Leitura da semana: O assassinato de Margaret Thatcher, de Hilary Mantel

Leitura da semana: O assassinato de Margaret Thatcher, de Hilary Mantel

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A rubrica Leitura da Semana é publicada semanalmente à terça-feira; Paulo Serra é doutorado em Literatura na Universidade do Algarve e investigador do CLEPUL
A rubrica Leitura da Semana é publicada semanalmente à terça-feira;
Paulo Serra é doutorado em Literatura na Universidade do Algarve e investigador do CLEPUL

Uma colectânea de onze contos – transgressores, subversivos, por vezes desconcertantes –, de Hilary Mantel, autora inglesa, com catorze livros publicados, duas vezes premiada com o Man Booker Prize pelas obras Wolf Hall (adaptada a mini-série televisiva) e O Livro Negro, que formam parte de uma trilogia centrada no reinado de Henrique VIII.

Em «Desculpe incomodar» encontramos um relato estranhamente intimista num apartamento claustrofóbico na Arábia Saudita, como que simbolizando o próprio ambiente reclusivo que as mulheres vivem nesse país, sejam elas locais ou as esposas que acompanham os seus maridos em missão. Há seis meses que a protagonista vive na Arábia Saudita com o marido, enquanto tenta escrever e sobreviver às suas dores de cabeça, quando faz uma amizade improvável com um vendedor.

No conto «Férias de Inverno», uma viagem de férias por uma estrada de montanha tem um desfecho trágico enquanto um casal no banco traseiro do táxi parece considerar se é melhor ter filhos ou investir em férias.

hilary-mantel
A escritora Hilary Mantel, autoria do livro ‘O assassinato de Margaret Thatcher’

«O assassinato de Margaret Thatcher: 6 de Agosto de 1983» é o último conto da colectânea que confere o título ao livro e aparentemente um conto original nunca antes publicado, enquanto que outros nove dos onze contos foram anteriormente publicados em revistas ou colectâneas de vários autores. Com a ambiguidade que tantas vezes perpassa nas outras histórias, temos uma senhora que mora numa rua silenciosa e tranquila, sombreada por grandes árvores antigas, de grandes casas vitorianas ou georgianas, e que espera o homem que vai arranjar a caldeira mas depara-se com o que julga ser um fotógrafo pois ele entra-lhe pela casa afirmando que precisa de um bom plano da primeira-ministra que está prestes a sair do hospital onde fez uma cirurgia ocular. O diálogo que se segue, e onde não podia faltar a preparação de uma chávena de chá oferecida ao visitante/intruso, é deliciosamente ambíguo, pois o leitor apercebe-se entretanto que a vista desimpedida que o homem pretende é para poder atirar sobre Margaret Thatcher, o que não ofende particularmente a sensibilidade da dona da casa…

capa Margaret Thatcher
A capa do livro proposto por Paulo Serra

Transversal a todos os contos destaca-se ainda a mordacidade narrativa como, por exemplo, na passagem: «Mesmo que nunca tenham passado por Harley Street, já devem ter criado uma imagem na vossa mente: (…) no geral, um ambiente que sugere que, se tivermos uma doença terminal, pelo menos partimos em grande estilo.» (p. 80)