A Sociedade dos Sonhadores Involuntários, de José Eduardo Agualusa

A Sociedade dos Sonhadores Involuntários, de José Eduardo Agualusa

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Adriana Nogueira Classicista; Professora da Univ. do Algarve adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com
Adriana Nogueira
Classicista;
Professora da Univ. do Algarve
adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com

José Eduardo Agualusa é um autor sobejamente conhecido nos países de língua portuguesa e não só. Está traduzido em mais de 30 línguas, recebeu vários prémios internacionais, sendo o mais recente o International Dublin Literary Award, pelo romance Teoria Geral do Esquecimento (A General Theory of Oblivion), de 2012 (escrevi sobre ele na edição de 6 de julho daquele ano). O anúncio foi feito a 21 de junho, pouco mais de uma semana antes da ida do autor, no passado 4 de julho, à Feira do Livro de Olhão – FLO 2017, para apresentar o seu novo trabalho: A Sociedade dos Sonhadores Involuntários. Quem teve o gosto de o ouvir, ficou a saber que sonha, frequentemente, os livros que escreve. E é o sonho que serve como pano de fundo de tudo o que acontece na narrativa, na qual somos guiados por Daniel Benchimol, a personagem que une todas as outras. Curiosamente, liga-nos também ao outro livro aqui referido, pois já aparecia na Teoria Geral do Esquecimento, onde era chamado de «colecionador de desaparecimentos». Uma das histórias deste A Sociedade dos Sonhadores Involuntários resolve o enigma de um avião, um Boeing 727, propriedade da American Airlines, desaparecido em 2003 do aeroporto de Luanda, depois de 14 meses parado, e já mencionado naquele outro livro: «Daniel Benchimol coleciona histórias de desaparecimentos em Angola. Todo o tipo de desaparecimentos, embora prefira os aéreos. (…) O jornalista classifica os desaparecimentos recorrendo a uma escala de zero a dez. Os cinco aviões desaparecidos nos céus de Angola, por exemplo, foram classificados por Benchimol como desaparecimentos de grau oito. O Boeing 727, como desaparecimento de grau nove» (p. 103 – Teoria Geral do Esquecimento). Uma personagem que passa de um livro para outro não é de espantar, quando vamos ver personagens que entram e comunicam nos sonhos de todas as pessoas, ou quando os sonhos vão poder ser fotografados e filmados.

Título

Gosto do desafio que os títulos nos propõem, mas muitos autores queixam-se de que, aí, são muitas vezes condicionados por editores. Mas não parece ter sido o caso deste A Sociedade dos Sonhadores Involuntários, cujo nome nos abre as cortinas, como num teatro, para uma série de histórias que acontecem dentro de uma história maior: histórias de sonhadores involuntários e voluntários.

agualusa
Agualusa, traduzido em mais de 30 línguas, já recebeu vários prémios internacionais

O sonhador mais presente é Hossi Apolónio Kaley, proprietário de um hotel onde se passa uma parte da ação. Hossi tem um diário, através do qual vamos conhecendo esta personagem que, sem o querer, entra no sonho dos outros. É um sonhador involuntário, com quem desconhecidos se lembram de ter sonhado, e que por isso passa por tentativas de manipulação desse poder. Até que um dia se torna um sonhador voluntário.

Sonhadores voluntários são também aqueles jovens que lutam por um mundo melhor, mas essa pista é-nos passada pela terceira dedicatória.

Dedicatórias

Para além dos títulos, sempre me despertaram curiosidade as dedicatórias que os autores fazem nos seus livros. Dependendo da criatividade e originalidade que lhes queiram imprimir, as dedicatórias podem ser um desvendar de uma intimidade que nos é permitido apenas adivinhar num nome e nalgumas poucas palavras, normalmente isoladas numa página.

As três dedicatórias deste livro descortinam um pouco o enredo: depreende-se que a primeira será à mulher amada, pois é quem amamos (e nos ama) que nos acompanha na realização (ou, em alguns casos, é a própria realização) dos nossos sonhos. Haverá na história uma mulher amada com quem se partilham sonhos? Sim. Literalmente. Porque, aqui, os sonhos chegam a ter uma concretização na matéria, nomeadamente em filme. E chegamos à segunda dedicatória, que será aos amigos, onde nos aparece o nome de Sidarta Ribeiro, um neurocientista, diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Percebemos que esta dedicatória é um indício de como virá a ser criada a personagem Hélio de Castro, também ele brasileiro e neurocientista, que trabalha sobre sonhos (p.119), investigando a possibilidade de se «produzir filmes curtos a partir da atividade cerebral de um sujeito sonhando» (p.176). Também é desta personagem a teoria que explica os sonhos premonitórios: «O tempo é uma dimensão como o comprimento, a largura ou a altura. Assim, não faz qualquer sentido dizer que o tempo passa. Não passa. Está. (…) talvez seja possível que nos recordemos de eventos futuros, muito importantes ou muito traumáticos. Pode ser que nos ocorram, por vezes, rápidas memórias de pessoas que ainda não conhecemos, mas que irão marcar profundamente a nossa vida» (p.183).

E a terceira dedicatória, aos «jovens sonhadores angolanos», muitos dos quais foram detidos, em 2015, por estarem a ler o livro Ferramentas para destruir o ditador e evitar nova ditadura — Filosofia política da libertação para Angola, de Domingos Cruz, uma obra que promove a resistência através da não-violência. A acusação feita aos 17 jovens nomeados na dedicatória, porém, foi a de estarem a preparar um atentado ao presidente. Também no livro há jovens presos com esta mesma acusação, mas em vez de um rapaz protagonizar essa luta coletiva (na nossa comunicação social de quem mais ouvimos falar foi de Luaty Beirão), José Eduardo Agualusa escolhe uma rapariga, Karinguiri, a própria filha de Daniel Benchimol, que  aparece como uma Antígona, essa jovem da tragédia grega de Sófocles, que faz frente ao regime.  Karinguiri inspira os outros à resistência, incluindo o próprio pai, de início renitente. Os sonhadores voluntários criam novos sonhadores («Dão-me coragem – como quem oferece o coração», p.241).

Epígrafes

As epígrafes são também pistas de leitura, são um primeiro olhar cúmplice que o autor troca com o leitor. A primeira, de Cioran, «O real dá-me asma» remete para o não-real, para o que de onírico este livro tem. Sempre os sonhos: os que se perseguem, os que se alcançam, os que nos confundem e nos deixam sem saber em que dimensão estamos. A segunda epígrafe, de Bernardo Soares/ Fernando Pessoa, é mais explícita: «Recordemo-nos sempre de que sonhar é procurarmo-nos».

Um livro de busca de concretização de sonhos, que podem estar bem perto de nós. Como Karinguiri diz ao pai, depois de Daniel a informar que vai ao Brasil «em busca de sonhos e de sonhadores» (p.161).: «Não precisas de ir tão longe, papá. Eu tenho tantos sonhos. As outras presas, as mulheres-polícias. Todas nós sonhamos muito. Nem imaginas os sonhos que cabem dentro desta prisão». Talvez dentro de todo o tipo de prisões.

(Artigo publicado no Caderno de Artes Cultura.Sul)

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