Leitura da semana: Os meus amigos, de Emmanuel Bove

Leitura da semana: Os meus amigos, de Emmanuel Bove

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A rubrica Leitura da Semana é publicada semanalmente à terça-feira; Paulo Serra é doutorado em Literatura na Universidade do Algarve e investigador do CLEPUL
A rubrica Leitura da Semana é publicada semanalmente à terça-feira;
Paulo Serra é doutorado em Literatura na Universidade do Algarve e investigador do CLEPUL

Publicado agora pela Livros Cotovia, este livro originalmente publicado em 1924  foi um êxito e fez com que o escritor então com 26 anos fosse comparado a Proust e a Dostoiveski, e aclamado por vários outros escritores, talvez por narrar com um lirismo e uma atenção ao pormenor próprios de Proust, mas sem a desenvoltura das suas longas frases sinfónicas, as desgraças da vida abaixo da aristocracia, dos de «condição miserável» (p. 168). Emmanuel Bove nasceu em Paris em 1898 e escreveu duas dezenas de obras até vir a falecer em 1945.

O livro tem um título enganoso, pois na verdade este inquilino de um prédio em Montrouge parece ter muito poucos amigos e os seus vizinhos mal o olham de frente, uma vez que a solidão, a tristeza e a pobreza nunca são grandes atractivos: «A solidão pesa-me. Gostava de ter um amigo, um verdadeiro amigo, ou então uma amante a quem confiasse as minhas penas.» (p. 35).

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O escritor Emmanuel Bove, autor do livro ‘Os meus amigos’

Esta é a história do quotidiano de Victor Bâton, narrada a partir da perspectiva muitas vezes iludida desse pobre coitado, hipocondríaco, inseguro, medroso e solitário («Sou demasiado sensível, pronto. (p. 46)», que circula pelo seu bairro, enquanto oferece um retrato prosaico dos vizinhos e dos lojistas, sempre num tom desencantado, de alguém que se sabe rejeitado pela sociedade e que em sua defesa pode apenas propalar que «tinha feito a guerra, que era um ferido grave, que tinha uma condecoração militar, que recebia uma pensão» (p. 24).

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A capa do livro proposto por Paulo Serra

Conta os dias de solidão e de pobreza de uma pobre alma que combateu e foi ferido na Primeira Guerra e que agora vagabundeia pela cidade de Paris, pelas margens do Sena, nas estações de comboio, à procura da amizade e do amor: «Quando saio de casa, conto sempre com um acontecimento que revolucione a minha vida. Fico à espera dele até voltar. É por isso que nunca fico no quarto.» (p. 108). Victor Bâton não tem pejo em fingir que chora, «a fazer comédia» (p. 94), para que melhor sintam pena dele, se bem que a maioria das pessoas que se cruzam consigo parecem ser tão ou mais miseráveis do que ele: «Como não conheço ninguém, tento atrair as atenções na rua, pois só aí poderão reparar em mim.» (p. 93).