Os transtornos alimentares

Os transtornos alimentares

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Filipa Nobre Psicóloga natura mentepsi@gmail.com
Filipa Nobre
Psicóloga
naturamentepsi@gmail.com

É comum ouvirmos falar em transtornos alimentares, sendo que alguns são mais conhecidos do que outros, nomeadamente a anorexia nervosa e a bulimia.

Caracterizam-se por alterações no padrão do comportamento alimentar que têm prejuízos severos directos na saúde das pessoas.

Os transtornos alimentares têm geralmente início na infância ou adolescência e atingem em maior número as mulheres, se bem que o número de homens com estes transtornos tem vindo a aumentar.

É importante um diagnóstico precoce e uma abordagem terapêutica adequada dos transtornos alimentares para atenuar as suas diversas consequências.

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Neste artigo iremos abordar de um modo generalista os factores que podem influenciar o despontar dos distúrbios alimentares. Nos próximos artigos iremos enumerá-los e abordá-los mais aprofundadamente.

Porque surgem as perturbações alimentares?

A questão que mais se coloca é o porquê do surgimento destas perturbações. O facto é que não é fácil responder, pois percebe-se que não existe uma causa única, mas várias causas subjacentes, complexas e múltiplas. Existem assim factores predisponentes, precipitantes e de perpetuação.

Factores que potenciam perturbações alimentares
RAFCAL
RAFCAL, programa que pode ajuda-lo nas perturbações alimentares

Os factores predisponentes são aqueles que constituem uma pré-condição para que uma determinada doença surja. São factores já presentes no indivíduo ou no seu ambiente antes do desenvolvimento da perturbação do comportamento alimentar. Não são eles que desencadeiam o problema, mas existem no indivíduo de forma a que os factores de precipitação tenham um efeito específico da doença. Assim, são factores predisponentes a personalidade, pois encontram-se características de personalidade muito comuns nos diferentes distúrbios como o perfeccionismo, introversão, impulsividade, auto-estima, etc.; a dinâmica familiar, pela forma como a família se relaciona; os factores biológicos, como alterações do sistema nervoso, do sistema endócrino, do metabolismo assim como a possibilidade de existência de transtornos psiquiátricos; factores sociais, ou seja pela forma como as linhas corporais são encaradas na sociedade como o belo, a moda, o bullying dirigido principalmente aos mais gordinhos; factores culturais, dentro de uma determinada cultura e/ ou religião ditando hábitos alimentares, mitos e modelos a seguir.

Stress: o gatilho que pode originar perturbações alimentares

Os factores precipitantes que são aqueles que parecem desencadear o início da doença, tendo em conta os factores predisponentes da pessoa. É como se fosse a ‘última gota’ que leva ao ‘transbordar do copo’! Geralmente o ‘gatilho’ destas situações são situações de stress que levam a uma reacção por parte da pessoa, nestes casos dirigidos ao comportamento alimentar. São exemplos o bullying por se ser mais gordinho que poderá desencadear a atitude extrema de fazer uma dieta rigorosa que em conjunto com as características de personalidade, ambiente familiar e social levam à precipitação de um distúrbio do comportamento alimentar. Outras situações de stress podem actuar como factores precipitantes, como a mudança de casa, escola, trabalho, perda de alguém significativo, tensões familiares, traumas graves como acidentes, maus tratos ou abusos sexuais.

Muitas vezes, a falta de controlo associada a estes eventos pode ter como consequência a perda de peso. Esta, pode ser encarada como um efeito positivo, que leva a uma satisfação e à sensação de controlo em, pelo menos, na sua comida, forma física e perda de peso, despontando o sentimento positivo associado ao sucesso que acaba por perpetuar os comportamentos alimentares e assim se entrar numa espiral de sensação de controlo e consequente perda de peso acentuada. Se existe cedência à vontade de comer, é encarada como perda de controlo e fracasso, o que leva à adoção de distúrbios no comportamento alimentar.

Comida usada para aliviar ansiedade
refcal
Comida alivia ansiedade

Por outro lado, existem pessoas, que perante os mesmos eventos traumáticos podem, devido aos seus factores predisponentes agir da forma oposta, ou seja encontrar na comida forma de conforto, preenchimento e alívio da ansiedade. Daí ser tão importante que os indivíduos sejam vistos de forma individual e personalizada atendendo a todas estas características.

Por fim, os factores de perpetuação são aqueles que continuam presentes na vida da pessoa, podendo ser os mesmos que os precipitantes, como por exemplo a continuação do bullying, dos problemas familiares, financeiros, ou situações antigas que estão bloqueadas e por resolver que vão perpetuando o distúrbio alimentar como os traumas e abusos.

Há que considerar ainda a comorbidade com outras perturbações que influenciam directamente os transtornos alimentares, como os transtornos de humor, da ansiedade, os transtornos obsessivo compulsivos, transtornos da personalidade ou da dependência química.

Vários factores podem desencadear um distúrbio alimentar

Desta forma, podemos dizer que as causas dos problemas alimentares são numerosas e ocorrem de forma combinada, ou seja, não existe apenas um factor único para desencadear um distúrbio alimentar. Há que considerar as pré-condições para o desenvolvimento da doença (predisposição), os factores que desencadeiam o problema (precipitação) e os factores que a mantêm depois de se ter iniciado (perpetuação).

Se sente que o seu comportamento alimentar se alterou e que de certa forma se sente controlado ou descontrolado em relação à comida, procure ajuda, pois é uma doença que requer acompanhamento pois pode ter graves consequências biológicas assim como psicológicas e sociais.

A psicologia do comportamento alimentar com o Programa RAFCAL . Reabilitação Afeto Cognitiva do Comportamento Alimentar, atua especificamente nesta área.

Para mais informações contacte a Associação Semear Saúde através do número 281 320 902 ou através do email associacaosemearsaude@gmail.com.

(Artigo publicado na edição online do Caderno Semear Saúde)

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