Na Ágora: uma nova idiossincrasia

Na Ágora: uma nova idiossincrasia

1106
PARTILHE
Adriana Nogueira Classicista; Professora da Univ. do Algarve adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com
Adriana Nogueira
Classicista;
Professora da Univ. do Algarve
adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com

A página que se começou por chamar Livros.S e, depois, Da Minha Biblioteca faz agora uma pausa.

Ao longo de pouco mais de sete anos escrevi 85 artigos de promoção de leitura. A inten­ção era partilhar o modo como lia e interpretava alguns livros que, em diversas fases da minha vida, me tinham interessado por diferentes razões. Foi um desafio que me deu muito prazer e que, espero, também tenha sido do agrado dos leitores.

Porém, ao atingir os sete anos, pensei que era altura de mudar. Tendo o editor do Cultura.Sul aceitado esta minha vontade e, generosamente, mostrado in­teresse em que eu continuasse a escrever aqui, propus-lhe o seguinte: uma página menos espartilhada na temática, onde pudesse registar algumas refle­xões sobre o fascinante mundo da antiguidade greco-latina, sempre em contacto íntimo com este mundo, onde vivemos. Por­que não estão nada, nada longe. Lembro-me muitas vezes da frase que George Santyana escreveu, em 1905: «Those who cannot remember the past are con­demned to repeat it» (The Life of Reason, I. 12), isto é, «Aqueles que não conseguem lembrar-se do passado estão condenados a repeti-lo».

Mas esta não será uma pági­na passadista. Será uma página que reconhece que no passado há muito para aprender sobre o presente. Ou que entenderemos melhor o presente se reconhe­cermos o passado.

O título
cartas-a-lucilio
Um ex­celente presente de Saturnal
- Pub -

Houve, depois, que decidir o nome a dar a esta nova pági­na. Muitas foram as ideias que tive, mas a que mais se aproxi­mou da noção de espaço aber­to, onde se cruza muita gente, de muitas culturas, onde se fa­zem novas amizade, onde os conhecidos se encontram, foi Na Ágora.

A ágora era a praça central das cidades gregas. Era aí que a vida coletiva palpitava. Era aí que os cidadãos se reuniam, cumpriam com os seus deve­res religiosos (os templos iam sendo erguidos nas suas proxi­midades), faziam compras no mercado, debatiam informal­mente os assuntos do governo, que a todos dizia respeito. Em grego, cidade diz-se pólis (que já faz parte do nosso vocabulá­rio e escreve-se assim mesmo), de onde vem o adjetivo politi­kós, que deu o nosso «político», que significava o que dizia res­peito aos cidadãos.

Apesar de haver outros es­paços para mercadejar, esta praça pública, por ser um lu­gar de passagem e com muita atividade, era o preferido dos negociantes. Conta-se, mesmo, que Sócrates, de quem Platão foi discípulo, ao passar pela ágora, «quando reparava na quantida­de de coisas que havia à venda, dizia para si próprio: “De quan­tas coisas eu não tenho necessi­dade!”. E recitava continuamen­te estes versos: “As travessas de prata e as roupas de púrpura/ são úteis para os atores trágicos, não para a vida.”» (tradução mi­nha de Diógenes Laércio, autor grego do séc. III d.C., conhecido por ter escrito Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres).

AGORA - foto
Fórum da cidade de Pompeios, com o Vesúvio ao fundo (Itália)

Sócrates insurgia-se contra o consumismo, o acumular de bens desnecessários para a vida. Conta-se também (podemos ler no mesmo Diógenes Laércio) que, quando Alcibíades lhe deu um terreno muito grande para que construísse uma casa, recu­sou, por achar um desperdício, dando o seguinte exemplo: «Se me fizessem falta umas sandá­lias e, para que eu fizesse as di­tas sandálias, me desses uma pele inteira, também seria ri­dículo se aceitasse».

No mundo romano havia também um espaço equiva­lente à ágora, que era o fó­rum (em latim apenas não ti­nha acento). Também ele era o centro da vida das cidades: desde as atividades mais sole­nes (como as religiosas), pas­sando pelas civis (relacionadas com a política), e as mais corri­queiras e mundanas, como os mercados e os divertimentos.

Uma curiosidade etimoló­gica: o adjetivo latino civilis é da mesma família de civis, o substantivo que quer dizer «cidadão». Portanto, politikós e civilis queriam dizer a mesma coisa. Nos dicionários de por­tuguês, a primeira aceção de político é «relativo à política ou aos negócios públicos», en­quanto civil diz que é «relativo ao cidadão». Terão os cidadãos passado a envolverem-se me­nos nos negócios de Estado e a achar que políticos são apenas uns tantos profissionais?

Dezembro
AGORA - foto - agora de Atenas vista da Acropole
Ágora de Atenas vista da Acrópole (Grécia)

«Estamos em Dezembro: a cidade está coberta de suor! A ostentação desregrada in­vadiu toda a vida colectiva. Fazem-se estrepitosamentre enormes preparativos, como se existisse alguma diferença entre o período das Saturnais e os dias úteis. O facto é que não há qualquer diferença, e por isso mesmo acho que tem toda a razão quem afirma que se Dezembro em tempos foi um mês, agora é um ano in­teiro».

Como as aspas o denunciam, o texto não é meu. Nem é de agora. Tem quase 2000 anos.

O seu autor, Séneca, nasceu aqui perto, em Córdova, pou­cos anos antes de Cristo. Foi vi­ver para Roma, onde morreu, no ano 65 d.C. Tutor e poste­riormente conselheiro de Nero, foi por este forçado a cometer suicídio, por suspeita de par­ticipação numa conspiração contra a vida do imperador.

Entre a sua variada obra, encontram-se estas Cartas a Lucílio (de que já aqui falei), es­critas nos últimos anos da sua vida. A transparente tradução que citei é da autoria de José António Segurado e Campos, professor catedrático jubilado de Literatura Latina (da Uni­versidade de Lisboa), de quem tive o privilégio de ter sido alu­na, e diz respeito à Carta 18. A edição é da Gulbenkian e o preço muito acessível. Segu­rado e Campos, numa nota à Carta 12, explica: «Por ocasião das Saturnais (Saturnalia), an­tigas festas do calendário ro­mano celebradas por volta de 17 de Dezembro de cada ano em honra de Saturno, era cos­tume haver troca de presentes entre amigos, e mesmo, como é aqui o caso, entre senhores e escravos».

Não querendo promover o consumismo (que Sócra­tes me perdoe!), será um ex­celente presente de Saturnal. Ou de Natal.

(Artigo publicado na edição papel do Caderno Cultura.Sul de Dezembro)

Facebook Comments

Comentários no Facebook