Pode a arte motivar?

Pode a arte motivar?

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A OPINIÃO de SAUL NEVES DE JESUS; Professor catedrático da Universidade do Algarve; Pós-doutorado em Artes Visuais pela Universidade de Évora; snjesus@ualg.pt https://saul2017.wixsite.com/artes
A OPINIÃO de SAUL NEVES DE JESUS;
Professor catedrático da Universidade do Algarve;
Pós-doutorado em Artes Visuais pela Universidade de Évora;
snjesus@ualg.pt
https://saul2017.wixsite.com/artes

Neste artigo propomo-nos abordar a questão “pode a arte motivar?”, no sentido de iniciarmos desde logo com optimismo e motivação este novo ano.

Esta questão poderia ser analisada na perspectiva da arte ser fonte de motivação para quem a pratica.

Aliás, já anteriormente tivemos oportunidade de abordar “a arte como actividade libertadora do instinto” (Bossaglia, 2001), ou como uma actividade que permite o desenvolvimento dum estado de fluxo (Csikszentmihalyi, 1999), apresentando os artistas um sentimento de total envolvimento e a consciência totalmente focada na actividade em si mesma. Isto acontecia, em particular, no Movimento Transvanguarda dos anos 80, ou nos Action Painting dos anos 40 e 50. Neste âmbito, a liberdade e o prazer do artista, quase que em catarse, são as principais características do processo de produção artística. A “pureza” da produção artística está também nesta liberdade, neste prazer e na motivação intrínseca que vários artistas foram revelando ao longo da história de arte. Num outro âmbito, também na arte-terapia, a motivação e o prazer são essenciais na produção artística.

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No entanto, a abordagem que queremos aqui salientar diz respeito ao poder da mensagem visual que poderá ter impacto na própria motivação de quem aprecia a arte.

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Obra ‘Procurando Inspiração – Art Creation’ (2009)

Em vários artigos anteriores explicitámos o nosso entendimento da arte visual como uma forma de comunicação, pois podemos conseguir sintetizar ideias e salientar pormenores da realidade, através de imagens criadas com os diversos meios ou técnicas das artes visuais. Aliás, costuma dizer-se que “uma boa imagem vale mais do que 1000 palavras”, mostrando o poder que as imagens visuais podem ter.

No nosso percurso de produção artística temos procurado sistematizar ideias e conceitos, sintetizando-os através da criação de imagens visuais. Foi nesse sentido que abordámos o conceito de stresse, em particular no livro “Stress approach by Visual Arts” (Jesus, 2013) ou, de forma bem mais resumida, no artigo “O que é o stresse? Resposta através da imagem visual” (Jesus, 2017).

Desta vez, pretendemos analisar o conceito de motivação, destacando ainda o impacto motivacional que podem ter algumas obras.

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Obras ‘Motivação: vontade e esforço (Homenagem ao cientista Einstein e ao poeta Machado’e ‘Secrets for a happy life (Homage to Banksy and Einstein)’ (2017

Já em 1988, havíamos abordado a Teoria Hierárquica das Necessidades de Maslow, procurando ilustrar a expressão de cada uma das necessidades através de fotografias.

Num outro trabalho, “Procurando Inspiração – Art Creation” (2009), centrámo-nos na reflexão sobre o próprio processo de criação em artes visuais. Na tela desenhámos um ponto de interrogação, traduzindo a busca da ideia ou do ponto de partida por parte do artista quando confrontado com uma tela em branco sobre a qual irá projectar a sua criatividade. Assim, tal como qualquer investigação em ciência se inicia com uma questão de partida, também a produção artística se pode iniciar com a questão que o artista coloca a si próprio sobre o que irá pintar na tela, motivando-o para a realização da mesma.

Uma outra obra que realizámos, procurando ser inspiradora de motivação, intitula-se “Madeira em Desenvolvimento. Homenagem” (2009). Nela ilustramos o esforço dos trabalhadores nas obras realizadas na realização dos túneis que permitiram melhorar significativamente as acessibilidades na Ilha da Madeira, tendo sido colocada a frase “Yes, we can!”, de Barack Obama.

