Podem as guerras ‘inspirar’ obras de arte?

Podem as guerras ‘inspirar’ obras de arte?

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A OPINIÃO de SAUL NEVES DE JESUS; Professor catedrático da Universidade do Algarve; Pós-doutorado em Artes Visuais pela Universidade de Évora; snjesus@ualg.pt https://saul2017.wixsite.com/artes
A OPINIÃO de SAUL NEVES DE JESUS;
Professor catedrático da Universidade do Algarve;
Pós-doutorado em Artes Visuais pela Universidade de Évora;
snjesus@ualg.pt
https://saul2017.wixsite.com/artes

Foi recentemente divulgado o programa de evocação do centenário da Pneumónica, da inauguração do Sanatório Carlos Vasconcelos Porto em São Brás de Alportel e do fim da 1ª Guerra Mundial. É uma iniciativa conjunta da Direção Regional de Cultura do Algarve, da Administração Regional de Saúde do Algarve, da Câmara Municipal de São Brás de Alportel e da Universidade do Algarve.

Do conjunto de iniciativas previstas, destacaria a que se irá realizar no dia 9 de novembro na UAlg que diz respeito às “comemorações do centenário do fim da 1ª Guerra Mundial”.

Mais do que comemoração, neste caso trata-se de evocar as memórias, para que as novas gerações possam aprender com os erros do passado

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A história é feita de acontecimentos marcantes, uns bons e outros maus, podendo a arte visual ajudar a manter vivas no presente as memórias do passado, ajudando a construir os caminhos do futuro.

As guerras destacam-se de entre os acontecimentos marcantes na história de qualquer povo, havendo obras de arte que ajudam a compreender o que aconteceu em determinados períodos da história.

Uma das obras de arte mais conhecidas que procura expressar o horror da guerra é a pintura “Guernica”, de Picasso, com a dimensão de 3,49m x 7,77m, exposta no Museu Reina Sofia, em Madrid. Esta é uma das principais obras de Picasso, constituindo uma “declaração de guerra contra a guerra e um manifesto contra a violência”, segundo alguns autores. Esta obra foi feita em 1937, sobre a Guerra Civil de Espanha, em particular sobre o bombardeamento da cidade espanhola de Guernica, a 26 de Abril de 1937, por aviões alemães, seguindo as ordens de Hítler em apoio ao ditador Francisco Franco. O repúdio de Picasso em relação a este bombardeamento, que destruiu edifícios e matou pessoas e animais indefesos, é expresso por apenas ter usado preto e branco, como que estando de luto. A focalização de Picasso na abordagem do sofrimento humano, durante este período da guerra civil espanhola, pode também ser encontrada noutros trabalhos seus, em particular nas pinturas “Mulher chorando” e “Mulher chorando com lenço”, ambas de 1937.

pintura guernica
Pintura ‘Guernica’, de Pablo Picasso – 1937 (Fotos: DR)

Neste ano de 1937 foram vários os artistas que expressaram o seu repudio pela guerra. Por exemplo, Horacio Ferrer na sua pintura “Madrid 1937 – Aviões negros” representa o terror e a raiva das mulheres com os seus filhos nos braços, num ambiente de grande tensão e revolta em relação à guerra, em particular aos ataques dos aviões. De destacar o fato de, embora a guerra fosse fundamentalmente realizada entre homens, apenas aparecerem mulheres e crianças neste trabalho, procurando evidenciar o sofrimento que atinge também aqueles geralmente considerados mais frágeis e indefesos. Ainda de salientar que embora o título da obra e o olhar da personagem principal ser voltado para cima a reclamar, induzindo claramente para uma situação de bombardeamento feito por aviões, estes não aparecem neste trabalho, tal como acontece em “Guernica”.

Também em 1937, o pintor catalão Miró fez o cartaz “Aidez l’Espagne” (“Ajudem a Espanha”), para apoiar a luta dos republicanos espanhóis, em que o perfil desenhado ilustra um grito semelhante aos perfis do quadro de Picasso. No entanto, no quadro de Miró temos o “grito” associado à “luta” (oposta à “fuga”) e com um sentido de vitória, simbolizada pelo punho gigante, traduzindo a atitude e a força dos republicanos na guerra civil espanhola.

Esta expressão motivadora em situações de guerra pode ser encontrada em muitas outras obras, sendo a abordagem alternativa à expressão dramática dos horrores da guerra. Por exemplo, a pintura “A liberdade guiando o povo” representa a Revolução de Julho de 1830, com a queda de Carlos X, em que a mulher que constitui a personagem principal desta pintura guia o povo por cima dos corpos dos derrotados, levando numa mão a bandeira tricolor da Revolução Francesa. Esta pintura inspirou a Estátua da Liberdade, em Nova Iorque, oferecida pelos franceses cinquenta anos depois. Uma versão gravada desta pintura foi destaque na nota de 100 francos do início dos anos 90. No âmbito da escultura destaca-se o trabalho de François Rude, “A Marselhesa” (1833-36), constituindo uma das quatro grandes esculturas que se encontram no Arco do Triunfo, em Paris, inaugurado por Napoleão para proclamar a glória da França. A importância desta imagem é reforçada pelo facto de ter vindo a ser depois utilizada nas moedas de dez francos.

poster miro
Poster ‘Aidez l’Espagne’, de Miró (1937)

Infelizmente, algumas das guerras representadas em obras do passado encontram versões na realidade contemporânea. Por exemplo, em 1824, Eugene Delacroix produziu a obra “O massacre de Constantinople”, representando o massacre de Quios, um episódio da guerra da independência dos gregos contra os turcos, em que foram mortos cerca de 20 mil habitantes na ilha grega de Quios, sendo submetidos à escravatura os sobreviventes. Na atualidade, a ilha de Quios, na Grécia, volta a ser notícia pela situação em que se encontram os refugiados.

Atualmente, a guerra é mais imprevisível nas suas manifestações, devido aos ataques terroristas, que ocorrem cada vez com maior frequência e gravidade, aumentando a insegurança das pessoas e a incerteza quanto ao futuro, parecendo que, não obstante a longevidade ser cada vez maior, a perspetiva temporal de futuro é cada vez menor.

Como forma de sintetizar este aumento da incerteza e da insegurança na sociedade atual, realizámos a pintura em acrílico “Grito de sangue em atentado terrorista” (2010), com as dimensões de 4,00m x 2,10m. Esta pintura representa o comportamento limite do sujeito, gritando de forma desesperada, sentindo que não pode fazer nada, uma total impotência ou um total descontrolo, face à situação em que se encontra. Neste contexto, as pessoas focalizam-se cada vez mais no presente e nas questões imediatas que têm para resolver.

O imediatismo e o consumismo encontram cada vez mais “espaço/tempo” para prosperar  nesta sociedade, em que as pessoas procuram distratores que permitam a aparente satisfação imediata das suas necessidades. 

Talvez a arte visual possa ajudar a parar no tempo e a refletir, aprendendo com o passado no presente…

(Artigo publicado no Caderno Cultura.Sul de Abril)

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