Leitura da Semana: Na praia de Chesil, Ian McEwan

Leitura da Semana: Na praia de Chesil, Ian McEwan

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A rubrica Leitura da Semana é publicada semanalmente à terça-feira; Paulo Serra é doutorado em Literatura na Universidade do Algarve e investigador do CLEPUL
A rubrica Leitura da Semana é publicada semanalmente à terça-feira;
Paulo Serra é doutorado em Literatura na Universidade do Algarve e investigador do CLEPUL

Nos anos 60, quando a Grã-Bretanha se tornou numa potência menor, quando ainda não existe a palavra adolescente, nem se entraram nos loucos tempos de liberdade sexual, quando ainda se vive segundo alguns convencionalismos burgueses, mas a masturbação já não é tabu nem pressupõe a crença de que causa cegueira, um jovem casal vive a sua noite de núpcias, passadas cerca de oito horas da cerimónia do casamento. O livro não o indica directamente, mas estamos em Julho de 1962, no final de um dia de verão, Florence e Edward esperam ansiosamente que lhes acabem de servir a refeição no quarto, para poderem ficar finalmente a sós. Mas o momento que Edward deseja com crescente excitação, é igualmente temido por Florence, que receia o instante em que terá de render o seu corpo ao noivo. As 128 páginas deste livro alternam entre o discorrer da sua “noite de núpcias” e o rememorar das suas vidas e relação com os pais, bem como dos últimos anos desde que se conheceram.

McEwan, Ian c Annalena McAfee
O escritor Ian McEwan, autor da obra ‘Na praia de Chesil’ (Foto: Annalena McAfee)

«Eles eram jovens, licenciados, ambos virgens naquela sua noite de núpcias, e viviam numa época em que uma conversa sobre dificuldades sexuais, que nunca é fácil, era simplesmente impossível.» (p. 7)

Pode ler-se que esta é «mais uma obra-prima de Ian McEwan – uma história de vidas transformadas por um gesto não feito ou uma palavra não dita», à semelhança da obra de Kazuo Ishiguro, cuja intriga gira muitas vezes em torno de um equívoco ou mal-entendido.

Um livro tão brilhante quanto incómodo, na forma como indicia que por vezes é só no fim do decurso de uma existência que verdadeiramente reconhecemos como uma só palavra ou cedência poderia ter resultado num desfecho de uma vida completamente diferente. E mais realizada.

A capa do livro de Ian McEwan

O filme foi adaptado ao cinema e deverá estrear em Maio, com realização de Dominic Cooke, e Saoirse Ronan e Billy Howle nos principais papéis. Saoirse Ronan é a mesma jovem que despoleta toda a confusão de Expiação (2007 – outra das várias adaptações ao grande ecrã das obras do autor).

Este jovem casal contracenará ainda este ano noutro filme, A Gaivota, uma adaptação a partir da peça de Tchékho

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