Origem, evolução e desenvolvimento da gestão cultural em Espanha (2ª parte)

Origem, evolução e desenvolvimento da gestão cultural em Espanha (2ª parte)

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rafael astola
Rafael Morales Astola Doutor em Filologia Hispânica, gestor cultural, co-fundador e ex-presidente da GECA

Em 2011, a FEAGC – Federação Espanhola de Associações de GC conseguiu que o Ministério do Trabalho incluísse a categoria de ‘gestor cultural’ na Classificação Nacional das Profissões, assim como o reconhecimento dos Graus de Gestão Cultural nas Universidades de Huelva e de Córdova. Ficou pendente da obtenção da epígrafe de ‘gestão cultural’ na Classificação das Actividades Económicas para as empresas do sector.

Hoje, a gestão cultural nas artes ocupa-se principalmente das artes cénicas, do cinema e música. Em Outubro foram publicados os dados do Anuário SGAE 2016. O relatório sublinha a precarização do sector a par da sua elevada qualidade profissional, conteúdos e serviços.

Em Espanha, a última crise foi um terramoto que retirou todos os programas e projectos culturais que obedeciam a outros paradigmas ou ao seu conjunto.

A situação de emergência é a seguinte:

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– Gestores culturais públicos rodeados por assessores ou pára-quedistas que fazem de gestores culturais, sem código deontológico, sem experiência ou conhecimentos técnicos;

– Empresas que dizem “pago-te metade do que te devo mas assinas um papel que diga que já não te devo nada ou levas-me para os tribunais”;

– Instituições que concedem ajudas com fundos europeus e que colocam argumentos absurdos e papelada interminável até deixar na ruína empresas ou dissuadir as pequenas administrações locais para que não empreendam projectos de envergadura;

– Administrações públicas que não reconhecem trabalhos que lhes foram encomendados por titulares com mandato terminado;

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Imagem da sede do Ministério da Educação, Cultura e Desporto espanhol em Madrid

– Entidades bancárias que pressionam até a corda quebrar-se e propõem ‘facilidades de pagamento’;

– Promotores e agências culturais que tardam mais de um ou dois anos a pagar;

– Impostos com pagamento imediato, mas para receber convertem-se num bombardeio de petições de documentação e fazem esperar mais de seis meses para o pagamento, etc.;

– Governos que retiram à cultura o IVA reduzido;

– Empresas encobertas sob a fórmula jurídica de associação que fazem concorrência desleal às verdadeiras empresas e geram desconfiança no tecido associativo;

– Associações chamadas para o intrusismo profissional para subsistência dos seus membros com a conivência das administrações;

– Administrações públicas que, ano após ano, pedem o mesmo, pagando menos e empurrando para o precipício da autoexploração.

A Gestão Cultural em Espanha move-se sobre placas tectónicas em choque e confluência. A pluralidade de territórios, de instituições e de sectores complica – ou melhor rompe – toda a possibilidade de estabelecer categorias que sirvam para caracterizar uma gestão cultural sob um único olhar estatal: gestão cultural rural, urbana, pública, privada, de terceiro sector, de quarto sector, mista, generalista, específica (museus, património, artes cénicas, música, literatura, artes plásticas e visuais, audiovisual e cinema, artes emergentes, artesanato, etc.), comunitária, de pequena, media e grande cidade, de grande urbe, estatal, autonómica ou local, transversal (com saúde, educação, inclusão social, género, juventude, ciência, comunicação, turismo…), etc…., são realidades operativas e conceptuais que impedem indubitavelmente qualquer tentativa de caracterização general.

Na próxima edição: Actualidade da gestão cultural em Espanha (conclusão)

(Artigo publicado no Caderno de Artes Cultura.Sul)
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