Para uma dinâmica turística assente na herança e inovação

Para uma dinâmica turística assente na herança e inovação

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A OPINIÃO de MARIA LUÍSA FRANCISCO Investigadora na área da Sociologia luisa.algarve@gmail.com
A OPINIÃO de MARIA LUÍSA FRANCISCO
Investigadora na área da Sociologia
luisa.algarve@gmail.com

A preservação da memória e das tra­dições dos antepassados formam um legado que pesa na construção social da herança cultural e da memória co­lectiva. Essa redescoberta da memória, da tradição e da identidade, tem uma autenticidade que facilita a criação de atractivos turísticos. Permitir a expe­riência turística, desde que de forma sustentável, valorizando a paisagem, as populações idosas e os seus saberes, reavivando imaginários, pode ser uma mais-valia para todas as partes: para quem visita e para quem é visitado.

Os espaços rurais podem permitir a experiência turística sustentável com ac­tividades que vão ao encontro de uma imagem idílica do rural, que creio ainda existir no mais remoto Algarve interior.

Segundo a Convenção Europeia da Paisagem, assinada por Portugal e pelos restantes membros do Conselho da Eu­ropa, em Outubro de 2000, a paisagem desempenha importantes funções de interesse público no âmbito cultural, ecológico, ambiental e social e consti­tui claramente um recurso favorável à actividade económica. Ainda segundo a mesma Convenção, o património do mundo rural deve ser entendido e uti­lizado, tendo em conta todas as suas componentes (paisagem, edifícios, téc­nicas, instrumentos, saberes-fazer e o próprio homem rural), como um factor de desenvolvimento.

O turista que valoriza o turismo de experiências, venha ele para o Algarve ou para qualquer outra região do país, certamente procura a hospitalidade, a dimensão estética, algum entrete­nimento e a vivência diferenciada. Na procura dessa vivência o turista quer cada vez mais a experiência em que não seja apenas um espectador passivo na sua viagem, mas que seja um actor que participa e vive momentos únicos e que possa contar o que experienciou.

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Alguns exemplos de actividades que permitem fruir o espaço através da vivência de novas experiências são: o amassar o pão, colocá-lo no forno, no final degustá-lo ainda quente jun­tamente com os produtos da região, como os enchidos, o presunto, o queijo, o mel e as azeitonas. As visitas às ade­gas, destilarias, melarias, lagares, a par da participação em actividades como a apanha do medronho, da azeitona ou da alfarroba.

Estas são experiências que permitem um contacto com modos de vida ances­trais e que valorizam a milenar cultu­ra mediterrânica. Será a fruição desses saberes e sabores, enquanto parte do património imaterial, que enriquece a experiência turística.

Daí a referência à experiência turís­tica sustentável, em que exista uma redescoberta e interpretação do terri­tório rural, com alternativas para o de­senvolvimento dos territórios rurais. Em que os recursos sejam valorizados e que possam permitir que a pouca popula­ção existente se mantenha nos locais de origem e obtenha alguma rentabilida­de na manutenção das suas tradições, e que também lhe permita manter um equilíbrio na sua relação com o passa­do, o presente e o futuro.

Inovação e criatividade
MARCA D'AGUA foto
Destilaria do Sr. Valério em Monchique foi visitada pela cantora Bonnie Tyler

O Algarve tem uma excelente oferta turística de natureza e de experiências com actividades muito variadas, tais como caminhadas, passeios a cavalo e de burro, passeios de observação de aves, de borboletas e libelinhas, obser­vação de árvores (no Algarve existem algumas árvores centenárias), observa­ção de plantas, como por exemplo de orquídeas selvagens (há uma agência inglesa que traz grupos ao Algarve para ver orquídeas).

Principalmente na serra existem mui­tos turismos rurais e empresas a ter su­cesso com estas atividades.

Através destas e de mais ideias inova­doras, vai-se reinventando os recursos existentes de forma a criar novos produ­tos, novas ofertas turísticas. Num sector de grande competitividade como este, as empresas devem implementar for­mas de colaboração no sentido de par­tilharem experiências, porque a maioria das actividades são complementares.

Não basta limitar-se a oferecer o que a natureza e história dão, é necessário trabalhar no sentido de criar produtos inovadores e dinâmicos, ofertas de valor acrescentado, onde a participação e a experiência devem ser as componentes mais valorizadas.

Ao ter criado em 2013 uma start-up de eventos (particularmente na nature­za e em espaço rural) e de serviços (mais direcionados para autarquias) aprendi a valorizar ainda mais as potencialidades do meio rural e a criar novos produtos com base no conhecimento desse meio.

Ao longo deste tempo tenho conhe­cido outros empreendedores, com os quais há bom entendimento e alguma troca de experiências e parcerias. Há iniciativas pouco conhecidas, mas ori­ginais e criativas, onde as artes e ofícios são valorizados, tal como tardes em que os turistas portugueses vão ouvir tradi­ções, lendas, mezinhas. Tardes com o ferreiro, o ferrador, o artesão, o latoeiro, o sapateiro. São actividades que não exi­gem muitos recursos e que transmitem o valor da memória, da aprendizagem e da capacidade criadora.

De referir também Loulé Criativo Tu­rismo enquanto oferta organizada que permite à “nova geração do turismo” participar activamente na cultura, tradi­ções e modo de vida dos residentes, em interacção com as gentes e o carácter singular do destino turístico, conforme referido no site do município.

A dinâmica dos estrangeiros residentes
MARCA D'AGUA foto
Turismo criativo em que através de matérias como a empreita se inova com oferta de novos produtos

É do conhecimento geral que a cul­tura e o património configuram impor­tantes âncoras de atracção de turistas, visitantes e novos residentes. Ao mes­mo tempo, permitem a requalificação de lugares e a melhoria das condições de vida das populações, principalmen­te em zonas de baixa densidade. A este nível posso referir que alguns residentes estrangeiros têm dado uma certa dinâ­mica ao interior algarvio.

O Algarve devia apoiar-se mais na co­munidade de estrangeiros residentes, principalmente nos que tem ligação com o meio artístico. São no geral pesso­as com uma visão bastante ampla, com experiências de vida muito enriquece­doras e dispostas a dar contributos para um Algarve mais criativo.

No âmbito da tese de mestrado que defendi em 2002, na Faculdade de Ci­ências Sociais e Humanas da Universi­dade Nova de Lisboa, comecei a estudar academicamente estas populações e as suas dinâmicas. Encontrei pessoas com imenso valor e vontade de dar contri­butos para um Algarve mais aberto ao mundo: desde artistas, diplomatas, académicos, médicos, terapeutas, escri­tores, etc.

Aproveito para sugerir a visita à ex­posição de pintura de Günter Grass, romancista, dramaturgo, poeta, inte­lectual, e artista plástico alemão, que foi vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 1999 e que tinha casa no Algarve, no concelho de Portimão.

A exposição será inaugurada hoje, dia 8 de Dezembro, e ficará patente até dia 4 de Março 2018 no Museu de Portimão.

Voltarei a esta temática do trabalho de investigação sobre estrangeiros resi­dentes no Algarve, numa outra edição do Postal do Algarve.

(Artigo publicado na edição papel do Caderno Cultura.Sul de Dezembro)

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