O retrato de uma nação de fés no plural

O retrato de uma nação de fés no plural

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A OPINIÃO de BEJA SANTOS; Assessor do Instituto de Defesa do Consumidor; Consultor do POSTAL
A OPINIÃO de BEJA SANTOS;
Assessor do Instituto de Defesa do Consumidor;
Consultor do POSTAL

Uma das tendências dominantes do nosso tempo dá pelo nome de egonomia, a ilusão de ser único, inalienável e imprescritível. Daí este tumulto à volta da felicidade, a tonelada de livros sobre desenvolvimento pessoal e a atracção em conversarmos directamente com Deus, sermos seus profetas por conta própria. O fenómeno religioso revela-se pela mistura de espiritualidades, com abertura tolerante no diálogo religioso ou pelo fundamentalismo, atenda-se a esse narcisismo espiritual que dá pelo nome de New Age, autorredenção, a permanente era de Aquário em que buscamos amor. E não deixa de impressionar saber que é elevadíssimo o número de grupos identificados no mundo como terroristas que actuam por motivações religiosas. Sim, crer ou descrer em Deus, interpretá-lo por conta e risco, é moda permanente.

“Aleluia!”, por Bruno Vieira Amaral, Fundação Francisco Manuel dos Santos, é uma narrativa cativante e surpreendente do princípio ao fim, é uma viagem cheia de confissões aos ambientes neopentecostais, aquelas espiritualidades cristãs que os credos mais antigos e já instalados apodam os recém-chegados de seitas ou de proselitismo de intuitos empresariais e exploradores da credulidade. Gente de fé que assim se revela, como o autor escreve: “Esses desconhecidos estão perto de nós. Gente que se reúne em casas, em garagens, em lojas suburbanas, para adorar a Deus. Gente que canta e que bate palmas, que proclama alto e bom som o amor a Deus. Gente que, no final, vem para a rua a sorrir. Gente que conhecemos mal”.

aleluia
A capa do livro ‘Aleluia!’, de Bruno Vieira Amaral

A primeira igreja neopentecostal que Bruno Amaral analisa é a Igreja Universal do Reino de Deus, uma criação de Edir Macedo, que chegou a Portugal em finais de 1989. Quatro anos depois, a IURD comprou o cinema Império. No ano seguinte, iniciava-se o confronto aberto com os católicos: ataque a tradições, como o luto, as festas populares, o culto dos mortos, a mariolatria, os santos, os sacrifícios. Recorda o autor que durante a década de 1980 as igrejas protestantes tradicionais sofreram uma quebra, no recenseamento de 1991, 78% dos portugueses “identificavam-se” como católicos, enfim, vivia-se uma relativa continuidade encetada no Estado Novo. O abalo veio com a Igreja Maná e a IURD. No Porto, quando se falou na venda do Coliseu para igreja da IURD, houve fortes reacções. O filho do construtor do edifício disse que nunca o venderia a uma seita religiosa, houve protestos de Siza Vieira e Agustina Bessa-Luís. O autarca de Matosinhos, Narciso Miranda, prometia expulsar a IURD daquela localidade. É do maior relevo este episódio do Coliseu, a fé torna-nos fiéis em cruzada.

Os encontros e desencontros de pessoas com credos neopentecostais vão revelar inúmeras tensões quando os fiéis descobrem que a religião organizada está a matar a fé, aderem a um novo credo, acabam por encontrar enviesamentos no apostolado e na liderança, e então criam os seus ministérios, novas igrejas. É exemplar o percurso de Nuno Soares, licenciado em Engenharia Civil, frequentou o seminário teológico, em Queluz, o braço académico da Convenção Baptista Portuguesa, teve intensa formação teológica. Na juventude fez parte de um grupo de pessoas a ler a Bíblia em casa, o pequeno grupo transformou-se na Igreja Evangélica Baptista do Vale de Amoreira. “À medida que avançava no seminário, vieram as primeiras dúvidas. A esperança inicial de mudar as coisas por dentro foi esmorecendo (…) Percebeu que uma igreja assim, com uma estrutura venal, estava condenada. Não era a igreja que ele conhecia desde pequeno”.

As histórias cruzam-se, João aderiu à Igreja Maná, Bruno Amaral foi lá à rua de Santo Eloy, na Pontinha. “É nestes ambientes suburbanos, improváveis, que nascem igrejas como a de João, mesmo ao lado de uma oficina com a qual se confunde, à excepção de uma folha A4 colada na porta pintada de preto, onde se anuncia o horário dos cultos. Lá dentro, ao fundo, havia uma banca com livros sobre experiências pessoais de fé, cd de música evangélica a 3 euros”. O visitante está atento e acompanha os diferentes cerimoniais. “João está longe de ser o único a não querer que confundam o seu ministério com outros que consideram menos recomendáveis. Os sectores evangélicos tradicionais, representados pela Aliança Evangélica Portuguesa rejeitam a Igreja Maná e a IURD como membros da família. As neopentecostais são os párias do meio protestante. Se, no início a igreja de Jorge ainda procurou o certificado de respeitabilidade, além do carimbo de igreja evangélica, que só a aliança pode conferir, o crescimento e o sucesso da igreja, bem como a guinada na direcção da teologia da prosperidade, parecem tê-la afastado definitivamente desse encontro. João desconhece o caminho que irá tomar. Comunidades como a dele são vistas com desconfiança pelos mais conservadores que, por considerarem que a igreja é de Cristo, entendem como uma aberração antibíblica uma igreja com o nome do fundador”.

Agora uma deambulação à Igreja Fonte da Vida, no Barreiro, num ambiente de presença próxima com a Igreja da Assembleia de Deus e a Igreja Metodista Wesleyana e a Igreja Evangélica Baptista. Numa transversal, funciona a Igreja Adventista do Sétimo Dia, um pouco mais adiante o Salão do Reino das Testemunhas de Jeová. Novo encontro com uma nova igreja. “Encontrei-me com Tiago na comunidade que agora dirige, a Igreja Evangélica Baptista da Lapa. Actualmente a igreja tem 51 membros e, aos domingos, os cultos recebem entre 80 e 90 pessoas, muitas vindas de igrejas neopentecostais, num movimento contracorrente”. Tiago conduz o autor numa visita guiada. O autor apresenta-o como um intelectual irreverente, provocador, avesso ou politicamente correto. É confrontado com outros evangélicos e outras histórias.

O autor tem justeza na observação quando diz que a sua incursão é a um mundo que conhecemos mal ou passamos à porta dele com manifesta indiferença. O que esta narrativa desvela, em tom pessoalíssimo é mesmo uma nação de fés no plural, um guia que interroga as complexas espiritualidades do nosso tempo, onde é fácil ser Messias ou mestre de teologia. Numa sociedade que mercadeja heróis efémeros, é por de mais compreensível que a espiritualidade nos bata à porta quanto mais são os pontos de interrogação que se erguem entre o presente e o futuro.