima. Às vezes tínhamos diálogos muito engraçados em que acentuávamos ainda mais a pronúncia algarvia e usávamos palavras de um Algarve rural que já pouca gente usa ou conhece. Era um representante genuíno da identidade algarvia.

O seu conhecimento da história e cultura do Algarve e a sua eloquência estavam sempre presentes em todos os diálogos. Um homem singular com singulares amigos, que aos poucos fui conhecendo e que foram e continuam a ser importantes para mim.

(Artigo publicado no Caderno de Artes Cultura.Sul)

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