Práticas de animação teatral no património museológico

Práticas de animação teatral no património museológico

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Mario Rui Filipe
Mário Rui Filipe – Professor e director do Curso Profissional de Artes do Espectáculo da Escola da Bemposta – Portimão

A prática da animação teatral e performativa no Museu de Portimão insere-se num plano contínuo de trabalho que põe em relevo questões como a identidade local, a representação fictícia de um passado pré-histórico, criando com isso imagens na memória colectiva do público, traçando um imaginário que nos aproxima dessa era. No fundo, a animação teatral que os alunos do Curso Profissional de Artes do Espectáculo da Escola da Bemposta em Portimão fazem, é sobretudo, de rigor na sua performance, pois têm objectivos essenciais como: foco no público; trabalhar a presença em cena; utilizar o corpo como ferramenta de atenção e memória; comunicar com o público, seja por palavras, gestos, provocação, riso.

Desde há três anos que colaboramos activamente com o Museu de Portimão em vários eventos ao longo do ano, sobretudo no Dia da Pré-História, em Alcalar; nas Noites do Museu, quando se comemora o aniversário do Museu de Portimão e nas apresentações da Maratona Fotográfica, entre outras colaborações. Além do Teatro, alunos de Música Clássica e Jazz da mesma escola têm participado. O que é interessante revelar é como esta parceria tem feito crescer ambos os lados desta ponte. Nós, pois além de podermos fora da escola exercitar todas as técnicas, dá-nos visibilidade institucional, bem como aos actores que nela participam, que podem dar largas à sua criatividade e intuição sensível perante o público. Além de que um espaço como o Museu de Portimão, sendo um edifício de múltiplos cenários, permite em cada um deles realizar um trabalho de “Site Specific” deveras interessante. Em Alcalar, todo aquele imenso espaço aberto ao ar livre, permite outras valências criativas, como a exploração de imagens em grande formato, utilizando o corpo, os gestos e os objectos como matérias palpáveis dessa visibilidade. Além disso, os rituais xamãnicos da morte, trazem surpresa e uma atenção que aproxima o público dos actores. Sendo um espaço na paisagem, a voz, o eco e todas as sensações sonoras, como tocar um instrumento, aumentam essa percepção de envolvimento total naquele espaço, o que cria uma verdade perante a ficção histórica que estamos a assistir.

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O Xamã de Alcalar

O teatro tem este poder de congregar uma visibilidade nos locais onde decorre o espectáculo, a animação, a performance. A arte tem sempre este poder de dar a conhecer e mostrar, de um modo ficcionado e por vezes catártico, não só uma história, mas sobretudo os locais, o que faz com que esse local produza novas linguagens na memória do espectador. Quantas vezes não acontece alguém ir ver um espectáculo, por exemplo numa igreja ou num museu e depois ter vontade de lá regressar, noutro contexto, para desbravar outras imagens e memórias que lhe foram dadas de um modo diferente por esse espectáculo. Portanto, tenho sempre presente esta ideia de que o teatro pode efectivamente congregar e reunir pessoas numa comunhão de afectos e sensibilidades, de memórias e de histórias, proporcionadas pelos actores e pelas estórias que os mesmos recriam. Considero que os Museus e todos os espaços patrimoniais têm muito a ganhar com cada vez mais colocarem as artes de palco no meio deles. Porque traz novas pessoas, porque as sensibiliza para descobrirem novos detalhes de um espaço ínfimo no Museu, na Igreja, nas ruínas. Ou seja, os Museus e todo o património edificado são potenciais cenários para a criação de mundos ficcionais. E enquanto os cidadãos não tomarem em conta a importância da arte e das ficções para as nossas vidas, não se produzirá a necessária mudança de mentalidades, de gestos e atitudes perante a realidade. Porque a arte ajuda a sensibilizar, a respeitar as diferenças, a redescobrir o outro e a si próprio, confrontando-o com os seus ideias e utopias, permitindo criar novos mundos, porventura mais justos, mais criativos e apaixonantes. A vida não pode ser apenas economia e finanças. São-nos úteis, mas o que nos completa como seres sociais e culturais é a arte, a verdadeira arte que desperta sentidos e emoções escondidas no âmago da nossa alma.

(Artigo publicado na edição papel do Caderno de Artes Cultura.Sul de Outubro)

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