2018 – Ano Europeu do Património Cultural: algumas reflexões

2018 – Ano Europeu do Património Cultural: algumas reflexões

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A OPINIÃO de Jorge Queiroz Sociólogo e membro da Direção da AGECAL
A OPINIÃO de Jorge Queiroz
Sociólogo e membro da Direção da AGECAL

Por Decisão 2017/864 de 17 de maio do Parlamento Europeu e do Conselho, o próximo ano foi designado como Ano Europeu do Património Cultural – AEPC.

É uma importante iniciativa pedagógica e uma oportunidade para os gestores culturais. Não podemos esquecer que a história da Europa foi, até 1945, um contínuo de confrontações entre impérios, conquistas de territórios e pilhagens que causaram milhões de mortos e enormes destruições.

No ano de 2018 serão assinalados o 400.º aniversário do início da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) e o 100.º aniversário do fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

A Guerra dos Trinta Anos travada no século XVII entre diversas nações atingiu especialmente a Alemanha. Foi causada por lutas religiosas, rivalidades entre católicos e protestantes, disputas territoriais e hostilidade contra os Habsburgo, também por razões comerciais. A guerra causou enormes perdas, económicas e humanas, terminando com a “Paz de Vestefália”, o mapa da Europa fragmentado e redesenhado. A Alemanha devastada perdeu metade da população só vindo a recuperar no século XIX.

Três séculos depois a 1ª Guerra Mundial envolveu as potências imperiais da Europa que se organizaram em alianças antagónicas, Reino Unido, França e Império Russo e do lado oposto o Império Alemão, Austro-húngaro e Reino da Itália. Um novo mapa da Europa ressurge, tendo desaparecido o Imperio Alemão, o Austro-húngaro, o Otomano e o Russo e também as dinastias históricas. Registam-se oito milhões de soldados mortos e sete milhões de incapacitados, a Alemanha perdeu 15,1% da sua população masculina, a Áustria-Hungria 17,1% e a França 10,5%.

Portugal entrou na 1ª Guerra Mundial ao lado dos “aliados” sobretudo pela necessidade de defesa das suas colónias em África.

Após décadas de paz e progresso resultantes da construção da CEE e da União Europeia vivemos um ambiente preocupante. A emergência de nacionalismos e o descrédito no projecto europeu resulta de gravíssimos erros causados pela penetração da ideologia neoliberal nas estruturas dirigentes da UE logo após a queda do muro de Berlim, do abandono dos princípios de cooperação e solidariedade entre as nações e da supremacia do sector financeiro sobre os valores da coesão.

Porquê o Ano Europeu do Património Cultural?

Obviamente é uma decisão política orientada pelo desejo de aproximar as nações europeias sublinhando o que lhes é comum. Contudo, a economia e a fiscalidade não podem desmentir a cultura, as políticas na UE têm de ser coerentes e não contraditórias.

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Após décadas de paz e progresso a Europa vive um ambiente preocupante

Em qualquer projecto a aceitação e sucesso partem de premissas correctas. Não existe “cultura europeia” mas uma diversidade de culturas com influências que transcendem a UE e o próprio continente, mediterrânicas, anglo-saxónicas, eslavas, árabes, formas de estar, religiões, idiomas, práticas culturais e artísticas saudavelmente diferentes.

Como compreender a cultura portuguesa sem a herança do al Andalus ou das viagens?

Em nossa opinião, o AEPC deve centrar-se na riqueza da diversidade cultural das nações que partilham o projecto europeu, no conhecimento das mesmas e respeito pelas diferenças, mas sobretudo na abertura a outros espaços geoculturais.

De acordo com os promotores, os objetivos gerais do AEPC consistem “em incentivar e apoiar os esforços da União, dos Estados-Membros e das autoridades regionais e locais para, em cooperação com o setor do património cultural e da sociedade civil em geral, proteger, salvaguardar, reutilizar, valorizar e promover o património cultural da Europa… a apreciação do património cultural da Europa enquanto recurso partilhado, sensibilizar para a história e os valores comuns e reforçar o sentimento de pertença a um espaço europeu comum”.

É meritório mas ainda autocentrado, aquém das necessidades de presença no mundo de uma UE defensora de valores humanistas, na linha da frente pelos direitos humanos e na regulação da globalização. Uma UE verdadeiramente comprometida com a paz, o ambiente e o desenvolvimento humano. Só assim fará sentido o projecto europeu.

(Artigo publicado na edição papel do Caderno Cultura.Sul de Novembro)

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