A estrada subterrânea, Colson Whitehead: a emancipação de um destino

A estrada subterrânea, Colson Whitehead: a emancipação de um destino

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A proposta de leitura de Paulo Serra para esta semana. A rubrica Leitura da Semana é publicada semanalmente, à terça-feira. Paulo Serra é doutorado em Literatura na Universidade do Algarve e investigador do CLEPUL
Paulo Serra é doutorado em Literatura na Universidade do Algarve e investigador do CLEPUL

Cora é uma jovem escrava que nasceu numa plantação de algodão e apesar de nunca o ter ponderado é confrontada com a possibilidade de escolha quando Caesar lhe propõe fugir. Cora diz que não à primeira, sendo essa recusa automática a voz da avó dela, Ajarry, a falar em si. Lemos depois como Ajarry viu o mar pela primeira vez, quando é levada para as masmorras onde mulheres e crianças raptadas nas aldeias de África esperavam pelos barcos que as levariam para as Américas. Durante o seu percurso Ajarry será vendida por várias vezes, passando de uns negreiros para outros; tenta matar-se por duas vezes, na travessia do Atlântico; é marcada por várias vezes, como uma peça de gado; e o seu preço vai flutuando ao sabor do mercado, até porque há excesso de raparigas na altura, até ser vendida por duzentos e noventa e dois dólares.

Três semanas mais tarde, quando Caesar lhe volta a falar num caminho de fuga Cora acaba por dizer que sim, e dessa vez sente que é a voz da mãe, Mabel, a falar por ela, a única escrava que terá conseguido fugir da plantação.

Colson Whitehead
Romance de Colson Whitehead venceu o Prémio Pulitzer e o National Book Award

Cora é uma personagem intrigante. Se ao início julgamos que é louca, como os restantes escravos a consideram, assistimos depois a um crescendo da personagem. Cora, aliás, percebe claramente a verdadeira razão por trás do convite de Caesar para o acompanhar na sua fuga: “- Achas que sou uma sortuda encantadora porque a Mabel fugiu. Mas não sou. Já me viste. Já viste aquilo que nos acontece quando temos ideias na cabeça.” (p. 64).

Cora guarda rancor à mãe que para poder fugir a terá abandonado aos dez ou onze anos (pois todos sabem que os pretos não faziam anos, simplesmente escolhiam um dia para celebrar o seu aniversário) e procura agarrar-se à única coisa que tem: um pedaço de terra de três metros quadrados onde a avó cultivava nabos e inhames.

Fuga a um destino imposto
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A estrada subterrania
“Um romance impossível de pousar”

Mas as ideias são perigosas e infiltram-se, levando Cora a querer conhecer o mundo para lá da plantação. Essas ideias remetem para um idealismo rebelde que a leva a impôr-se contra as injustiças e a crueldade da escravatura, enquanto os restantes escravos sabem que é inútil. Em dois momentos, ainda na plantação, Cora tem gestos de uma bravura desmesurada, aparentemente inexplicáveis, quando reivindica à machadada o seu terreno e quando defende uma criança com o próprio corpo.

A estrada subterrânea está dividida em doze partes, intituladas com nomes de personagens e de estados, numa alternância entre partes muito breves, de um só capítulo, onde o leitor toma contacto com personagens secundárias do romance que mais tocam a vida de Cora, e partes mais extensas, de vários capítulos, que narram a fuga de Cora ao longo de vários estados: Geórgia, Carolina do Sul, Carolina do Norte, Tennessee, Indiana e o Norte…

Cora revelar-se-á uma mulher de força e de sentido prático, tanto que quando lê para ocupar os interregnos da sua fuga prefere os Almanaques aos romances. Contudo, não será por acaso que, além da Bíblia, um dos romances encontrados por Cora é As Viagens de Gulliver, como uma alusão à história mítica de um périplo arriscado por territórios desconhecidos, à semelhança desta jovem que vai fugindo do Sul para o Norte da América por um caminho de fuga que aqui se transfigura numa linha férrea subterrânea. São também, apesar de tudo, as histórias e fantasias que impelem Cora, numa viagem mais movida pela sobrevivência (e apesar do remorso, enquanto deixa atrás de si um rasto de sangue e morte) do que por um horizonte de esperança, apesar de achar improvável que exista um local onde os escravos possam ser verdadeiramente livres (o final em aberto é emblemático). Mesmo que enquanto isso o povo americano comece a recear as consequências da escravatura: “A América importara e criara tantos africanos que, em muitos estados, estes já eram mais numerosos do que os brancos.” (p. 153). Talvez por isso num estado onde até os escravos fugitivos pensam ter encontrado um porto seguro se começa a aventar a hipótese de esterilizar as mulheres.

New Yorker Festival
Obra reconstrói um retrato da América no séc. XIX

Colson Whitehead, nascido em 1969 em Nova Iorque, reconstrói através de uma escrita enganosamente simples um retrato da América no séc. XIX em que a história individual de Cora (onde confluem ainda as dos índios e emigrantes irlandeses) representa a condição do escravo e da sua luta pela liberdade e uma vida digna. Vencedor do Pulitzer e do National Book Award, este romance impossível de pousar surge como resposta necessária aos tempos incertos que se vivem na América e no mundo, onde o racismo ainda impera e os emigrantes são olhados com rancor: “E foi esta mistura enorme que veio para a América nos porões dos navios negreiros. (…) Os filhos e filhas deles apanharam tabaco, cultivaram algodão, trabalharam em propriedades gigantescas e em pequenas quintas. Somos artífices, parteiras, pregadores e vendedores ambulantes. Foram mãos negras que construíram a Casa Branca, a sede do Governo da nação. A palavra nós. Nós não somos um povo, mas muitos povos diferentes.” (p. 346).

(Artigo publicado no Caderno de Artes Cultura.Sul)
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