O grande equívoco dos descobrimentos marítimos

O grande equívoco dos descobrimentos marítimos

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A OPINIÃO de JOSÉ GONÇALVES VIANA Ex-secretário de Estado das Pescas
A OPINIÃO de JOSÉ GONÇALVES VIANA
Ex-secretário de Estado das Pescas

O artigo “O Museu Daquilo” publicado no Expresso de 21 pp acelerou o meu interesse em tentar contribuir para o esclarecimento do facto mais importante da História de Portugal e que tão mal tratado tem sido.

Para começar não escrevi “descobrimentos marítimos portugueses” porque os únicos descobrimentos de grande porte que permitiram a expansão europeia foram os portugueses. O museu de Madrid dos “descubrimientos maritimos” começa com Colombo…

A palavra descobrimento significa a acção que permite passar a conhecer algo que era desconhecido. O ser marítimo significa ter sido realizado por navios.

Ora desde o início da existência de um País chamado Portugal, por vontade de D. Afonso Henriques, a consolidação deste novo reino implicou o desenvolvimento das atividades marítimas aproveitando o facto da costa portuguesa ser passagem obrigatória de todo o tráfego entre os povos mediterrânicos e os do norte da Europa, o que dadas as características e a pequenez dos navios então utilizados provocou a existência de vários portos ao longo da nossa costa com relevo para Lagos, Lisboa e Porto, onde de desenvolveu uma burguesia muito ativa com elevada percentagem de judeus vindos pelo norte de África e possuidores da cultura existente em Alexandria enquanto as populações do norte que constituíam a maioria da nobreza ainda tinham, tal como no centro da Europa, uma cultura medieval.

Após a morte do rei D. Fernando entre as duas propostas de sucessão: a da burguesia com o Mestre de Avis como candidato e a da nobreza com o rei de Castela, venceu a primeira e assim se tornou possível o desenvolvimento da Marinha portuguesa.

O que aconteceu trinta anos depois de ser coroado como D. João I ao organizar uma frota com cerca de 200 embarcações, de grande porte para a época, sem perturbar a vida económica nacional, conquistar Ceuta e iniciar os descobrimentos marítimos ou seja passar a conhecer o oceano atlântico, isto é, as suas correntes e os seus ventos que permitissem atingir por via marítima o oriente, mais concretamente a Índia cujas riquezas eram conhecidas.

Portanto os descobrimentos marítimos obviamente portugueses, e que precederam a expansão marítima europeia de quase um século, além do oceano foram os territórios da América para onde D, João II conseguiu levar os Reis Católicos através de Colombo de forma a sermos nós os primeiros a chegar à India, e o Brasil.

O caminho para a Índia foi descoberto por Bartolomeu Dias e o Brasil foi naturalmente descoberto a partir da prática da volta da Mina com o objetivo de alargar o conhecimento dos regimes de ventos do Atlântico Sul, e mantido obviamente em segredo, mesmo antes do Tratado de Tordesilhas, o que bate certo com a recusa de D. João II à proposta dos Reis Católicos de após a assinatura daquele tratado ir uma frota conjunta marcar a localização do respetivo Meridiano.

Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral não descobriram nada mas foram essenciais para Portugal definir a sua posse da ligação com o Oriente e do Brasil respetivamente o que não lhes tira o valor mas os descobrimentos propriamente ditos acabaram com a morte de D. João II em 1496.

A partir daqui as notáveis navegações portuguesas não foram descobertas de territórios que já eram conhecidos mas não contactados por europeus por via marítima e permitiram realizar por mar as trocas comerciais até aí dominadas pelo médio oriente e Veneza.

Portanto convém a bem da verdade que fique assente os descobrimentos marítimos portugueses terem sido realizados entre 1385 com D. João I e 1496 quando morreu D, João II e deixou a enorme herança da globalização e dos territórios que os seus herdeiros tão mal geriram e mesmo assim chegaram até 1974.

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