Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie

Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie

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Adriana Nogueira Classicista; Professora da Univ. do Algarve adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com
Adriana Nogueira
Classicista;
Professora da Univ. do Algarve
adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com

Li recentemente um livro que me surpreendeu. Recomendado por uma amiga, venci a inércia que as suas 712 páginas me tinham inicialmente imposto e em boa hora o fiz: refiro-me a Americanah, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (nascida em 1977).

De que trata o livro?

«Porque é que as pessoas perguntavam “Sobre que é?” como se um romance tivesse de ser só sobre uma coisa?» (p.291).

Este livro é assim mesmo, sobre muita coisa. A mim, o tema que mais me tocou foi a questão da cor da pele, como pano de fundo, associada à emigração: assuntos como racismo, uso de palavras como preto ou negro; a integração numa sociedade nova; o retorno ao país de origem.

O romance começa com uma mulher nigeriana, Ifemelu, que vive na América e vai a uma cabeleira especializada em cabelos africanos, para entrançar o cabelo. Prepara-se para voltar à Nigéria, depois de 13 anos (e já com nacionalidade americana) nos EUA. Logo nas primeiras páginas resume-se o que se vai passar no final (a partir da p.575) «Tu vais fechar o teu blogue e vender o teu apartamento para voltar para Lagos e trabalhar para uma revista que não paga assim tão bem como isso – tinha dito a tia Uju, e voltara a repetir, como se para fazer Ifemelu ver a gravidade da sua asneira. Só a sua velha amiga em Lagos, Ranyinudo, fizera o seu regresso parecer normal. “Lagos está agora cheia de retornados americanos, por isso é melhor tu voltares e juntares-te a eles. Todos os dias se vêem muitos deles com uma garrafa de água na mão, como se morressem de calor se não bebessem água a toda a hora”» (p.28)

O blogue de uma Negra Não Americana
Chimamanda Ngozi Adichie
Livro de Chimamanda Ngozi Adichie faz reflectir sobre o racismo

Alguns dos passos mais interessantes do livro são aqueles que citam o blogue de Ifemelu, salpicados ao longo desta obra. São momentos de reflexão numa linguagem descontraída, normalmente com humor, mas, nem por isso, menos séria. Ifemelu mantém-se anónima, para ter mais liberdade e «representar» mais povos que não apenas o seu, assinando os textos como Negra Não Americana. As entradas do blogue são extensas, porém, vou tentar deixar aqui alguns excertos: «Caros Negros Não Americanos, quando optam por vir para a América, tornam-se negros. Deixem de argumentar. Deixem de dizer «Sou jamaicano» ou «Sou do Gana». A América não quer saber. Que interessa que não fossem “negros” no vosso país? Agora estão na América. Todos nós temos o nosso momento de iniciação à Sociedade de Ex-Negros. A minha foi numa aula na faculdade, quando me pediram que apresentasse a perspectiva de uma negra, só que eu não fazia ideia do que isso fosse. Por isso, inventei qualquer coisa. […] Quando é noticiado um crime, rezem para que não tenha sido cometido por um negro e, se tiver sido cometido por um negro, mantenham-se longe do local do crime durante semanas ou correrão o risco de serem mandados parar por corresponderem ao perfil do criminoso» (pp.337-339).

«Um Agradecimento a Michelle Obama e o Cabelo como Metáfora da Raça»
americanah
Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie

Este livro fez-me olhar para mim e ver quão longe eu estava de situações tão básicas que se passarão também aqui, ao nosso lado, e que eu nem sabia que poderiam ser um problema: o modo de apresentar o cabelo. Para conseguir um emprego, aconselharam Ifemelu a alisar o cabelo. Ao fim de um tempo, decidiu mantê-lo natural. «Na cafetaria, Miss Margaret, a afro-americana de peito grande que presidia ao balcão – e que, para além de dois seguranças, era a única outra negra da empresa […]. Alguns anos depois, no dia em que Ifemelu se demitiu, foi à cafetaria para um último almoço. – Vai-se embora? – perguntou Miss Margaret, abatida. – Lamento, minha jóia. Eles precisam de tratar melhor as pessoas cá. Acha que o seu cabelo foi parte do problema?» (pp. 324-5). No blogue, escreve uma entrada com o título em epígrafe: «Uma amiga branca e eu somos fãs da Michelle Obama. Então, no outro dia, eu digo-lhe: “Pergunto-me se a Michelle Obama tem extensões, o cabelo dela parece ter mais volume e aquele calor do secador todos os dias deve estragá-lo.” E ela diz-me: “Queres dizer que o cabelo dela não cresce assim?” Então, serei só eu a achar ou não será isso a perfeita metáfora da raça na América, ali mesmo? O cabelo. Já alguma vez repararam, naqueles programas de transformação do aspecto de uma pessoa, em como uma mulher negra aparece com cabelo natural (áspero, encrespado, com quebras ou encaracolado) na imagem feia “antes” e na bonita fotografia “depois” alguém lhe foi com um metal em brasa e lhe chamuscou o cabelo até lho alisar? […] Quando se tem de facto o cabelo natural de negra, as pessoas pensam que se “fez” alguma coisa ao cabelo. Na realidade, as pessoas com penteados afro e com rastas são as que não “fizeram” nada ao cabelo» (pp.450-451).

Preto ou negro e o privilégio branco
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A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie

Quando Ifemelu fala aos pais do namorado americano, dá-se esta conversa: «– Um preto americano? – perguntou o seu pai, soando perplexo. Ifemelu desatou a rir. – Papá, já ninguém diz preto. – Mas porquê um preto? Há uma escassez substancial de nigerianos aí?» (p. 476).

A questão da raça colocou-se apenas porque, na América, ser negro é estar no fim de tudo: de uma escala social e, supostamente económica (mesmo quando não é verdade). Associada, está a questão do privilégio. Como se diz numa das entradas no blogue, «É uma Chatice Ser Pobre e Branco, Mas Experimentem Lá Ser Pobre e Não Branco» (p. 523).

Tratar, em menos de 7000 caracteres as mais de 700 páginas do livro é muito difícil. De fora ficaram temas tão profundos, e com os quais também tive de lidar e perceber os meus preconceitos, como a exploração dos emigrantes ilegais em Inglaterra (nos capítulos dedicados à experiência de Obinze naquele país), a aculturação, a resistência a isso (como a recusa de Ifemelu em aderir à pronúncia americana), ou o choque do regresso a casa. E também ficou de fora a vida na Nigéria, antes e depois da guerra e das ditaduras, assim como a história amorosa dos protagonistas, Ifemelu e Obinze. Um livro que pôs a nu a minha ignorância. A ler mais desta autora, sem dúvida.

(Artigo publicado na edição papel do Caderno de Artes Cultura.Sul de Outubro)