Património e Música

Património e Música

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António Alferes Pereira Maestro Grupo Coral Adágio
António Alferes Pereira
Maestro
Grupo Coral Adágio

À primeira vista, Património e Música parece-nos um título bem sugestivo para um artigo. Ao analisar mais de perto deparamo-nos com um questão: E música não é património? Claro que é! Há bem pouco tempo o Cante Alentejano foi considerado pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade. Estamos habituados a pensar em património associando-o aos vestígios materiais de cultura, isto é, a coisas palpáveis, visíveis, tangíveis. Na grande maioria dos casos, até as próprias línguas – som falado – têm um corpus consubstanciado nas gramáticas, nos dicionários, na literatura. Com a Música a relação é bem diferente. É certo que há cerca de 1.200 anos, com o aparecimento da escrita musical que hoje utilizamos, começou a constituir-se um corpus musical que nos nossos dias é inestimável, por ser gigantesco. É certo que antes disso os povos da Antiguidade Clássica e pré-clássica tinham formas de escrever música que infelizmente ainda não compreendemos na totalidade. É também certo que desde tempos remotos temos indícios de que o Homem sempre utilizou a música. A Música corre-nos nas veias, – pode dizer-se.

O problema é que a música não se vê. Podemos fazer uma reprodução do que se vê, mas é-nos mais difícil representar os outros sentidos. É fácil pintar uma paisagem ou desenhar uma casa, mas parece complicado desenhar o som. Não tem corpo como uma estátua ou como um templo. Ainda assim é, nas suas expressões, desde as mais populares às mais eruditas, património!

Deste património devem apoderar-se os povos. Que cada um usufrua do seu património é, não só um direito, mas também, e sobretudo, um dever. Temos o dever de tomar nas nossas mãos o património colectivo sob variadíssimas perspectivas. Devemos conservá-lo, admirá-lo, interrogá-lo e recriá-lo. Estas e outras atitudes positivas em relação ao legado dos nossos antepassados, permitem-nos recriar-nos, e reforçar a nossa identidade, desenvolvendo uma panóplia de actividades que, se a imaginação ajudar, nos pode abrir horizontes vastíssimos.

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Grupo Coral Adágio protagonizou o espectáculo ‘Da Pré História à Lua Cheia’ no monumento de Alcalar

Foi partindo destes pressupostos que propus ao grupo que dirijo concretizar uma acção cultural conjunta, dentro do nosso concelho.

Um grupo coral não tem, à partida, grande relação com um monumento de há cerca de cinco mil anos atrás. A dança, também não parece caber nesta ideia. Mas cabem: tanto a dança, como a música, como a luz.

O monumento megalítico de Alcalar consiste num túmulo da pré-história, formado por uma tholos: uma abóbada de pedra solta, rodeada por um murete de contenção e com uma abertura de um dos lados para uma cripta funerária. À frente dessa abertura/corredor, parece ter havido um muro atrás do qual se desenvolveriam, possivelmente, as cerimónias sagradas, vedadas à vista do povo que se juntaria no espaço fronteiro a esse muro.

O Grupo Coral Adágio estava na altura a recolocar no seu repertório um requiem, – Requiem, de Gabriel Fauré peça de finais do século XIX e que consiste em composições musicais que acompanham o cerimonial religioso para um defunto.

A passagem da vida à morte é um movimento que, embora incompreensível por nós, faz parte da nossa condição de humanos. Nada melhor para exprimir movimento que a dança.

A luz e as trevas ou a vida e a morte, são dualidades que a nenhum de nós escapam. A luz, e a sua manipulação com as técnicas de que hoje dispomos, pode oferecer-nos magníficos espectáculos de raras contemplações.

A acrescentar a todas estas ideias, junta-se o facto de que, cada vez mais, necessitamos de actividades culturais que extravasem o grupo onde são desenvolvidas e se cruzem, de forma multidisciplinar, estimulando-se mutuamente e obrigando a um convívio desejável que cria novas sinergias.

O espectáculo que se desenvolveu na noite de 27 de Maio, em Alcalar, quis proporcionar, a quem assistiu, uma viagem de cinco mil anos. O monumento megalítico, a luz, a dança e o som abarcaram um arco temporal de cinco mil anos. E levanta, nos espíritos mais perspicazes e atentos, questões pertinentes. A Arte não deve servir só para contemplar. Tem de recriar, interrogar, desinquietar ou desassossegar, como diz o poeta.

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Espectáculo proporcionou uma viagem de cinco mil anos

O que é a memória? Quanto tempo dura? Que forma é esta de estar? Que relação temos com o Tempo? com o espaço? Quem sou eu? Porque não? Por quanto tempo levarei flores à campa dos meus antepassados? Há regras para isso? Há costumes? O que é o luto? Porquê? Para quê?

Não deverei levar flores aos meus antepassados de há cinco mil anos?

– Porquê? Nunca os conheci! dirão. Mas também Camões eu nunca conheci e, ainda assim, o homenageio depositando coroas de flores na base da sua estátua, para comemorar o hipotético dia da sua morte! Também Fauré eu nunca conheci e no entanto canto a sua música.

Mas Camões escreveu obras fundamentais da nossa cultura. Fauré é reconhecido internacionalmente pela qualidade da sua música. E os construtores do monumento? E os seus arquitectos? e quem lá foi sepultado? Que Homens foram? Que feitos praticaram? Porque chegaram até nós desta forma, em forma de pedra?

Foi por tudo isto que propus a realização de um concerto junto a um monumento megalítico com cinco mil anos, executando obras de Fauré com cerca de 150 anos; foi por tudo isto que incorporei o movimento da dança, tão bem expresso pelas seis alunas da professora de dança Nilsen Jorge. Foi esta a razão da utilização das luzes e das actuais tecnologias.

Resta-nos dar relevo a todos nós, Homens de hoje, que participámos no evento cantando, dançando, iluminando, tocando e assistindo…

Fica-nos a memória. Impõe-se agora pensar, reflectir, perpetuar.

Se isto aconteceu, a nossa apropriação de um monumento, criou arte que cumpriu a sua função: Fruir e fazer pensar. E claro, o desejo de mais.

(Artigo publicado na edição papel do Caderno Cultura.Sul de Dezembro)

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