4 M’s: Maio, Museus, Museologia e Misericórdias no Algarve (parte 3)

4 M’s: Maio, Museus, Museologia e Misericórdias no Algarve (parte 3)

944
PARTILHE
misericordia loule
Imagem da Misericórdia de Loulé

Valorização sociocultural

Para além de estarem ao serviço das práticas religiosas, entendemos que se deve partilhar com as comunidades o conhecimento científico produzido, o que pode ser mais adequadamente caraterizado como socialização patrimonial.

Sendo a acessibilidade ao património uma prioridade do Estado a que a Igreja também dá grande importância, pretende-se promover a acessibilidade pública às catedrais, igrejas e antigos conventos da região através de uma oferta estruturada em torno do património religioso, por via de espaços musealizados ou outras valências, como arquivos e bibliotecas, ou através de uma programação cultural que contribua para a sua valorização (vontade expressa no projecto da Rota das Catedrais que inclui Faro e Silves). Contudo, vicissitudes várias – como seja a falta de dotação financeira para realizar os investimentos necessários – têm privado a DRCAlg de assumir, neste âmbito, a sua participação plena neste programa.

Por outro lado, tendo em vista a requalificação do património religioso como factor de diferenciação da oferta turística regional e de partilha deste património com as comunidades, procurou-se congregar diversas Entidades num Projecto Regional de Património Religioso e Turismo: Diocese do Algarve, Pastoral do Turismo Religioso, União das Misericórdias, AMAL, CCDR, UALG, IPDJ, IEFP, RTA, ATA, Associações de Defesa do Património, DRCAlg.

Em torno dos edifícios e locais identificados pelos parceiros como prioritários, procurou-se estruturar a possibilidade de abertura concertada nos períodos de férias de alguns templos sob responsabilidade da Diocese, com o apoio dos municípios. Considerou-se a viabilidade de um Programa de Voluntariado para os jovens maiores de 16 anos para este efeito, a possibilidade de envolvimento de desempregados para desenvolverem as tarefas de recepção de visitantes, a criação de uma Bolsa de Voluntariado e a realização de cursos de formação com formadores certificados, tendo em vista a preparação de recursos humanos para acolhimento e acompanhamento do visitante que pretenda descobrir e experienciar o património religioso.

No âmbito da divulgação, considerou-se uma possível edição promocional dedicada a este património, a colocação de informação na internet, articulando os sites da DRCAlg, Pastoral do Turismo Religioso e municípios, bem como a disponibilização de dispositivos de interpretação dos bens culturais e a melhoria de segurança nos locais.

A economia e a integração social que o património religioso pode gerar como mais-valia para a região é uma necessidade que as várias entidades envolvidas identificaram mas que exige: pequenas intervenções de requalificação, conservação e restauro, organização de voluntariado jovem, bolsas de participação para desempregados, edições, divulgação em vários meios de informação e suportes, material interpretativo, segurança/vigilância. Seria importante desenvolver uma memória descritiva (incluindo estado de conservação dos imóveis, horários religiosos e de abertura para visitas) com aquilo que deverá ser concretizado para cada espaço ou conjunto dos vários espaços, quer de intervenção física quer de conteúdos e outras necessidades, para organizar um documento estruturado com as acções que cada paróquia, e que cada congregação pretende implementar nas igrejas e nos espaços musealizados que poderão integrar esta rede.

Há trabalho realizado e muito ainda por fazer

Temos que reconhecer que há um trabalho em desenvolvimento no âmbito da musealização e da valorização deste património e que se criaram a nível nacional e na estrutura interna da União de Misericórdias o Gabinete do Património Cultural que se dedica ao desenvolvimento destas preocupações, mas também existe desde o ano passado um novo protocolo de colaboração com o Ministério da Cultura para a salvaguarda, valorização e divulgação no património imóvel, móvel museográfico, arquivístico e imaterial das Santas Casas portugueses que pressupõe o apoio técnico e consultivo de vários organismos do Ministério da Cultura, entre as quais as Direcções Regionais.

Há trabalho conquistado no Algarve com a Rede Regional de Museus que poderá contribuir para a partilha de boas práticas e para a criação de sinergias interinstitucionais. Também com a Rede Regional de Arquivos alguns frutos começam a surgir em relação ao património documental e arquivístico.

As práticas museológicas aplicadas a este património na região devem incluir não só a introdução de práticas de inventariação e de registo, mas também de salvaguarda e de valorização. Para que este trabalho possa ser prosseguido será necessário o estreitamento da relação com a academia, nomeadamente com a Universidade do Algarve. Nomeadamente, ao nível dos fundos manuscritos a situação continua muito deficitária, pesem embora os esforços da Rede de Arquivos do Algarve.

Finalmente, apontou-se a adesão à Rede Regional de Museus e a designação de um interlocutor regional das misericórdias como aspectos principais para o estreitamento do trabalho conjunto e para a consumação do protocolo existente a nível nacional.

Os museus, pólos museológicos ou núcleos são testemunhos do real através dos objectos que incorporam. Esses objectos seleccionados representam valor de conhecimento e de informação, pois comprovam uma realidade e transmitem uma narrativa.

As misericórdias são amplamente reconhecidas pela sua dimensão de protecção social, todavia, também foram espaços de lutas partidárias e mesmo instrumentos de domínio político. Foram instituições hospitalares e instituições de crédito. No passado dia 18 de Maio comemorou-se o Dia Internacional dos Museus, este ano com o tema Museus e Histórias controversas: dizer o indizível nos museus, que se constitui como excelente oportunidade para conhecer as histórias locais das misericórdias.

O desejo fica também manifesto das “Misericórdias do Algarve” passarem a integrar, com uma representação de proximidade regional, as redes de cooperação regional.

O desafio de criação de umas jornadas regionais de museologia ficou também expresso e foi aceite, para que esta possa ser uma reflexão continuada e partilhada publicamente.

Musealizar significa dar voz a objectos, às colecções. Representar a história das misericórdias, criar uma narrativa e apresentá-la ao público é essencial. Este é um trabalho que se pode e deve ser iniciado em rede.

(Artigo publicado no Caderno de Artes Cultura.Sul)

Facebook Comments

Comentários no Facebook