Gestão cultural do livro e da leitura

Gestão cultural do livro e da leitura

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Bibliotecária; Sócia da AGECAL
Bibliotecária;
Sócia da AGECAL

Este pseudo-artigo resulta de uma comunicação apresentada na Conferência Internacional sobre Gestão Cultural, promovida pela AGECAL, para comemorar o seu décimo aniversário. Um encontro interessantíssimo que reuniu gestores culturais de diversos países, resultando numa generosa partilha de boas práticas.

Fui desafiada para falar sobre Bibliotecas. Sobre as Bibliotecas como espaços culturais.

Resolvi contar uma história, pois contar histórias é uma das atividades fundamentais nas Bibliotecas.

Assim, era uma vez…

A Biblioteca é uma instituição com uma história milenar e que ao longo do tempo tem demonstrado a sua grande resiliência e capacidade de adaptação.

Humberto Eco na sua obra A Biblioteca descreve desta forma as Bibliotecas:

“… comecei a refletir sobre qual será a função de uma Biblioteca. No início, no tempo de Assurbanipal ou de Polícrates, talvez fosse uma função de recolha, para não deixar dispersos os rolos e volumes. Mais tarde, creio que a sua função tenha sido de entesourar: eram valiosos, os rolos. Depois, na época beneditina, de transcrever: a biblioteca quase como uma zona de passagem, o livro chega, é transcrito e o original ou a cópia voltam a partir.

Penso, que em determinada época, talvez já entre Augusto e Constantino, a função de uma biblioteca seria também a de fazer com que as pessoas lessem (…) É claro que essas bibliotecas também eram feitas para permitir que se encontrassem. Surpreende-nos sempre a habilidade dos humanistas de século XV em encontrarem manuscritos perdidos. Onde é que os encontram? Encontram-nos na biblioteca. Em bibliotecas que em parte serviam para esconder, mas também serviam para se achar. (…) Penso que a biblioteca se irá dimensionando pouco a pouco à medida do homem”.

As palavras de Humberto Eco lembram- nos os desafios ultrapassados com sucesso no passado e são profundamente atuais quanto aos desafios do presente a que a Biblioteca diariamente procura responder.

biblioteca tavira
As Bibliotecas encheram-se de atividades culturais em torno do livro e da leitura [Foto: Maria Simiris)
Nos anos de 1980, em Portugal, as Bibliotecas viveram uma verdadeira revolução. O projeto da Rede de Bibliotecas Públicas, iniciado em 1986, vem dotar todos os concelhos de uma Biblioteca alicerçada em novos paradigmas. Uma Biblioteca centrada no utilizador, em livre acesso, com documentos em vários suportes, com espaços dedicados a diferentes perfis de utilizadores, informatizada e com acesso à internet, com espaços para acolher a atividade cultural. Este projeto, que perdura por 30 anos, será certamente um dos mais estruturantes e consensuais que o país já teve, passando por diversos governos, de diferentes quadrantes políticos. Esta rede inspirou a Rede de Bibliotecas Escolares, que nasce em 1997, e influenciou as Bibliotecas de Ensino Superior.

Em paralelo, o Manifesto da UNESCO para as Bibliotecas Públicas atribui à Biblioteca Pública várias missões-chave relacionadas com a cultura:

– Criar e fortalecer os hábitos de leitura nas crianças, desde a primeira infância; – Assegurar a cada pessoa os meios para evoluir de forma criativa;

– Estimular a imaginação e criatividade das crianças e dos jovens;

– Promover o conhecimento sobre a herança cultural, o apreço pelas artes e pelas realizações e inovações científicas;

– Fomentar o diálogo intercultural e a diversidade cultural;

– Apoiar a tradição oral;

– Possibilitar o acesso a todas as formas de expressão cultural das artes do espetáculo.

Em resposta ao desafio, as Bibliotecas encheram-se de atividades culturais em torno do livro e da leitura. Horas do conto, leitura encenada, ateliers de escrita criativa, clubes de leitura, encontros com escritores, apresentações de livros, encontros de poesia, concursos de leitura, etc.

As Biblioteca encheram-se de conferências, de exposições (fotografia, pintura, escultura, artesanato…), de teatro, de cinema, de dança, de música… para todos.

… E foi assim que os Bibliotecários se transformaram em Gestores Culturais e as Bibliotecas em centros privilegiados de acesso democratizado à cultura.

(Artigo publicado no Caderno Cultura.Sul de Junho)

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