Se numa noite de inverno um viajante, de Italo Calvino

Se numa noite de inverno um viajante, de Italo Calvino

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Adriana Nogueira Classicista; Professora da Univ. do Algarve adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com
Adriana Nogueira
Classicista;
Professora da Univ. do Algarve
adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com

Há vários anos que este livro esperava na minha biblioteca para ser lido. Da autoria do italiano Italo Calvino (nascido em Cuba, mas cedo os pais o levaram para a sua terra natal), foi escrito em 1979, após um interregno de alguns anos, em que o autor nada publicou: “Com que então, viste num jornal que saiu Se numa noite de Inverno um viajante, novo livro de Italo Calvino, que já não publicava há vários anos. Passaste pela livraria e compraste o volume. Fizeste bem” (p.18).

Estará o autor a quebrar alguma barreira ficcional e a dirigir-se a nós? Seremos nós o Leitor a quem o narrador se refere? A surpresa do leitor actual de Calvino (que somos nós) ao ver-se retratado no próprio livro não será a mesma, passados que foram 38 anos da sua publicação (ou 32 anos depois da edição portuguesa de 1985, pela Vega Editora, com um apêndice de Calvino e outro de José Manuel Vasconcelos, um dos responsáveis pela tradução. É esta a edição que cito. Posteriormente, em 2000, a Teorema publicou a mesma obra, com tradução de José Colaço Barreiros) e depois do muito que já se escreveu. Porém, cada um que passa pela experiência de leitura de Se numa noite de Inverno um viajante não deixa de perceber o estranho jogo que Calvino faz connosco, leitores reais, e a personagem Leitor que cria na sua ficção, pretendendo, em vários momentos, que nos (con)fundamos.

Teoria e prática
Capa
Livro é constituído por 12 capítulos

O livro é constituído por 12 capítulos com uma história que serve de esteio para as 12 outras histórias que se intercalam com ela e que só têm começos. Isto é, a personagem Leitor começa a ler um livro, mas não consegue acabar, porque as páginas se repetem. Quando vai à livraria para trocar, traz um outro livro. A ida à editora não melhora a situação, pois o livro que traz é um outro ainda. Entretanto, dá-se o encontro com uma Leitora a quem acontece o mesmo. Entre a busca por um autor cujos livros estão a ser falsificados ou a procura do tradutor-falsificador, vão sendo lidos princípios de livros que nunca se conseguem terminar. E nós, leitores (com letra pequena), vamos acumulando histórias que gostaríamos (ou não) de ver concluídas, ao mesmo tempo que somos arrastados pela insanidade das personagens que se cruzam nesta demanda fantástica: além da Leitora, há a sua estranha irmã, há professores de línguas inexistentes, há um amigo que desaprendeu a ler, há bizarras polícias secretas que censuram livros…

Nas palavras da personagem Flannery, o escritor que tem muitos livros falsos em circulação, lemos a génese e o resumo do próprio livro que estamos a ler e já reconhecemos nesta citação tudo o que já sabemos (estre trecho aparece a 1/3 do fim, na p.181-2): “Surgiu-me a ideia de escrever um livro feito apenas de começos de romance. O protagonista podia ser um Leitor que é continuamente interrompido. O Leitor adquire o romance A do autor Z. Mas é um exemplar defeituoso e não consegue ir além do princípio… Volta à livraria para que lhe troquem o volume… Poderia escrevê-lo todo na segunda pessoa: tu, Leitor… Poderia também fazer entrar nele uma Leitora, um tradutor falsário, um velho escritor que mantém um diário como este diário…”.

Leitores (e leituras), há muitos
Italo Calvino
Obra foi publicada na Itália em 1979 por Italo Calvino

Por todo o livro vamos lendo reflexões sobre o próprio processo de escrita e, principalmente, de leitura. Flannery diz ao Leitor: “a mim acontece-me cada vez mais frequentemente pegar num romance que acaba de sair e encontrar-me a ler o mesmo livro que já li cem vezes”. Depois, já no seu diário, escreve: “A mim sucede-me isso ao escrever: há uns tempos que cada romance que me ponho a escrever se esgota pouco depois do início como se nele já tivesse dito tudo o que tinha para dizer”. (p.181).

No penúltimo capítulo (o último só tem seis linhas e serve como epílogo), o Leitor encontra sete outros leitores numa grande biblioteca a que se tinha dirigido em busca dos livros que nunca conseguiu terminar (pp.230-235). Cada um destes leitores tem uma forma diferente de abordar a leitura e é muito interessante como nos identificamos com algumas delas ou conhecemos alguém assim, ou já nos aconteceu fazermos de todas aquelas maneiras, com livros diferentes, como se cada livro condicionasse a leitura e esta não fosse condicionada pelo tipo de leitor. Todas são válidas. Por exemplo, o primeiro leitor que o interpelou diz que «Se um livro me interessa verdadeiramente, não consigo segui-lo para além de umas linhas sem que a minha mente, captado um pensamento que o texto lhe propõe, ou um sentimento, ou uma interrogação, ou uma imagem, não saia pela tangente e salte de pensamento em pensamento, de imagem em imagem, num itinerário de raciocínios e fantasias que sente necessidade de percorrer até ao fundo, afastando-se do livro até perdê-lo de vista». Já o segundo leitor, por razões idênticas, faz o oposto: “Por isso a minha atenção, ao contrário do que dizia, senhor, não pode separar-se das linhas escritas nem por um instante. Não devo distrair-me se não quero descurar nenhum indício precioso”.

Italo Calvino
Italo Calvino, representado em desenho

Um outro diz que “em cada releitura parece-me ler pela primeira vez um livro novo. Serei eu que continuo a mudar e vejo coisas de que antes não me tinha apercebido? Ou a leitura é uma construção que toma forma pondo em conjunto um grande número de variáveis e não se pode repetir duas vezes segundo o mesmo desenho?”.

Termino com uma frase do sétimo leitor: “O sentido último para que remetem todas as narrativas tem duas faces: a continuidade da vida e a inevitabilidade da morte”.

Que boas conversas se podem ter à volta deste livro!

(Artigo publicado no Caderno de Artes Cultura.Sul)