O que os ímpetos dizem de nós

O que os ímpetos dizem de nós

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A OPINIÃO de ANA AMORIM DIAS Escritora www.anaamorimdias.blogspot.com anamorimdias@gmail.com
A OPINIÃO de ANA AMORIM DIAS
Escritora
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anamorimdias@gmail.com

Passeava com eles pelas ruas da lindíssima Deià, uma das terras mais encantadoras da ilha de Maiorca, quando um qualquer estranho ímpeto me assolou.

– Meninos, venham cá, sentem-se aqui comigo. Ricardo, tiras-nos esta fotografia, por favor?

Enquanto pousava com eles, um lampejo de memória fez-me recordar uma fotografia semelhante, tirada há muitos anos, também no chão de uma qualquer ruela inclinada da ilha.

“Será que foi aqui?” perguntei-me em silêncio. “Não, que parvoíce, era muita coincidência…”, divaguei sem partilhar as minhas suspeitas aos três matulões que não costumam ser poupados nos gozos com que me brindam.

Ontem, decidida a apaziguar a curiosidade, dediquei-me a procurar a fotografia que bailava na minha memória com uma persistência que só podia estar a chamar-me. Depois de quarenta minutos de insistente busca, lá encontrei a pasta certa, reconditamente escondida dentro de pastas e pastinhas de um disco externo quase esquecido. Exultei, claro, que sou pessoa de exultar com detalhes saborosos.

Embora com uma distância temporal de quase doze anos, a nossa posição espacial apenas não coincidia por estarmos dois escassos metros acima, na mesma ruela inclinada.

Depois de devidamente comparadas as imagens e constatada a irrefutável coincidência, saltitei pela casa, mostrando aos meus três anjos o delicioso achado… e fiquei a pensar: não costumo tirar fotografias sentada no meio da rua, na verdade não me recordo de ter mais. Então porquê este impulso, tão separado no tempo, a repetir-se no mesmo sítio preciso? O que será que nos leva, sem que sequer percebamos, a fazer coisas obedecendo a uma vontade mais profunda, acatando um ímpeto que nos vem bem lá do fundo da alma e nos deixa tão felizes? Talvez isto seja como aqueles sorrisos olhos nos olhos que abraçam a alma de quem não conhecemos, ou como um inesperado mergulho no mar que tem que ser dado em cuecas, ou como o instinto de abraçar uma árvore, acariciar um animal, tomar banho numa nascente ou dançar ao luar. Talvez o grau de êxtase que a obediência aos estranhos ímpetos nos confere seja apenas um atestado do universo tratando de nos provar que estamos ligados a algo muito mais grandioso do que a nossa vista e normais sentidos alcançam…

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