Eu sou muito mais importante do que vocês pensam

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Beja Santos Assessor do Instituto de Defesa do Consumidor Consultor do POSTAL
Beja Santos
Assessor do Instituto de Defesa do Consumidor
Consultor do POSTAL

“Diário de um Zé Ninguém”, por G. & W. Grossmith, Tinta-da-china, 2017, é uma das obras-primas da literatura humorística, à escala mundial. Encerra alguns mistérios, e não há prosápia em dizer que permanecem insondáveis. Evelyn Waugh foi terminante no seu juízo de valor: é o livro mais engraçado do mundo. A primeira corrente de mistério é de ser um livro redigido e bem-sucedido na era vitoriana, não ter perdido a sua frescura enquanto relato de insignificâncias infindáveis. Os autores sabiam da poda, um era desenhador exímio, o outro escrevia com autoridade, fazia óperas, argumentos de diferente género e um dia apostaram em fazermos rir com o relato épico de Charles Pooter, um burocrata a meio do caminho da vida que tomou a decisão de registar sob a forma de diário os acontecimentos quotidianos. É um daqueles anglicanos que valorizam transversalmente a modéstia, o bom senso, a dedicação ao trabalho, a amenidade conjugal, o dar-se bem com os outros. E tudo aquilo que à partida prometia ser uma chumbada literária de idas ao talho, de dificuldade em consertar o alpendre, as crises da criada, os devaneios da mulher, as peripécias de um filho toleirão, os serões mirabolantes que até metem mesas de pé de galo, um ambiente de trabalho onde um adolescente estouvado o provoca e um patrão magnânimo lhe exalta as qualidades, enfim, aquilo que parece limitado, e nada mais de uma sátira da classe média suburbana londrina de finais do século XIX, ganha foros de permanente atualidade, é um espelho onde nos podemos rever e o nosso viver com os outros.

É verdade que aquela casa não tem televisão nem computadores nem telemóveis. Não precisa de ter para se transformar uma metáfora da nossa contemporaneidade. São as obras, facilmente extrapoláveis para os nossos arranjos em pinturas, em reparações de eletrodomésticos, a nossa confusão com certas lâmpadas e as diabruras dos aquecimentos e arrefecimentos. E as insignificâncias, os nossos próprios atos repetitivos, ganham um colorido neste espantoso diário de um zé-ninguém: “13 de Abril. Uma coincidência extraordinária: Carrie chamou uma senhora para fazer umas capas de chita para as cadeiras e o sofá da sala de visitas, para que o sol não comesse os estofos verdes da nossa mobília. Quando a vi, reconhecia como sendo a mulher que trabalhara há muitos anos para a minha velha tia em Clapham. O que só prova que o mundo é pequeno”.

Há presunções que desaguam em risota geral, como o baile promovido pelo Sr. Presidente de Câmara, e uma grande expectativa de notoriedade acaba tudo numa enorme decepção. Charles Pooter repara a casa como pode. Esquece-se às vezes é que pinta o que não deve pintar, como a banheira que levou uma boa demão de tinta vermelha, não resistiu ao primeiro banho de água quente: “Quando mexi a mão à superfície da água, apanhei o maior susto da minha vida; imagine-se o meu terror quando descobriu que a minha mão estava, compensei, coberta de sangue. A primeira coisa que me ocorreu foi ter-me rebentado uma artéria, estava a sangrar de morte e mais tarde havia de descobrir-me com um aspeto de um segundo Marat”.

Uma vida de infortúnios, de andar em círculo, mas também da apoteose em ser reconhecido como um funcionário excecional, lá no escritório, o que supera os muitos acidentes do percurso a começar pela pesporrência do filho Willie Lupin Pooter, que se lava muito a sério, é um carro de assalto, a sua missão é ganhar muito dinheiro e terá êxito. Se quisermos fazer uma leitura guiados pelas aparências, teremos que seguir as peripécias do teatro amador, as festas que nem sempre correm bem, jantares com gente insuportável, os desencontros entre o que se pretende comprar e o que chega a casa, os acasos da sorte, as visitas de família, as certas agruras durante as ambicionadas férias.

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Esta obra-prima da literatura de humor goza da tal intemporalidade em que não precisamos da era digital, nem das avalanches de publicidade nem do consumo obsidiante. São peripécias, a vacuidade de tanta conversa, o labirinto das insignificâncias. Depois de um percurso com reparações, amigos e vizinhos de presença excessiva, um filho atirado para a frente que assinala a chegada de uma nova era da moral, veio o grande prémio, o patrão anuncia que lhe vai comprar o título de propriedade da casa e oferecer-lhe de presente ao homem com maior honestidade e mérito que lhe coube em sorte conhecer.

Dois artistas que levavam uma vida com êxito, por acaso dois irmãos, decidiram em 1892 escrever uma série de textos humorísticos para a publicação Punch. Nasceu assim este zé-ninguém que se tornou numa personagem cómica e mortal.

Leitura imperdível.

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