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Obra ‘Homenagem ao esforço e à invenção da lâmpada eléctrica por Edison’ (2011)

Em termos de trabalhos cujo conteúdo ilustra o conceito de motivação, destacamos a obra “Homenagem ao esforço e à invenção da lâmpada eléctrica por Edison” (2011), em que procurámos evidenciar a invenção da lâmpada eléctrica incandescente, em 1879, uma das invenções mais importantes da sociedade moderna, que marcou a passagem da Era do Vapor para a Era da Electricidade. No entanto, embora Edison seja universalmente conhecido por esta invenção, em geral não se sabe que foi ele que, em 1932, referiu que “o génio consiste em um por cento de inspiração e noventa e nove por cento de transpiração”. Assim, quisemos, na mesma obra, evidenciar a descoberta da lâmpada eléctrica e a importância da motivação, do esforço e da persistência para atingir objectivos, desenhando uma figura no topo da tela a ter um insight criativo, junto a uma lâmpada que se acende, suportada por outras noventa e nove figuras a correr e a transpirar. As gotas deste “suor” inundam um mar pleno de energia criativa, encontrando-se escrita a frase “Genius is 1 percent inspiration, 99 percent perspiration!”.

Este posicionamento é importante para destacar a importância do esforço e da persistência para atingir objectivos e para concretizar o processo criativo, ao contrário da ideia predominante no senso comum, que pressupõe a genialidade como resultado de factores hereditários.

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Obra ‘Madeira em Desenvolvimento. Homenagem’ (2011)

Para além da componente do esforço, que expressa a motivação no plano comportamental, também existe a componente vontade, que expressa a motivação no plano cognitivo. Assim, no final de 2017, realizámos o trabalho “Motivação: vontade e esforço (Homenagem ao cientista Einstein e ao poeta Machado)”, encontrando-se na tela a imagem dum cérebro que dá continuidade a um braço musculado, tendo escrito no cérebro a frase “onde há vontade, há um caminho”, do cientista Albert Einstein, ilustrando o plano cognitivo da motivação, e no braço “o caminho faz-se caminhando”, do poeta espanhol António Machado, ilustrando o plano comportamental da motivação. Ambas as frases são do início do século XX, tendo cerca de um século, mas são intemporais, pelo conteúdo que expressam. As frases encontram-se escritas em continuidade, aproveitando a palavra “caminho”, pois a vontade e o esforço são complementares, representando as duas componentes da motivação. As letras estão escritas ao contrário, permitindo a experiência de alguma vontade e esforço por parte de quem está a apreciar a obra para perceber o que está escrito.

A esta obra associa-se uma outra intitulada “Secrets for a happy life (Homage to Banksy and Einstein)”, em que uma mão segura dois balões, cada um deles com uma frase que constitui um segredo para uma vida com mais qualidade ou mais feliz. As frases são as seguintes: “I don’t know why people are so keen to put the details of their private life in public; they forget that invisibility is a superpower” (“Não sei porque é que as pessoas estão tão interessadas em tornar públicos os detalhes da sua vida privada; esquecem-se que a invisibilidade é um superpoder”), do artista Banksy (2017); e “A quiet and modest life brings more joy than a pursuit of success bound with constant unrest” (“Uma vida calma e humilde traz mais felicidade do que a busca pelo sucesso numa agitação constante”), de Einstein (1922). Esta última frase foi recentemente leiloada por 1,3 milhões de euros. Havia sido escrita por Einstein, na mesma situação em que escreveu a frase antes referida (“onde há vontade, há um caminho”), esta leiloada por 203 mil euros, tendo sido ambas entregues a um funcionário do Hotel Imperial de Tóquio, como gorjeta.

Já agora, em 2018, procuremos ser felizes.

(Artigo publicado no Caderno Cultura.Sul de Janeiro)

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