O Homem que escrevia azulejos, de Álvaro Laborinho Lúcio

O Homem que escrevia azulejos, de Álvaro Laborinho Lúcio

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Adriana Nogueira Classicista; Professora da Univ. do Algarve adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com
Adriana Nogueira
Classicista;
Professora da Univ. do Algarve
adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com

Álvaro Laborinho Lúcio tornou-se conhecido dos Portugueses quando ocupou o cargo de ministro da Justiça, entre 1990 a 1995. Atualmente é juiz-conselheiro jubilado do Supremo Tribunal de Justiça, mas, como o próprio diz, aspira a ser escritor. Como ficcionista, publicou o seu primeiro romance em 2014, O Chamador, e em setembro de 2016 publicou este, que hoje vos trago, O Homem que escrevia azulejos.

Álvaro Laborinho Lúcio: «O Homem que escrevia azulejos»

Parece que estou quase a repetir o título, invertendo a ordem, mas a ideia que quero passar é mesmo essa: o autor identifica-se, no Prólogo, com a personagem que, afirma, não sabendo pintar os azulejos que tanto aprecia, «Podia muito bem escrevê-los. Escrever neles os sonhos da minha vida. A trama, no conjunto final, teria sempre de ser mais do que a soma dos azulejos. E se fosse um romance? Talvez um romance satírico. O esmalte vidrado vem criar uma dúvida persistente, quando se pretende distinguir o que parece ser do que realmente é. Dúvida boa, esta, para inspirar a sátira» (p. 13).

O livro tem dois grandes painéis: «A Cidade», a parte maior, constituída por 32 capítulos, chamados «azulejos», e «A Montanha», constituída por 13 azulejos. E tal como acontece com estes, só quando os vemos à distância (aqui, o final do livro) percebemos o seu todo, mas sem cada um dos quadradinhos esse todo estaria incompleto. Mantendo a metáfora (tema tratado no livro, também, onde se diz «São perigosas, as metáforas» – p. 213) dos azulejos, há personagens pintadas (ou descritas) em vários: uma pincelada aqui, outra ali, e o quadro vai-se formando na nossa cabeça, levantando perguntas e dando algumas respostas. E também, tal como num painel, o quadriculado interrompe a narrativa, para logo a colar.

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Por exemplo, o 30.º azulejo começa assim, na p. 164: «Está lá fora o Sr. Martinho da Leitaria. Foi Maria Augusta quem trouxe a notícia». Depois, Otília, a personagem que narra este episódio (e grande parte da história), divaga sobre o avô e o modo como este vivia através das personagens dos livros que lia. O início do 31º azulejo junta-se ao início do anterior (p. 170): «Maria Augusta fez como lhe disse. Conduziu à biblioteca o Sr. Martinho da leitaria».

A Cidade

A primeira parte tem cenas em Portugal e em França. Percebemos as razões da ida para este país do pai de Marcelo e Joaquina (que são uma única vez assim nomeados, pois em França – e no livro – são Marcel e Jacqueline); percebemos a cumplicidade entre Marcel e Norberto, um dos narradores principais, a par de Marcel e Otília; vamos compreendendo que Otília narra a história do avô João Francisco, muitas vezes assumindo a sua voz, misturando-se com a dele.

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Laborinho Lúcio é juiz-conselheiro jubilado do Supremo Tribunal de Justiça

O espaço privilegiado da cidade é o bar de Marcel, com mesas reservadas e nomeadas com as alcunhas dos seus frequentadores: Poeta Póstumo, Tumor Anarquista, Professor, Chinesa…

A par da história principal – o desenho central do painel –, podem ver-se outras personagens que seguram um fio que se desenvolve ao longo da narrativa: a busca por um Peugeot 404, com um urso de peluche no banco de trás, que parece um delírio de Norberto, inspirado num conto de Cortázar, mas que serve de pincelada final no último azulejo.

A personagem de João Francisco é das mais emocionantes: professor de música forçado a reformar-se. A neta, que por ele nutre uma paixão enorme (podia dizer admiração, mas quero manter – como o autor o faz – alguma ambiguidade), afirma: «Ainda não percebeu? O meu avô não está doente. Ele apenas perdeu a sua identidade. E perdeu-a porque lha roubaram. Porque lha roubaram na escola, porque lha roubaram em casa, porque lha roubaram na leitaria, onde quer que ele fosse. As personagens que passou a viver não são o resultado de qualquer perturbação mental. Apenas deixou de saber quem é, e a procura de si próprio dentro dos outros não é mais do que um grito de revolta contra aquilo que lhe fizeram» (p. 191). Todavia, apesar da tragicidade desta personagem, rodeiam-na o amor e a alegria. Quer quando vivia feliz com a mulher, quer quando, já viúvo e se procura encontrar, há um humor que o envolve. Queixa-se a velha empregada (p. 167):

«Mas, agora, menina, então não é que muda de nome todos os dias? Manda-me chamar-lhe Fernando, e quando o chamo, diz-me que é Alberto. Trato-o por Alberto, e afinal é Ricardo. Foi isso que percebi. Mas devo ter percebido mal. Acho que é Bernardo e não Ricardo. E de cada vez que muda de nome, muda de feitio, muda de roupa, muda tudo. E eu não sei o que hei-de fazer, menina.

– E Álvaro? Ainda não te disse que se chama Álvaro?

– Esse não. Ainda há outro, menina?»

A Montanha

Este livro tem várias referências literárias que conduzem o leitor pelos não-ditos que os nomes evocam. Como esta divisão entre cidade e montanha, uma montanha onde há um antigo sanatório, que nos faz lembrar A Montanha Mágica, de Thomas Mann.

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Livro é o segundo romance de Laborinho Lúcio

Esta casa na montanha, gerida por uma viúva, a D. Leontina da Conceição, que, ao contrário do que seria de esperar, sentia-se com «a missão de converter os sãos à pureza dos loucos» (p. 188). É neste lugar que se vem a dar o desfecho, com um regresso a Paris que se liga ao 1.º azulejo do 1.º painel. Antes disso, no 12.º painel, intitulado «Não se morre para sempre», há uma fala do Sr. Martinho, muita curta, que me emocionou às lágrimas. É, talvez, o azulejo mais bonito, pleno de compreensão do mundo.

Que um livro com muitas citações não pareça que é incompreensível. Nada disso: quem as reconhecer, sorrirá com satisfação, como acontece quando encontramos um amigo inesperadamente. Quem não reconhecer, apreciará igualmente a história, porque ela vive por si. Para quem tiver curiosidade para saber onde ler os textos citados no livro, tem nas páginas finais os textos consultados pelo autor, podendo fazer leituras complementares.

Um livro muito bem escrito, com elegância e sem lugares-comuns, a que já apetece voltar.

Termino com uma frase do avô João Francisco (na p.84) que «dizia sempre que a curiosidade, o conhecimento e a cultura são lugares de encontro, sítios bons para fazermos perguntas».

Marquemos encontro em frente ao próximo painel.

(Artigo publicado no Caderno de Artes Cultura.Sul)

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